O Violão Azul, de John Banville

Por Rogério Christofoletti – Há histórias em que, desde o começo, ficamos do lado dos caras maus. Não porque sejamos más pessoas, mas acima de tudo porque esses sujeitos são bons em alguma coisa. Eles nos conquistam, nos ganham com seu jeito especial, um olhar magnético ou simplesmente a possibilidade de realizar através deles os nossos mais inconfessáveis desejos. Tom Ripley é sedutor, manipulador, envolvente. Hannibal Lecter mata como ninguém. Existem exemplos aos montes, e em “O violão azul”, somos apresentados a mais um facínora: Oliver Orme, pintor reconhecido, homem culto, refinado e… ladrão. Mas o que nos faz abraçar esse personagem? A lábia e as memórias que vai desfiando em cada linha desse saboroso romance do irlandês John Banville (Ed. Globo, 2016).

 

 

Não temos muita escolha, é verdade. Oliver ocupa todo o espaço possível com sua narrativa confessional, mesclando dois universos muito distintos: o da pintura e o da gatunagem. Se para nós nada liga uma coisa à outra, para Oliver, há um prazer estético em ambos, e um conjunto de sensibilidades que sublima cada uma dessas práticas. Assim, em 270 páginas, ele nos mostra o que se passa na cabeça de um criminoso, mas também em seu coração. Afinal, talvez poucas pessoas conheçam tanto o medo quanto os ladrões. A todo o momento eles receiam ser pegos, e Oliver nos faz crer que reincidir no crime não é só uma questão de necessidade e sobrevivência. Existe uma inebriante excitação ao afanar algo e uma irresistível torcida para que percebam o roubo. De que valeria se arriscar tanto, não é mesmo?

 

“Quando se trata de uma primeira vez, roubar e amar têm muito em comum”, revela.

 

Mas Oliver não é um ladrão qualquer. Ele pode ter começado modestamente, furtando um pequeno tubo de tinta branco níquel, quando era garotinho. Mas foi além. E roubou a mulher do seu melhor amigo. Sim, é um bocado machista falar dessa maneira, mas é dessa forma como são apresentadas as coisas por Oliver, e Polly – a garota – assume quase as dimensões de um objeto a ser surrupiado. Como objeto, ela tem o seu valor e desperta em Oliver um misto de desejo e cobiça, sentimentos amalgamados como as tintas que se mistura numa paleta. Não se esqueça que Oliver também tem uma esposa e que os casais mantêm relações de amizade. Então, dá para imaginar que as coisas sairão dos trilhos a partir daqui.

Ao juntar num mesmo personagem elementos que o fazem ser um adúltero-egocêntrico-desleal, John Banville nos atira no colo um sujeito que deveríamos desprezar por nos contrariar moralmente. Mas nem a literatura nem a vida se escrevem dentro dos limites das linhas. Como testemunhas e cúmplices leitores, nos perdemos nas muitas digressões de Oliver e tropeçamos nas precariedades de nossas certezas. A oralidade fácil, a falta de pudor, e frases memoráveis tornam Oliver Orme um personagem multidimensional que vai do lírico ao patético num mesmo parágrafo.

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Vencedor de prêmios como o Man Booker, Franz Kafka e Príncipe de Astúrias, Banville tem mais de quarenta anos de ofício, e sua escrita parece ser obra de um ourives preocupado. As frases são trabalhadas como se fossem polidas com um esmeril. Há sofisticação sem esnobismo. Há charme sem artificialidades. E há humor!, que humor imperdoável!

Os leitores mais românticos verão em “O violão azul” uma história de traição, ciúme e descaminhos. Para os mais existencialistas, trata-se de uma autêntica jornada de autoconhecimento de alguém que insiste ser outsider. Mas até mesmo os amantes da literatura de crime e suspense terão razões para conhecer Oliver Orme. Eles estarão dentro da fervilhante mente de um criminoso. Nada violento, é verdade. Mas perigosamente livre para transgredir e seguir adiante, mesmo que aos frangalhos.

* Livro cedido pela Globo Livros

Rogerio Christofoletti

Jornalista, dramaturgo e professor universitário. Já publicou 11 livros na área acadêmica e escreveu oito peças de teatro. É um dos autores do e-book "Os Maiores Detetives do Mundo" (Chris Lauxx).

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