Confissões de um crime em “O Livro das Evidências”, de John Banville

Por Rodrigo Padrini – As experiências subjetivas de um crime sempre atraem grande curiosidade. É comum nos interessarmos pelos motivos que levaram alguém a cometer um assassinato, por exemplo. Além disso, é ainda mais convidativo, conhecer as sensações e as emoções que emergem no indivíduo criminoso no momento do crime, em uma tentativa de se colocar na pele do assassino, no que considero uma busca por explicações de tamanhas monstruosidades ou banalidades.

Entretanto, alguns crimes são, relativamente, inexplicáveis ou, pelo menos, não são passíveis de grandes interpretações, apresentando até algum grau de futilidade e simplicidade. Todavia, isso não significa que a experiência psicológica do criminoso, da vítima e de todos os envolvidos seja insignificante. Esse é o caso do crime narrado por Frederick Montgomery em “O Livro das Evidências”, lançado originalmente em 1989, pelo autor irlandês John Banville.

Banville é um escritor contemporâneo que acumula alguns prêmios, inclusive por este livro, publicado agora no Brasil pela Globo Livros, sob o selo Biblioteca Azul, em abril de 2018.

Frederick, ora chamado por “Freddie”, é um daqueles adultos imaturos que parecem viver em uma realidade fantasiosa, até que um comportamento com consequências concretas – um crime, por exemplo – destrua a sua vida, mas ao mesmo tempo o traga à realidade, fazendo-o assumir responsabilidades antes desconhecidas. É como consigo interpretar a experiência de Frederick em sua confissão.

 

Como diz a sinopse, após tentar recuperar algumas obras de arte vendidas por sua mãe a um colecionador da região, na tentativa de sanar dívidas e voltar a viver a sua vida afortunada, Frederick se depara com um obstáculo e comete um homicídio aparentemente simples, como uma forma de se livrar daquilo que o impedia de prosseguir com o roubo. É em torno desse crime que a narrativa está centrada.

 

Talvez eu indique vários pontos negativos, porque o livro me decepcionou e não atendeu nem de longe as minhas expectativas. Por isso, vamos às críticas.

“O Livro das Evidências” é narrado em primeira pessoa e, apesar de cumprir o que se propõe – trazer notas de uma confissão escritas pelo autor do crime, como um relato de tudo que se passou –, decepciona pela falta de elementos que surpreendam ou cativem o leitor. Afinal, a partir do momento em que tomamos conhecimento do crime – que não é nada demais –, nada mais acontece.

“O que há de peculiarmente horrível nisso tudo não é o prospecto de ser arrastado perante os tribunais e ser metido na prisão por um crime o qual nem tenho certeza de ter cometido, mas o simples, o terrível fato de ter sido descoberto. É isso o que me faz suar, o que enche a minha boca de cinzas e o meu coração de vergonha”

A narrativa em torno de detalhes da experiência subjetiva do criminoso não chega a um grau de profundidade ou novidade que justifique seu extenso relato. Claro, existem bons trechos. No entanto, o que poderia ser ótimo, é regular. “Crime e castigo” seria um bom exemplo da belíssima utilização de um crime banal e do relato subjetivo do pós-crime. No caso aqui, são obviedades que, em alguns momentos, parecem que vão engrenar, mas não engrenam. Detalhes demais, enredo de menos.

O assassinato em si é trivial e não tem muita conexão com todo o contexto psicológico e social que é criado pelo autor. As cenas são bem narradas, mas alguns aspectos ficam perdidos no tempo, assim como alguns personagens que, apesar de bem caracterizados, não saem disso. Parece que toda uma história será montada, mas não é.

A confusão temporal e espacial é um ponto que marcou a minha leitura, algo causado talvez pela mistura de carta-confissão-presente-passado com diálogos misturados no interior dos parágrafos, sem distinção do emissor. Para quem já leu Raduan Nassar, por exemplo, seria algo do tipo, só que ruim, ao invés de excelente, como ocorre no caso do autor brasileiro, na minha opinião.

Por fim, fiquei esperando em grande parte da leitura o surgimento daquele elemento que iria me surpreender e fazer de toda aquela contextualização algo justificada. Não aconteceu. Apesar de trazer bons personagens, descrições cruas do crime e boas passagens, o “Livro das Evidências” me chegou como um grande esboço de algo que poderia ser, mas não foi.

* Livro enviado em parceria com a Editora Globo.

 

Título: O Livro das Evidências
Autor: John Banville
Tradução: Fábio Bonillo
Editora: Biblioteca Azul / Editora Globo
Páginas: 240
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SINOPSE – Frederick Charles St. John Vanderveld Montgomery, mais conhecido como Freddie Montgomery, é um exemplo de bon-vivant. Após abandonar o emprego de cientista, decide morar com a esposa, Daphne, e o filho em uma ilha do Mediterrâneo, bebendo gim e aproveitando os prazeres da vida às custas do dinheiro da família. Quando a herança deixada pelo pai acaba, Freddie resolve pegar um empréstimo para manter seu alto padrão de vida, mas termina envolvendo-se com pessoas de má índole. Para sanar essa dívida, Freddie decide então abandonar a família e voltar para sua terra natal, a Irlanda, em busca do que restou do espólio de seu pai. Só não contava que sua mãe, Dolly, havia usado o restante dos bens deixados como herança para investir no nem tão promissor comércio de pôneis. Desesperado, Freddie decide então recuperar as obras de arte que sua mãe vendeu para um conhecido colecionador da região e, nessa tentativa frustrada, comete um assassinato. Narrado a partir dos relatos de Freddie Montgomery na prisão, O livro das evidências é um típico romance do irlandês John Banville, vencedor do aclamado Man Booker Prize. Com uma escrita ácida repleta de ironias, Banville brinda os leitores com mais uma obra-prima da literatura contemporânea.

 

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Rodrigo Padrini

Psicólogo, mestre e doutorando em Psicologia. Atua no sistema prisional. É músico e leitor assíduo de romances policiais, com aquele lugar especial no coração para Georges Simenon e Raymond Chandler.

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