resenha

RESENHA | Noite adentro, Tailor Diniz


Por Oscar Bessi Filho – Dizem que se alguém quiser conhecer de fato um lugar, terá que visitar seus claros e escuros. Além dos postais, há que se perceber as frestas, os atalhos, o que é visto e o que é oculto. O vivido por seus anônimos, pulsado em seu submundo e surfado em suas sarjetas. Os gritos de amor e ódio distantes das vozes oficiais. E as fronteiras serão sempre, em qualquer lugar do mundo, míticas e instigantes, misteriosas e atraentes para uma imensa maioria que, de longe, nela vê o símbolo de algo que vai além do visível ou mero geográfico. É nesse ritmo que Noite Adentro (Grua Livros, 176 páginas), o terceiro romance da trilogia “fronteiras e sombras” do escritor gaúcho Tailor Diniz, conduz o leitor a um passeio intenso (e tenso!) pela fronteira entre Brasil e Uruguai. Um mergulho para muito além das concorridas vitrines dos free shops. Um verdadeiro tour entre almas inquietas, ainda que ocultas.

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Algo que se pode dizer de Noite Adentro é que temos um romance noir quase à risca: as poucas luzes que iluminam os cenários gelados, desde o primeiro parágrafo, vêm das parrillas, da lua distraída ou dos olhares incandescentes e plenos de mistério das personagens femininas.

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Estas, incrivelmente dominadoras num território que, digamos, sobrevive “masculinizado” em seus conflitos. E a penumbra não é só visual. Ela vem também das angústias, das incertezas e dos passados difusos que se cruzam, do presente alucinado que corre nas doze horas que compõem a trama. Tailor, já sabemos, é mestre na arte de tirar o fôlego, em seus livros ou roteiros para o cinema. Neste novo livro, ele mais uma vez satisfaz os fãs de suas tramas sempre recheadas dessas nossas loucuras, tão humanas, quanto das suas incursões ao pitoresco que forma o mais sul do sul brasileiro.

O suspense começa já na primeira página, quando Antônio Messias desembarca na rodoviária de São José dos Palmares e apanha um táxi para Castillo Blanco, onde irá encontrar um antigo colega de faculdade e companheiro de militância política dos anos 1970, o também misterioso Inácio Armendía. E o leitor se sentirá preso entre revelações, expectativas – ou quase, ou nem – até a última linha da última página do livro. A densidade de personagens marcantes, característica dos romances de Tailor, dá o mais delicioso dos temperos.

Entre muito álcool e histórias de traições, amores e crimes, é possível sentir a tensão e ao mesmo tempo a fragilidade do temido Torté Navaja, o tudo não dito pela sedutora Clemenza Ruiz, a talvez carência que precisa de urgente atenção na voz indomável de Gonzalito Magaña, as semelhanças físicas e lembranças que Claridad Aguillera, dono de bordel, traz a Antônio de uma freira (ela que é fã e conterrânea do Papa Francisco) dos tempos de escola, ou a tontura do próprio Messias após tantas garrafas de vinho, ou brandy, a noite toda.

O que, afinal, é “El Penitente”? O que aconteceu entre Antônio e Valentina Torquato? Que fim ela levou? Do que ele foge e o que ele faz ali, afinal? Essas são muitas perguntas que o leitor irá se fazer ao longo do romance. Um livro fácil de ler, revelador e inquietante, daqueles escritos para a gente devorar de uma só vez, quem sabe no embalo de um bom vinho.

(Imagem: Divulgação)

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Título: Noite adentro
Autor: Tailor Diniz
Ano: 2017
Editora: Grua Livros
Páginas: 176

SINOPSE – É noite, faz frio quando Antônio Messias desce do ônibus na fronteira do Brasil com o Uruguai. Na frente da inóspita rodoviária, toma um táxi para Castillo Blanco, cidade uruguaia, no outro lado do rio. Depois de atravessar a ponte que liga os dois países, passando pelos policiais da alfândega, chega a um bairro deserto. Confere o endereço, observa a paisagem sombria e por um momento hesita. Logo aparece Inácio Aramendía, seu amigo de faculdade e companheiro de militância dos longínquos anos 70, que o recebe com a senha: Eu-odeio-rock-in-rio! Se Antônio chega fugindo de algo que ele não deixa claro, Aramendía não disfarça sua ligação com o crime da região, liderado por seu amigo Torté Navaja. Começa, então, uma jornada de doze horas noite adentro regada a álcool, a parrillada, a histórias de crimes e amores. Preso ao redemoinho de fatos que se sucedem num ritmo veloz e descontrolado, Antônio descobre com surpresa que Valentina Torquato, namorada de faculdade, havia sido casada com Aremendía. Descobre, também, em Clemenza Ruiz, mulher de Torté Navaja, uma figura cujas definições se perdem entre a neblina da noite e a áurea de sonho ou delírio. Noite adentro junta-se a Em linha reta (semifinalista do Prêmio Oceanos 2015), e A superfície da sombra (adaptado para o cinema em 2017), ambos publicados pela Grua e que têm em comum o tema “fronteiras e sombras”.

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OSCAR BESSI FILHO é natural de Porto Alegre. É autor dos livros “O outro lado do caleidoscópio”, “Um caminho no meio das pedras”, “Marx não foi à praia” e “O silêncio mais profundo”, entre outros. É colunista do Correio do Povo. Mais em www.oscarbessi.com.br

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