Quanta verdade precisa a literatura?

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Por Rogério Christofoletti – Uma corrente da crítica tem afirmado que os livros de crime e suspense são hoje os maiores representantes da literatura realista. Quer dizer: se há autores que ainda mantêm algum apego às tramas do cotidiano, esses “cometem” novelas e romances policiais, impactados pela violência nossa de cada dia, pela corrupção, pela transgressão e por uma espécie de “vontade de saber”. Outros tipos de literatura não estariam mais tão atados a essas amarras, singrando em deriva sob os regimes intempestivos dos ventos da criação.

Mais mundanos, os policiais navegam por águas confinadas, que podem até se assemelhar às do oceano, mas estão longe disso. As águas do realismo são como as do Mar Cáspio: salgadas, profundas e que desafiam os horizontes. Mas sabemos: é uma ilusão, o Mar Cáspio por maior que seja, não passa de um lago…

O realismo aprisiona, mas também dá estabilidade, pois se ancora em algumas certezas. Ele não tem um compromisso apenas com o nosso tempo e as nossas coordenadas. Mantém ainda vínculos com nacos preciosos do que convencionamos chamar de “verdade”. Para ser mais preciso, “verossimilhança”…

Assim, de início, os crimes se mostram misteriosos e inacreditáveis, mas a trama evolui à medida que desvela a lógica e as razões que produziram aquele quadro grotesco. Os personagens se assemelham aos que conhecemos na vida e talvez por isso nos afeiçoemos tanto a eles. O crime nos exaspera na mesma medida que nos fascina; e o detetive assume a nossa vez de encontrar a forma, o agente e os motivos que causaram toda aquela desordem.

Sim, a literatura precisa de verdade. Mas quanto dela?

Roger Franchini é autor de “Ponto Quarenta” e “Matar Alguém”, dois bons exemplos da literatura policial brasileira contemporânea. Neles, o escritor coloca policiais numa condição moral extrema: os combatentes do crime transgridem as leis, os códigos corporativos e a aura de benfeitores. A corrupção parece endêmica, e portar um distintivo ou usar uma farda garante prerrogativas oficiais para se matar e cometer outras atrocidades. Ex-investigador, Franchini sabe o que diz. Virou a noite em plantões, esteve em diligências, ajudou a esticar o longo braço da lei. Viu muita coisa em alguns anos de polícia, e o leitor sorve cada palavra de seus livros como se bebesse de um licor para poucos. Em “Ponto Quarenta”, em plena madrugada na delegacia, um misterioso personagem estimula a metalinguagem: “A polícia não teria nenhuma graça se todos os seus policiais fossem como nós. E a literatura não serviria de nada se seus personagens fossem como nós deveríamos ser”. Imagino que Franchini posicionou o velho personagem como um farol, para não trombar no continente. Afinal, se a luz que ele emite não alertar a tempo, Franchini talvez se esqueça de fazer literatura e passe a fazer apenas acertos de contas, confidências de seu ofício passado. Menos realidade, menos, por favor…

Por conta desse imperativo do real, o absurdo assaltou a literatura nacional com o episódio que pode tornar réu o escritor Ricardo Lísias. Uma denúncia anônima “alertou” as autoridades policiais que o autor teria falsificado documentos na série de livros do Delegado Tobias, o que fez com que recebesse intimação inclusive da Polícia Federal. Não é raro que Lísias faça autoficção, que seus personagens se chamem Ricardo Lísias e sejam escritores, e que fatos e nomes verdadeiros se mesclem ao que cria, mas daí a interpelar um artista por ter “inventado documentos” é demais, não?

Menos realidade, menos, por favor…

Mas como evitar jogar o bebê com a água da banheira? O realismo não precisa mais do real? Nem tanto céu nem tanto o mar. A literatura aproveita do real os contornos, volumes e odores. Mas ela não se guia por um regime de validade única. Isto é, a arte cria suas próprias verdades, suas possibilidades de crença e de estabilização. Franchini faz literatura quando recorre ao velho trôpego da madrugada para desafiar o real e o esperado. Do contrário, as teclas pressionadas do computador só teriam produzido documentarismo e fel. Lísias faz literatura quando borra as fronteiras entre o que ele vive e seus “eus” vivem nas páginas, criando um terreno minado onde todas as coisas podem assumir a condição de existência efetiva.

A verdade com inicial maiúscula e no singular – aquela que filósofos e crentes buscam como quem persegue a própria sombra -, na literatura, funciona como fantasma. Sabemos que ela existe, mas evitamos encontrá-la. A redenção literária é conjugá-la com letras minúsculas e sempre no plural.

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Rogerio Christofoletti

Jornalista, dramaturgo e professor universitário. Já publicou 11 livros na área acadêmica e escreveu oito peças de teatro. É um dos autores do e-book "Os Maiores Detetives do Mundo" (Chris Lauxx).

6 comentários em “Quanta verdade precisa a literatura?

  • outubro 6, 2015 em 9:14 pm
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    Nos contos de Casos Recifenses, eu apresentei um policial realista com ênfase na verossimilhança, mas dentro de uma idealização weberiana do pano de fundo. Scanoni é um policial brasileiro q nunca recorre à truculência ou tortura e sim ao trabalho de investigação. Rejeitei totalmente esse “realismo” da narrativa de crime brasileira, q considero meio apelativo, na verdade e q estigmatiza ainda mais as instituições policiais

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    • outubro 6, 2015 em 11:43 pm
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      Legal, Fernando. Fiquei curioso… Acho importante o autor ter essa consciência de que o realismo pode aprisionar e acho mais importante ainda que ele desafie seus limites criativos e imaginativos. abraço

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  • outubro 6, 2015 em 9:24 pm
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    Quando me encaminharam a notícia da intimação por causa da suposta fraude de documentos, dentre outras alegações, fiquei surpreso com o que chamei apenas de falta de senso de humor.

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