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CRÍTICA | Diário de Uma Escrava, de Rô Mierling


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O inferno é aqui! – Há poucos anos, um dos meus programas de TV favoritos era “O Índice da Maldade”, onde um especialista apresentava casos escabrosos cometidos por gente cruel e sanguinária. Na atração, o doutor Michael Stone classificava os criminosos seguindo uma escala que havia desenvolvido após intensas pesquisas. Ao final de cada episódio, o psiquiatra forense nos dizia qual era o índice da maldade daquele serial killer ou de uma determinada assassina de maridos. O meu fascínio era tentar entender os limites da maldade. Ainda é. E se não é fácil determinar até onde se pode ir para cometer atrocidades, imagine apontar quanto se pode suportar de sofrimento.

“Diário de Uma Escrava” não responde a essas questões, mas alarga os limites da crueldade e da degradação humana. O romance de Rô Mierling é um duro teste para a sensibilidade, a empatia e a compaixão humanas, e se você não tem nervos de aço e estômago forte, melhor deixar de lado. É um livro para os fortes. A trama é intensa, dramática, e de grande terror psicológico, e demonstra o interesse de editoras nacionais em valorizar autoras brasileiras. Antes de ser lançado pela DarkSide Books, “Diário de Uma Escrava” havia tido grande sucesso na plataforma WattPad, com mais de um milhão de leitores.

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O livro nos leva ao inferno que é a vida de Laura, mantida refém há quatro anos por um homem sádico e violento. Com a vida roubada desde os 15, ela habita um buraco secreto cavado no chão de um quarto no distante sítio de seu raptor. Lá, a ventilação é precária, não há luz solar, Laura dorme numa cama imunda e faz sua higiene pessoal e necessidades fisiológicas em baldes. O ambiente é insalubre, a umidade vem do chão batido e a pouca comida lhe chega por uma sinistra portinhola. Não bastasse o tratamento desumano, é diariamente humilhada, agredida e estuprada, violências contadas em detalhes pela própria Laura. Desorientada, ferida e devastada emocionalmente, ela acredita seriamente que morrerá em breve. Obviamente, tem nojo de Estevão, que é bruto, violento e sujo. Tenta resistir, mas ele é três vezes maior que ela. Num último lance, Laura decide jogar com as expectativas daquele macho enfurecido e alguma esperança se insinua pela fresta de seu cárcere.

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Com um texto ágil e bom domínio do suspense, a autora fisga o leitor, que pode devorar o livro numa sentada.

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Isso, se suportar numerosas cenas de sodomia, estupros de meninas, escatologia e humilhação sexista. Isso, se não fechar o livro, reprimindo seus sentimentos diante do agressor e da vítima, e seu relacionamento familiarmente doentil. O texto flui bem, embora a prosa soe artificial em algumas falas ou descrições, o que pode distrair o leitor e tirá-lo do clima tenso permanentemente instalado.

“Diário de Uma Escrava” chega aos leitores caprichosamente embalado, um esmero que tem se repetido na DarkSide. O apuro estético resgata a ideia de que um livro deve ser um objeto bonito, com personalidade, que gere cobiça de uns e orgulho de outros. Assinado pela Retina 78, o projeto gráfico é muito bem cuidado e valoriza o produto, embora a capa sacrifique a legibilidade do título em nome do alto impacto visual. O texto da contracapa também não ajuda: não traz informações sobre a história de Laura e pode confundir o leitor, ao dar a entender que se trata de um livro de não-ficção.

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Aliás, está aí um caminho que poderia ser evitado também pela autora. Depois de encerrada a história, Rô Mierling oferece informações de episódios reais de escravidão e servidão sexual que teriam inspirado o enredo de Laura, e chega a justificar o desfecho escolhido de acordo com uma explicação psicanalítica e criminológica. Totalmente desnecessário. Afinal, a história de Laura se sustenta no seu vigor narrativo sem ter que recorrer a artifícios externos. O apelo derradeiro da autora pra que “cuidemos de nossas meninas” também me pareceu fora de lugar. Claro que o tema é gravíssimo, e claro que autores podem militar em causas socialmente justas. Mas nem sempre se deve desmanchar as fronteiras entre o real e a ficção para que uma história ganhe grandes contornos. Muitas vezes, manter a narrativa confinada nos domínios da ficção surte mais efeito em nossos corações e mentes, e nos mantém hipnotizados, escravisados por sua força e contundência.

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escravaTítulo: Diário de uma Escrava
Autora: Rô Mierling
Editora: Darkside Books
Páginas: 240
Este livro no Skoob

SINOPSE – Narrado em parte em forma de diário, o livro acompanha mais de quatro anos da vida de Laura em um buraco embaixo da terra, período em que algo dentro dela também se modifica de uma forma inimaginável em busca da única maneira para sobreviver. Publicado originalmente na plataforma digital Wattpad, onde já teve mais de um milhão e meio de leituras, “Diário de uma escrava” apresenta um retrato duro, cruel, abominável, mas infelizmente corriqueiro no Brasil e em todo o mundo.

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