agatha christie

Leia um trecho do novo romance policial com Hercule Poirot


casket

POIROT – Depois de revelar a capa do novo romance policial de Sophie Hannah com o detetive Hercule Poirot, a Harper Collins divulgou um trecho do livro, que tem previsão de lançamento para 6 de setembro na Inglaterra. Com o título de “Closed Casket” (Caixão Fechado, tradução livre), a história é ambientada nos anos de 1930 e reúne a dupla Poirot e Catchpool na casa de uma famosa escritora, que convidou vários hóspedes para uma reunião. Porém, como geralmente acontece, algo não sai como esperado…

O primeiro romance policial de Sophie Hannah com Hercule Poirot foi publicado pela editora Nova Fronteira, mas ainda não há informações sobre o lançamento deste segundo livro no Brasil. Confira a tradução feita pelo literaturapolicial.com do trecho publicado no site EW.

(Tradução: Ana Paula Laux – esta é uma tradução independente e não tem relação alguma com as editoras Harper Collins e Nova Fronteira)

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Closed Casket

sophie

“Então, sobre meu testamento … “

Ela voltou sua cadeira junto à janela e sentou-se nela. “Eu quero que você faça um novo para mim.”

Gathercole estava surpreso. De acordo com os termos do testamento existente de Lady Playford, sua propriedade substancial deveria ser dividida igualmente, após a morte, entre seus dois filhos sobreviventes: a filha Claudia e o filho Harry, o sexto Visconde Playford de Clonakilty. Tinha havido um terceiro filho, Nicholas, mas ele havia morrido jovem.

“Eu quero deixar tudo para o meu secretário, Joseph Scotcher”, anunciou, em uma voz clara como um sino.

Gathercole sentou-se em sua cadeira. Era inútil tentar empurrar as palavras indesejáveis para longe. Ele as tinha ouvido , e não podia fingir o contrário.

“Eu estou no meu juízo perfeito e falo plenamente sério, Michael. Joseph Scotcher deve herdar tudo.”

“Mas … o que vai acontecer com seus filhos? Devo pedir encarecidamente para que você pense com muito cuidado antes…”

Lady Playford o cortou. “Você acha que essa ideia me ocorreu pela primeira vez quando você bateu na porta, alguns minutos atrás? Ou não seria mais provável que eu tenha refletido sobre isso por meses? A reflexão cuidadosa que você me cobra, eu lhe garanto, aconteceu. Agora: você vai elaborar o meu novo testamento ou devo chamar o Sr. Rolfe?”

“Harry e Claudia sabem das suas intenções? “, perguntou Gathercole.

“Não. Atualmente, as únicas pessoas que sabem são você e eu. “

“Houve algum conflito dentro da família de que não tenha conhecimento?”

“De forma alguma!” Lady Playford sorriu. “Harry, Claudia e eu somos grandes amigos – pelo menos até eu anunciar as alterações no meu testamento, no jantar desta noite.”

“Eu … mas… você conhece Joseph Scotcher há apenas seis anos.”

“Não há necessidade de me dizer o que eu já sei, Michael.”

“Considerando que os seus filhos… Além disso, o meu entendimento era que Joseph Scotcher…”

“Fale,  homem.”

“Scotcher não estava gravemente doente?” Silenciosamente, Gathercole acrescentou: “Você não acredita mais que ele irá morrer antes de você?”

Athelinda Playford não era jovem, mas estava cheia de vitalidade. Era difícil acreditar que alguém que apreciava a vida como ela poderia ser privada dela.

“Na verdade, Joseph está muito doente”, disse ela. “Ele fica mais fraco a cada dia. Ele me contou que os médicos teriam dito que ele tem apenas algumas semanas de vida ‘.

“Mas … então eu receio estar muito perplexo”, disse Gathercole. “Você deseja fazer um novo testamento a favor de um homem que você sabe que não vai estar por perto para fazer uso de sua herança.’

“Nada se sabe com total certeza neste mundo, Michael. “

“Preciso perguntar uma coisa”, disse Gathercole, em quem uma ansiedade dolorosa começava a se pronunciar. “Perdoe-me a impertinência. Você tem alguma razão para acreditar que também vai morrer em breve?”

“Eu?” Lady Playford riu. “Eu sou forte como um touro. Espero fazer ainda muito barulho durante anos.”

“Então Scotcher herdará nada com sua morte, estando morto há muito tempo ele mesmo, e o novo testamento que você está me pedindo para organizar vai criar nada além de discórdia entre você e seus filhos.”

“Pelo contrário:. o meu novo testamento pode fazer com que algo maravilhoso aconteça.” Ela disse isso com prazer.

Gathercole suspirou. “Receio dizer que ainda estou perplexo.”

“Claro que você está”, disse Athelinda Playford. “Eu sabia que você ficaria.”

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Capítulo dois

Ocultar e revelar: quão apropriado que estas duas palavras rimem. Elas soam como opostos e, no entanto, como todos os bons contadores de história sabem, muito pode ser revelado pelas tentativas mais ínfimas em ocultar, e novas revelações geralmente escondem tanto quanto revelam.

Tudo isso é a minha maneira desajeitada de me apresentar como o narrador desta história. Tudo o que você aprendeu até agora – sobre a reunião de Michael Gathercole com Lady Athelinda Playford – foi revelado a você por mim, mas eu comecei a contar essa história sem deixar qualquer um tomar conhecimento da minha presença.

Meu nome é Edward Catchpool, e eu sou um detetive da Scotland Yard, em Londres. Os eventos extraordinários que eu mal comecei a descrever não aconteceram em Londres, mas em Clonakilty, County Cork, no estado livre da Irlanda. Foi em 14 de outubro de 1929 que Michael Gathercole e Lady Playford reuniram-se no escritório dela em Lillieoak, e foi nesse mesmo dia, e apenas uma hora depois que a reunião começou, que eu cheguei a Lillieoak após uma longa viagem da Inglaterra.

Seis semanas antes, havia recebido uma carta enigmática de Lady Athelinda Playford, convidando-me para passar uma semana como convidado em sua propriedade rural. Os vários encantos da caça, tiro e pesca foram oferecidos para mim – nenhum dos quais eu tinha praticado antes e tão pouco estava ansioso para experimentá-los, embora minha anfitriã em potencial não devesse saber – mas o que faltava no convite era qualquer explicação de por que a minha presença era desejada.

Eu coloquei a carta em cima da mesa da sala de jantar em minha casa de hospedagem e considerei o que fazer. Pensei sobre Athelinda Playford – escritora de histórias de detetive, provavelmente, a famosa autora de livros infantis que eu imaginava tratar-se – então pensei em mim: um solteiro, um policial, nenhuma esposa e, portanto, nenhuma criança a qual eu poderia ler livros …

Não, o mundo de Lady Playford e o meu não se cruzavam, eu concluí – e ainda assim ela me enviou esta carta, o que significava que eu tinha que fazer algo a respeito.

Eu queria ir? Não muito, não – e isso significava que eu provavelmente iria. Os seres humanos, tenho notado, gostam de seguir padrões, e eu não sou exceção. Já que grande parte do que faço no meu cotidiano não é algo que eu iria me comprometer por opção, eu costumo concluir que se algo surgisse que eu preferisse não fazer, isso significava que eu certamente iria fazê-lo.

Alguns dias depois, escrevi para Lady Playford e aceitei com entusiasmo seu convite. Eu suspeitava que ela queria analisar minha inteligência e usar o que quer que extraísse em um livro ou livros futuramente. Talvez ela tenha finalmente decidido descobrir um pouco mais sobre como a polícia funcionava. Quando criança, eu tinha lido uma ou duas das suas histórias e ficado espantado ao descobrir que policiais mais velhos eram como patetas, incapazes de resolver o mistério mais simples sem a ajuda de um grupo de crianças pretensiosas de dez anos de idade. Minha curiosidade neste aspecto foi, de fato, o início do meu fascínio pela polícia – um interesse que me conduziu diretamente à minha escolha de carreira. Estranhamente, não tinha me ocorrido antes que eu deveria agradecer Athelinda Playford por isso.

Durante o curso da minha viagem para Lillieoak, eu tinha lido outro de seus romances para refrescar minha memória, e descoberto que o meu juízo da juventude tinha sido preciso: o final era muito mais um caso do Sargento Idiota e Inspetor Imbecil recebendo uma repreensão minuciosa do precoce Shrimp Seddon por terem sido superados por uma trilha perfeitamente óbvia de pistas que mesmo Anita , a cachorra gorda e cabeluda de Shrimp,  conseguira interpretar corretamente.

O sol estava se pondo quando cheguei às cinco horas da tarde, mas ainda havia luz suficiente para observar os arredores espetaculares. Enquanto estava na frente da grande mansão Palladian de Lady Playford , nas margens do rio Argideen em Clonakilty – com jardins formais atrás de mim, campos à esquerda e o que parecia a beira de uma floresta à minha direita – eu estava ciente do espaço infinito – os azuis e verdes ininterruptos do mundo natural. Eu  sabia, antes de sair de Londres, que a propriedade Lillieoak tinha oitocentos acres, mas era só agora que entendia o que aquilo significava: nenhuma margem comum ao seu próprio mundo e de qualquer outra pessoa se você não desejasse; nada nem ninguém pressionando você ou pairando nas proximidades como faziam na cidade. Não era de admirar, de fato, que Lady Playford não soubesse nada sobre a forma como os policiais se comportavam.

Enquanto eu respirava o ar mais puro que já tinha inalado, encontrei-me torcendo para que eu estivesse certo sobre a razão pela qual eu havia sido convidado para estar ali. Dada a oportunidade, eu pensei, ficaria feliz em sugerir que um pouco de realismo iria melhorar significativamente os livros de Lady Playford. Talvez Shrimp Seddon e sua gangue, na próxima, poderiam trabalhar em cooperação com uma força policial mais competente …

A porta da frente de  Lillieoak abriu. Um mordomo olhou para mim. Ele era de estatura média e forte, com cabelos ralos cinza e muitas rugas e linhas ao redor dos olhos, mas em nenhum outro lugar. O efeito era os olhos de um velho inseridos no rosto de um homem muito mais jovem.

A expressão do mordomo era mais estranha ainda. Sugeria que ele precisava comunicar  informações vitais a fim de proteger-me de algo infeliz, mas não podia fazê-lo, pois era uma questão de extrema delicadeza.

Esperei que ele se apresentasse ou me convidasse para entrar na casa. Ele não fez nenhum dos dois. Eventualmente, eu disse: ‘Meu nome é Edward Catchpool. Acabo de chegar da Inglaterra. Eu acredito que Lady Playford está me esperando…”

Minhas malas estavam perto dos meus pés. Ele olhou para elas, em seguida, olhou por cima do ombro; repetiu essa sequência duas vezes. Não houve acompanhamento verbal em qualquer uma delas.

Eventualmente, ele disse, ‘providenciarei para que seus pertences sejam levados para o seu quarto, senhor.

“Obrigado…” Eu fiz uma careta. Isto foi realmente muito peculiar – mais do que eu possa descrever, eu receio. Embora a declaração do mordomo tenha sido perfeitamente normal, ele transmitiu uma sensação de que muito ficou sem ser dito – um ar de “nestas circunstâncias, isto é, eu receio, o máximo que posso divulgar.”

“Havia algo mais?”, perguntei.

O rosto se contraiu.”Outro dos … convidados de Lady Playford espera por você na sala, senhor.”

“Outro?” . Eu tinha suposto que eu era o único.

A minha pergunta parecia repeli-lo. Eu não conseguia ver o ponto de controvérsia, e estava pensando em expressar minha impaciência quando ouvi uma porta abrindo dentro da casa, e uma voz que eu reconheci.

“Catchpool! Mon cher ami!”

“Poirot?”, eu respondi. Para o mordomo eu disse: ‘Este é Hercule Poirot?”

Abri a porta e entrei na casa, cansado de esperar para ser convidado e para sair do frio. Vi um piso elaborado com azulejos do tipo que você vê em um palácio, uma escada de madeira grande, muitas portas e corredores para um recém-chegado escolher, um relógio de pêndulo, a cabeça instalada de um cervo em uma parede. A pobre criatura parecia que estava sorrindo, e eu sorri de volta para ela. Apesar de estar morto e separado de seu corpo, a cabeça do veado foi mais acolhedora do que o mordomo.

“Catchpool! “. Novamente veio a voz.

“Escute aqui, Hercule Poirot está nesta casa?”, perguntei com mais insistência.

Desta vez, o mordomo respondeu com um aceno relutante, e momentos depois o belga apareceu no campo de visão num ritmo que, para ele, foi rápido. Eu não pude deixar de rir da cabeça em formato de ovo e dos sapatos brilhantes, ambos tão familiares, e, claro, dos bigodes inconfundíveis …

ana2

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3 replies »

  1. Ah! Pode parecer bobagem, mas não li o outro nem lerei esse, achei deslealdade da família, Agatha não queria que fizessem isso. Deveriam ter respeitado a vontade dela. Enfim, é meu protesto contra a ganância dos herdeiros dela, prefiro reler os antigos e originais. Agatha Christie É Insuperável! 😊

    Curtido por 1 pessoa

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