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Ao mestre, com carinho


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A primeira coisa que se deve saber sobre Rubem Fonseca é que seu nome não tem S. Não tem plural, pois ele é único, singular. Apesar disso, também é José, como muitos milhões de Zés. Esta invisibilidade na multidão permite que percamos o escritor de vista, o que muito lhe convém: ele não gosta de holofotes, jornalistas e estardalhaço. O homem tenta tocar a vida à margem, como também é conveniente para quem lida com personagens e histórias tão fronteiriços…

O fato é que Rubem Fonseca, Rubem ou Zé Rubem completa noventa anos hoje.


Em situações normais de temperatura e pressão, teríamos um feriado nacional, a esquadrilha da fumaça riscaria os céus e as crianças recitariam seus escritos nas escolas. Como se trata do Brasil e de Rubem Fonseca, não é bom alimentar essas expectativas. Gosto de imaginar que saraivadas de metralhadoras celebrarão a data nos alegres-e-agitados morros cariocas; que festivais de arremesso de anões e revoadas ilegais de balões lembrarão o seu nome; que pacatos motoristas estenderão seus passeios noturnos, retornando a seus lares com sorrisos nos rostos e para-choques lambuzados…

Na manhã desta segunda, o aniversariante vai deixar o peso de nove décadas no apartamento e sairá pelo bairro. Caminhando anônimo, passará pela banca de jornais e fará uma careta diante da notícia de que seu Vasco empatou com o Goiás na abertura do Brasileirão. O time de São Januário tenta e não desiste, e seus torcedores insistem em chamá-lo pelo aumentativo. Rubem não é Rubão, mas também não dá mole. Poderia estar descansando e curtindo a vida, mas não. Está matando e roubando nas páginas de seus livros. Outro dia lançou mais um, e alguns críticos já torceram o nariz. Aliás, faz tempinho que parte dos resenhistas se queixa da mesmice de seus títulos, da repetição de si mesmo e por aí vai. Falta a eles também criatividade para abordar a obra recente do velho.

Não que precisem ser complacentes com o escritor, acho que ele detestaria isso. É verdade que ainda há muita reverência ao seu trabalho, mas isso deve ser igualmente enfadonho. Respeito é bom e eu gosto, poderia resmungar. Mas o condicional da frase anterior esfarela todas as minhas certezas sobre o que sente e pensa o homem que – com seus braços magrelos – ergueu catedrais de narrativa urbana e violenta. Rubem está careca de saber o que acham dele. A cabeça proeminente, habitada por populações de degredados, está escassa de fios há décadas. As taturanas que sobrevoam os olhos escapam dos óculos escuros, como se quisessem denunciar incontidas intenções ao interlocutor. A boca é um parêntese deitado, uma tabuleta “keep out” para os desavisados.

Claro que as ilações que desfilam por essas linhas esculpem um personagem que a mídia e o imaginário popular adoram cultivar. O velho escritor que foge do assédio, que observa secretamente o mundo à medida que colhe casos para seus próximos livros. O ficcionista mal humorado, que esconde uma mente perigosa e que destila no teclado sua fúria pela humanidade. Afff…

Por comodidade ou preguiça, esse figurino veste bem o velho Rubem, mastigado pelo tempo e pela vida. É muito provável que ele cague para isso. Fui escatológico? Não o suficiente e nem com o mesmo estilo. É bem possível também que sua indiferença com a efeméride alimente a lenda, fortaleça a aura de quem só está tentando viver.
Eu adoraria tê-lo como meu vizinho. Fingiria não conhecer a sua carreira brilhante quando nos cruzássemos no corredor. Trocaria alguns resmungos no boteco da esquina. Seguraria a porta do elevador para o velho. Sacanearia… Tudo para não espantar o sujeito arisco, o ilustre do bairro.

Faz quase meio século que Rubem Fonseca é parte preciosa da literatura nacional. Não é uma nota de rodapé ou verbete; é capítulo, e que não foi concluído. O velho podia ficar na dele, mas não. Rubem Fonseca – o maior nome da literatura policial brasileira e um dos grandes expoentes do conto contemporâneo mundial – não dobra os joelhos. Pode até ser a artrite, mas é também uma vontade filha-da-puta de continuar a escrever.

roger1

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