resenha

RESENHA | Uma sombra na escuridão, de Robert Bryndza


Se amanhã eu encontrasse o autor Robert Bryndza na rua, ele me diria aquela frase icônica da internet, aquela dos momentos de volta por cima: parece que o jogo virou, não é mesmo queridinho? Parece que sim, Robert, parece que sim.

Há algum tempo, tive a oportunidade de comentar sobre A Garota no Gelo, o primeiro livro do autor publicado no Brasil. Naquela chance, fui enfático ao dizer que a história não me surpreendia e que os clichês utilizados na construção da protagonista o tornavam um romance mediano. Entretanto, ainda o indiquei por ser uma leitura interessante e divertida, e bem construída, apesar dos pesares.

Mas, cá estamos. E, depois de ler Uma Sombra na Escuridão, talvez recomende um pouco mais a leitura do seu antecessor. Robert Bryndza subiu no meu conceito, não que isso faça nenhuma diferença pra ele, claro, mas para nós, amantes de uma boa dica policial, isso pode ser bacana. Estamos falando do segundo romance do autor publicado por aqui e trata-se de mais uma história protagonizada pela detetive Erika Foster, situada em Londres, Inglaterra.

Erika é problemática, como a maioria dos detetives policiais dos livros. Ela tem um passado triste também. Não gosta de regras, também. Tem dificuldades de relacionamento, mas, ela é legal e você vai ser apegar a ela. Dessa vez, Erika está mais intransigente, mal humorada e insubordinada, porém com a língua afiada e o instinto também. Bom, quanto ao mau humor ela tem os seus motivos, já que se completam dois anos desde a perda do seu marido, o também policial Mark, em uma operação desastrosa.

x

“Sentou-se no sofá, o calor circulava pela casa e o cortador de grama zumbia ao fundo. Apesar de todas as coisas que tinha dito a si mesma sobre seguir em frente, sobre progredir, ela sentia-se puxada de volta para aquele dia escaldante naquela decadente rua em Rochdale…”

x

Agora, o autor acerta a dose ao nos apresentar melhor a sua personagem principal. A amizade de Erika com o perito criminal Isaac Strong, além de ser um elemento chave no enredo, é algo que nos aproxima de sua humanidade. Erika não está apenas enlutada e entristecida, como ocorre no livro anterior, mas tentando dar a volta por cima, começar de novo, e talvez até engatar num novo amor ou amizade colorida. Não que seja fácil, afinal os serial killers estão por aí e não dão trégua.

No segundo romance de Bryndza, temos um assassino bem construído, com direito a uma infância destruída, um casamento daqueles e um “quê” de parafuso a menos. No entanto, existe ainda um grande diferencial, o qual, além de influenciar diretamente a condução das investigações, nos apresenta um tipo incomum de criminoso. Pena que não posso falar qual é esse diferencial, afinal, sem spoilers. Só posso dizer que temos um assassino, tem sangue, que algumas pessoas morrem e que a polícia vai tentar descobrir quem é e pegar ele. Que tal?

x

A sombra respirou fundo, saiu da escuridão e subiu as escadas silenciosamente. Para observar. Para aguardar. Para colocar em prática a vingança que há tanto tempo planejava.”

x

Robert Bryndza aborda temas complexos como violência sexual e doméstica, pedofilia, uso e abuso de drogas e suicídio, mas não o faz de forma pesada. Está tudo ali, em nossa atmosfera, nas vizinhanças aparentemente tranquilas, na internet, entre quatro paredes. A sombra assassina criada por Bryndza é uma ferramenta de fazer justiça com as próprias mãos, um dispositivo de vingança para eliminar o mal, cortá-lo pela raiz, e talvez seja um instinto presente em todos nós, ainda que obscuro, bem obscuro.

O livro é envolvente, não é arrastado, não é grande, nem pequeno demais. A forma que o autor encontra para nos situar na cidade de Londres é um ponto a seu favor, já que, assim como em “A Garota no Gelo”, nos sentimos passeando pela metrópole inglesa junto com os personagens. A alternância da narrativa é utilizada mais uma vez por Bryndza e temos a oportunidade de acompanhar a história na perspectiva de diferentes atores. Isso deixa tudo bem dinâmico e também colabora para que os capítulos não sejam extensos, pelo contrário, são curtos e objetivos.

O segundo título de Robert Bryndza no Brasil é melhor que o anterior, em minha opinião. Mais dinâmico, com menos clichês, mais reviravoltas e descrições psicológicas aperfeiçoadas de seus personagens. Entretanto, talvez esse upgrade observado em Uma Sombra na Escuridão seja possível apenas com a base que é fornecida pelo seu antecessor. Dessa forma, sugiro que leia ambos e faça uma boa dobradinha. Ah, é possível que você fique com raiva dos chefes e superiores de Erika, eu fiquei. Sendo assim, mandei uma mensagem para o autor no Twitter querendo ver a detetive promovida nos próximos romances. Quem sabe?

Depois deste, outros dois livros com a detetive Erika Foster foram escritos por Robert, mas ainda sem edição no Brasil: “Dark Water” e “Last Breath”. Aguardamos ansiosamente. Se você gostou do Robert, procure os livros da Tess Gerritsen enquanto não chegam os novos dele por aqui. Provavelmente, você também vai curtir. Até a próxima!

Título: Uma sombra na escuridão
Autor: Robert Bryndza
Tradução: Marcelo Hauck
Editora: Gutenberg
Páginas: 320
Este livro no Skoob

SINOPSE – Em uma noite de verão, a Detetive Erika Foster é convocada para trabalhar em uma cena de homicídio. A vítima: um médico encontrado sufocado na cama. Seus pulsos estão presos e através de um saco plástico transparente amarrado firmemente sobre sua cabeça é possível ver seus olhos arregalados. Poucos dias depois, outro cadáver é encontrado, assassinado exatamente nas mesmas circunstâncias. As vítimas são sempre homens solteiros, bem-sucedidos e, pelo que tudo indica, há algo misterioso em suas vidas. Mas, afinal, qual é o segredo desses homens? Qual é a ligação entre as vítimas e o assassino? Erika e sua equipe se aprofundam na investigação e descobrem um serial killer calculista que persegue seus alvos até achar o momento certo para atacá-los. Agora, Erika Foster fará de tudo para deter aquela sombra e evitar mais vítimas, mesmo que isso signifique arriscar sua carreira e também sua própria vida.

Anúncios

7 replies »

  1. Estou terminando de ler o livro, mas, infelizmente, desta vez não irei concordar com a opinião do autor da resenha. Acho que o Robert Bryndza errou a mão nesse novo caso da Detetive Erika Foster. A narrativa continua fluída, talvez até mais que no livro anterior, contudo achei que algumas decisões do autor, algumas atitudes de personagens e furos no roteiro prejudicam a imersão do leitor, por falta de verossimilhança. Acho também que a revelação do assassino ocorreu de forma precoce, meio que tornando despropositado o suspense que é feito no início. A sinopse da Gutenberg também não é muito precisa, sobretudo no que toca às vítimas: “as vítimas são sempre homens solteiros, bem-sucedidos e, pelo que tudo indica, há algo misterioso em suas vidas”. Quem leu, sabe que não e bem assim, pois as duas primeiras vítimas eram casadas, tinham filhos e estavam passando por crise no casamento. Me incomodou também a forma como os policiais se apegavam rapidamente a certas teorias a respeito dos crimes. A própria conclusão de que se estava diante de um caso envolvendo um serial killer parece um tanto irresponsável, sobretudo pro leitor que logo passa a conhecer as motivações da personagem. (Aliás, estava curioso por essa resenha justamente pra saber a opinião do autor a respeito do comportamento do comportamento do assassino, devido a área de atuação profissional daquele). E me parece que, não obstante a informação constante nos agradecimentos de que o autor submeteu seu manuscrito ao crivo de um profissional do ramo acerca de procedimento policial, as liberdades tomadas pelo autor o fizeram pisar um pouco demais além da “linha fina entre realidade e ficção”. Por essas e por outras, acho que acabarei deixando o Bryndza um pouco de lado e voltarei um pouco a nomes consagrados dos thrillers de “police procedural” tais como Connelly e Wambaugh.

    Curtido por 1 pessoa

    • Oi Leandro, obrigado pelo comentário. O seu toque me fez pensar que talvez precise ser mais honesto nas resenhas ou pelo menos apontar melhor os pontos negativos. Talvez eu não tenha me posicionado como psicólogo ao comentar o comportamento do assassino, mas acho que o autor não fornece muitos elementos pra isso. Entretanto, digo que me parece uma motivação fraca para os crimes e o adoecimento mental nesse caso poderia ser mais trabalhado. Primeiramente, acho que o Robert tenta trabalhar muito a questão do machismo na polícia, da hierarquia e a pouca credibilidade da Detetive Foster por ser mulher, mas acaba pecando pelo excesso. O psicólogo criminal, por exemplo, que opina no caso, se perde junto com todos os outros policiais em uma teoria rasa e não temos a oportunidade de conhecer uma análise psicológica mais profunda e crível do criminoso. Os chefes dela então, são o melhor exemplo da incompetência. Ainda não conheço os outros dois livros não traduzidos, mas me arrisco a dizer que não trarão grandes novidades em termos de crimes e enredos, o que me desanima. Isso inclusive foi uma das coisas que levou a não ler mais os livros da Tess Gerritsen, porque estava achando-os extensos e repetitivos. A única coisa que me interessa nessa sequência é a protagonista, a Erika Foster, que considero uma boa personagem. Mas, não se vive só de protagonista, não é mesmo? Abraços!

      Curtido por 1 pessoa

  2. Bem, achei o livro fabuloso, adoro esse tipo de enredo, ainda mais que logo sabemos quem o o meliante e ainda assim olivro não perde o sentido e traz todo clima de suspense.
    Maravilha!
    cheirinhos
    Rudy

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s