Os mistérios da autobiografia de Agatha Christie

Por Ana Paula Laux – Publicada um ano após a morte de Agatha Christie, sua autobiografia foi reeditada em outubro de 2015 pela editora L&PM, voltando com nova tradução e nova capa. É uma leitura recomendada para fãs de Agatha e de romances policiais.

 

 

Nas 568 páginas do livro, a escritora relembra pessoas que a influenciaram, das babás à irmã Madge, da mãe Clara aos animais de estimação. Também cita paixões gastronômicas, a exemplo do favorito creme de leite de Devonshire, e experiências curiosas como quando morou em Paris na adolescência e presenciou uma das tentativas de voo de Santos Dumont no Bois de Bolougne.

Por causa da época em que cresceu, a conservadora era vitoriana no final do século 19, alguns costumes soam singulares hoje. Como exemplo havia as máquinas de banho no verão inglês para assegurar a privacidade das mocinhas na praia, e as regras para os encontros de salão das adolescentes, que agendavam num “caderninho” as danças com futuros pretendentes nas festas.

As primeiras lembranças de Agatha foram as mais doces que conservou. Ela foi uma criança criativa e sonhadora, que se divertia facilmente com brinquedos e mundos imaginários. Sua família era de classe média alta, e por isso ela teve uma criação com conforto e cheia de experiências. As primeiras histórias foram escritas numa Empire, a máquina de escrever da irmã que, segundo Agatha, era uma excelente escritora mas nunca seguiu a profissão.

Se não tivesse servido na 1ª Guerra Mundial como enfermeira, ela provavelmente não teria se tornado a escritora brilhante que foi. Lidar com situações adversas e aprender a administrar remédios, tudo isso serviu como um laboratório para o que viria depois em sua vida. Agatha fala sobre o casamento com o primeiro marido, Archibald Christie, e sobre as viagens que fez pelo mundo, especialmente com o arqueólogo Max Mallowan, com quem se casaria após o divórcio de Archibald.

 

 

“Não havia maldade em Miss Marple.
Ela apenas não confiava cegamente nas pessoas”

 

No recheio do livro, Agatha lembrou da família, amigos e literatura. O único membro que ela pouco descreve é seu irmão Monty, talvez por ele ter morado muito tempo fora da Inglaterra. A filha Rosalind e a vida doméstica durante a guerra renderam várias confissões, como o fato ela não considerar que ser escritora era sua profissão oficial nos primeiros anos (assinava “prendas domésticas” em formulários quando solicitada). Com relação à escola, sua educação inicial foram as aulas de aritmética com o pai enquanto aprendia a ler sozinha, xeretando a biblioteca da família. Mais tarde, frequentou cursos preparatórios para moças que serviam para educá-las como futuras esposas e mães prendadas. Em 1912, o mundo era ainda bastante sentimental.

Apesar da timidez, Agatha encarava a vida com um determinismo e uma sabedoria inatos, enfrentando os desafios que apareciam pelo caminho e permitindo-se aprender com os próprios erros. Pouco afeita a holofotes, entrevistas e badalações, ela jamais sentiu-se confortável em festas de lançamento de livros e frequentemente atendia eventos do tipo por obrigação. Mas um evento em especial a marcou com orgulho: o dia em que conheceu a rainha da Inglaterra.

“Autobiografia” começou a ser escrito em abril de 1950 e só foi finalizado quinze anos depois. Neste livro, Agatha Christie escolheu priorizar os momentos de felicidade e de crescimento pessoal. Na maravilhosa escola da vida, talvez ela nunca tenha deixado de ser uma eterna adolescente de olhos sonhadores, que adorava doces de creme de leite e refrescantes banhos de mar.

 

Resenha em vídeo no Youtube

 

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Título: Autobiografia
Autora: Agatha Christie
Páginas: 568
Editora: L&PM
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SINOPSE – Como que numa conversa espontânea com um amigo, Agatha Christie revela pessoas e fatos que inspiraram alguns de seus personagens e enredos, o que estava acontecendo em sua vida enquanto escrevia determinado romance e também sua sensível percepção sobre um mundo e uma sociedade que, ao longo de sua vida, passaram por mudanças drásticas. Destas deleitáveis páginas, repletas de ternura, emerge, sim, uma mulher madura e feliz, relembrando o próprio passado, mas sobretudo uma mulher ousada, à frente do seu tempo, que trilhou seu próprio e inusitado caminho, numa existência tão interessante quanto literariamente exitosa.

 

 

Ana Paula Laux

Jornalista. Trabalha com curadoria de informação, gestão de mídias sociais e criação de conteúdo digital. Em 2014, lançou o e-book "Os Maiores Detetives do Mundo" (Chris Lauxx).

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