escandinávia

Mankell enfrenta um câncer


mankell

Em janeiro desse ano, li uma péssima notícia no El País online. Na seção Cultura, o jornal estampava a seguinte manchete: “O escritor de romances policiais Henning Mankell anuncia que sofre de câncer”. Pisquei. Continuei: “Um tumor no pescoço e outro no pulmão”. Tristeza profunda.

Mankell decidiu divulgar publicamente o câncer e começou a assinar uma coluna no jornal Goteborgs-Posten, segundo ele próprio afirma, “para dar voz ao sofrimento que afeta muitas pessoas”. Ele escreve sobre a doença e as fases da quimioterapia, mas enfatiza que é “sob a perspectiva da vida, não da morte”. A doença está regredindo, mas o câncer ainda não foi vencido.

Conheci Mankell enquanto pesquisava material para meu livro sobre os grandes protagonistas da literatura policial, chamado Almanaque dos Detetives. Desde o primeiro livro que caiu em minhas mãos, “Assassinos sem Rosto” se não me engano, o sentimento foi ambíguo. Como morei cinco anos na Suécia, reconheci vários aspectos da narração descritiva e dos personagens. Relembrei as fazendas e celeiros em tom bordô atolados na neve absurda do inverno escandinavo, a obsessão por café sob qualquer grau centígrado e a realidade dos problemas referentes às politicas de imigração no país (quando morei em Estocolmo, vi as divisões bairristas e quando estudei em um colégio de sueco para estrangeiros, por exemplo, havia colegas iranianos e ucranianos na sala). Então não foi difícil compreender a linguagem das histórias e dos personagens, mas foi ambíguo porque uma parte de mim relutou em recolocar os pés naquelas terrinhas glaciais.

A questão é que o detetive Kurt Wallander é um cara atormentado e que vive passando por crises existenciais, e isso me agradou de cara. Imperfeito, sem jeito para o amor, mentalmente desorganizado para os assuntos banais. Digno e consciente de seu papel como policial, ele não se deixa levar por questões ‘ególatras’ (detesta ser bajulado ou receber atenção especial) e não é vaidoso (se bem que millôr dizia que “não ter vaidades é a maior de todas”, mas eu acho que ele estava brincando).

Sempre me chamaram atenção a consciência social e as reflexões presentes no diálogo do personagem. Gosto da preocupação de Mankell em explorar (para tentar entender) manifestações de loucura, violência, falta de amor e de humanidade, porque são perguntas que me faço incansavelmente e diariamente. A falta de companheirismo, a negatividade, a exploração e o egoísmo, as chagas de caráter, tudo aparece nos livros de forma potencializada, sob atos de violência extrema. De certa forma é uma leitura universal, pois fraquezas e indignidades existem em qualquer lugar desse planeta. As observações de Wallander conduzem o leitor a uma reflexão sobre a vida e o meio em que vivemos. Não há leitura mais rica.

Foto: Omvärlden.

ana1

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2 replies »

  1. Seu texto me fez ver o livro dele sob outra perspectiva. A época que li “Assassinos Sem Rosto” ainda estava muito vidrado no romance que tem aquela descoberta fenomenal, aquele desfecho incrível, etc… Fora que o livro me impressionou por ser o primeiro que li com sangue mesmo (até então só tava na linha Christie/Doyle, e seus crimes limpos). Mas acompanhei o livro todo com mesmo entusiasmo e só não me arrisquei a ler outro pelo tanto de escritor que ainda tinha pra conhecer.

    Desejo melhoras a ele e que continue a escrever seus livros.

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