resenha

RESENHA | Sossego, de Adriano Loyola


Mistério no cemitério – São cada vez mais numerosas as adaptações de grandes obras literárias para os quadrinhos no Brasil. Para alguns leitores, funciona como uma porta de entrada que facilita o entendimento de livros considerados mais complexos ou mesmo distantes da sua realidade. Já para os artistas que se dedicam a essas versões é mais um mercado de trabalho, com suas possibilidades e desafios. Afinal, como transpor para a linguagem dos quadrinhos as tantas camadas de sentido, os jogos linguísticos e as muitas histórias paralelas de um “Grande Sertão: Veredas”?

Para além da mera adequação de um meio para outro, os artistas podem ainda aproveitar a possibilidade para redefinir as nuances da história original. Quer dizer: no terreno da adaptação, existem generosos espaços para recriação e o exercício da imaginação. Não se trata de corromper o original, mas de preencher com novas cores e outros movimentos, mantendo a estrutura e a composição da obra-matriz. É isso o que vemos, por exemplo, em “Sossego” (edição do autor, 2015), livre adaptação que o curitibano Adriano Loyola fez do conto “A nova Califórnia”, de Lima Barreto.

Nela, somos habilmente guiados pela história que sacudiu a pequena cidade de Tubiacanga, no interior do Rio de Janeiro, no começo do século 20. Sem mais nem menos, túmulos do cemitério Sossego passam a ser secretamente profanados, o que intriga e revolta aqueles habitantes extremamente religiosos. Quem estaria saqueando as tumbas, levando vértebras e deixando despojos de roupas e joias para trás? Quem seria capaz de tanto desrespeito e perversidade? Aqueles estranhos acontecimentos teriam relação com o misterioso forasteiro que chegou à cidade e que a todos conquistou com seus hábitos doces e refinados?

 

Se a trama de Lima Barreto priorizava a crítica social, abordando ambição, cobiça e falso moralismo, a história contada por Adriano Loyola enaltece a atmosfera de suspense, flertando com histórias de crime com ligeiras pitadas sobrenaturais.

 

Não é à toa que o desenhista abandone o título original para adotar outro mais lacônico e que ajude a definir uma atmosfera inicial. Assim, somos introduzidos num ambiente em que um sistema social aparentemente pacato é levado à sua ruína com uma descoberta aterrorizante.

Nas páginas originais, o conto é bastante longo e poderia ser considerado até mesmo uma novela. No esforço de síntese, Loyola limpa muitas das descrições de Lima Barreto que ajudam a caracterizar aquela sociedade apoiada na hipocrisia e em costumes que não se sustentam diante de uma mísera crise. O destaque aqui é para o evento que tira a aura pacífica do lugar e convulsiona sua população.

Nas poucas 26 páginas de “Sossego”, Adriano Loyola recorre apenas ao lápis preto, abdicando de cores – usadas apenas parcialmente na vigorosa e irônica capa. Essa escolha não diminui a obra, já que o artista explora muitos outros elementos da linguagem dos quadrinhos. Os tradicionais balõezinhos de fala são usados com parcimônia, mas a expressão de fisionomias e corpos é levada à exaustão, aumentando a carga de dramaticidade de algumas passagens. Leitor, demore-se o quanto puder nas páginas em que Loyola faz um mosaico das reações dos habitantes de Tubiacanga. Cada expressão valeria um pequeno quadro. Cada gesto é uma voz na multidão.

“Sossego” tem um nítido tom teatral. Uma overdose dessas nuances e a ocupação criativa do espaço das páginas leva o leitor mais habituado a identificar ali uma forte influência do mestre Will Eisner. Essa filiação artística se combina com uma preocupação mais acadêmica no traço, condições que colocam Adriano Loyola numa escola de desenhistas brasileiros ainda bastante restrita, mas que merece respeito.

Para caracterizar Raimundo Flamel, o forasteiro que é personagem central da trama, o autor recorre ao mais conhecido retrato que temos de Leonardo Da Vinci. Inteligente, a estratégia poupa tempo e se mostra efetiva, afinal funciona muito bem apresentar um homem sábio sob o semblante do mestre do Renascimento. Para além da escolha acertada, Adriano Loyola presta tributo a um período artístico do qual parece ser um estudioso. O leitor vai perceber isso com mais clareza em “O senhor dos porcos”, obra posterior, de 2016, ambientada na Europa do século 15.

Forte, vibrante e saborosa, “Sossego” é uma HQ que beberica nas fontes da literatura de mistério com um pronunciado sotaque nacional. Pena ser tão curtinha. Quem sabe seu desfecho não nos leve a outros casos, já que algumas pontas ficaram tão deliberadamente soltas?

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