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Por que eu parei de ler detetives


detetive_costas

Já aviso logo: esse é um post polêmico.

Desde que a literatura policial se estabeleceu como nicho – altamente rentável, diga-se de passagem –, todo mundo aprendeu a escolher seu detetive preferido. A grande maioria envereda por Sherlock Holmes e Poirot, as escolhas óbvias, mas sempre há aquela pessoa (eu inclusive) que opta pelos menos tradicionais, como Angie Gennaro & Patrick Kenzie (sim!), Kurt Wallander, Jules Maigret, Kay Scarpetta, etc.

E é sobre isso que iremos falar hoje: por que você deveria desapegar dos detetives e aprender a curtir histórias policiais sem detetives seriados.

A grande verdade é que fica chato depois de um tempo. Poirot e Miss Marple, por exemplo, tem mais de dez livros. Kay Scarpetta aparece anualmente. Michael Connelly faz o mesmo com seu Harry Bosch.

Para mim, a grande graça da literatura é acompanhar o desenvolvimento dos personagens, sentir como eles são capazes de te prender por um volume e depois sentir saudades. Podem retornar? Claro que podem. Devem. Patricia Melo fez isso com seu Maiquel. Highsmith trouxe Tom Ripley às páginas por mais alguns volumes depois da estreia. O problema começa quando isso vira muleta para o autor.

Peguemos o caso Rubem Fonseca, por exemplo: Mandrake (aka Paulo Mendes) surgiu em 1969 num continho do volume Lúcia McCartney. Retornou em Feliz Ano Novo, roubou trinta páginas d’O Cobrador e atingiu a apoteose no gigantesco romance-tour-de-force A Grande Arte. Poderia – e deveria – ter parado por aí. Mas não. Nos anos 1990 – e até o começo dos anos 2000, é bem verdade – Mandrake reapareceu em novelas insossas que não tinham um décimo do brilho da era de ouro do personagem. Não que Rubem Fonseca seja chato de ler, longe disso, mas a repetição simples e inútil de um personagem carrega consigo, inevitavelmente, as chances de uma história procedural como as dos seriados policiais, aquelas que não acrescentam em nada, são mera diversão. E aqui: estou sendo contrário à mera diversão? Jamais! Mas ora bolas, se um autor do naipe dos supracitados é capaz de criar tantas histórias divertidas e com serial killers cada vez mais mirabolantes, qual o problema de criar histórias em que os detetives não apareçam?

Agatha Christie fez isso muito bem quando deixou Poirot de lado e construiu o monumental caso dos dez negrinhos. Dennis Lehane abandonou Pat e Angie para construir Mystic River e The Given Day, dois livros magníficos. O segundo, aliás, virou uma saga familiar cujos volumes seguintes – Os filhos da noite e o inédito em português World Gone By – são infinitamente inferiores ao primeiro.

De qualquer forma, a tendência parece estar se confirmando: firmado como o novo grande autor policial brasileiro, Raphael Montes tem adiado a criação de um detetive. Henning Mankell, criador de Kurt Wallandrer, possui dezenas de livros sem o personagem. James Ellroy se mantém fiel às histórias antológicas e parece ter enterrado de vez Lloyd Hopkins. E por aí vai.

A grande questão, portanto, é: você, autor e/ou leitor de literatura policial, gosta de detetives? Ótimo. Procure, então, as séries com menos volumes. Com certeza os personagens são mais desenvolvidos e você não tem a impressão de estar lendo só mais um livro de fulano. Trata-se de algo singular. E essa é a beleza da literatura.

mateus1

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3 respostas »

  1. As histórias com personagens seriados de autores como Lawrence Block, Rex Stout, Simenon, Chesterton, Doyle, Agatha Christe, todos com grande número de livros, não cansam o leitor. Acho que o problema básico relaciona-se com o poder de criatividade do autor. Pessoalmente, prefiro ler histórias seriadas, gosto de acompanhar a evolução do personagem, envelhecendo como todos nós. Infelizmente, isso nem sempre é possível, alguns tomam o elixir da juventude. Acredito que um herói que faz sucesso em suas aventuras dá mais representatividade ao autor..

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  2. Concordo com Ivan Maia. Pois se na maioria dos casos de “detetive” é o jeito peculiar de cada um que ajuda a
    colocar as famosas peças do quebra-cabeça no lugar. Ouvir ópera, dar longas caminhadas nos nevados
    campos escandinavos e ah! sim, na hora certa mandar todas as regras para o espaço. Do poeta Adam Dalgliesh
    ao sombrio Erlendur Sveisson , na verdade os crimes é que não mudam.

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  3. Gosto dos detetives e das histórias seriadas, mas acredito que o autor precisa ter um “feeling” do momento em que se deve encerrar a carreira do detetive. É interessante ver o autor desenvolvendo outros pontos de vista que não seja sempre o do mesmo personagem.

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