Crime ou raciocínio lógico? Qual dos dois é mais importante para a literatura policial?

Crime ou raciocínio lógico? Qual dos dois é mais importante para a literatura policial?
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* Texto com spoilers

POR RAUL SOUSA – A publicação de Os Assassinatos na Rua Morgue constitui um marco na literatura. A história, considerada pelo próprio Edgar Allan Poe como um “tale of ratiocination”, é considerada o primeiro conto policial moderno. Existem histórias de detetives que antecedem a escrita por Poe, mas são fenômenos escassos. É mais fácil encontrar histórias de fenômenos sobrenaturais sem uma explicação racional que histórias que explicam esses fenômenos.

É possível mencionar brevemente Bel e o Dragão, a história de faraó Rampsinitos e também a história de Hércules e Caco. Todas as histórias possuem semelhanças: um personagem realiza uma investigação e chega a uma conclusão sobre o caso utilizando processos puramente lógicos. Dupin percebe que as mulheres haviam sido assassinadas por um orangotango, Daniel percebe que Bel não come as oferendas que lhe são oferecidas e sim os sacerdotes do templo, o irmão precisa utilizar o raciocínio lógico para não ser capturado pelos guardas do faraó e Hércules realiza uma investigação usando marcas deixadas por Caco para deduzir que ele era o culpado.

O detetive é a materialização do raciocínio lógico. É um erro frequente ligar as histórias policiais ao crime. R. Austin Freeman, em 1924, escreveu um ensaio chamado The Art of the Detective Story e mostra que há uma estrutura argumentativa numa história policial. Os quatro passos de uma história policial para ele são: a elaboração do problema, produção de dados para a solução, a descoberta da solução do problema e a exposição das evidências de forma a provar a solução do problema.

Freeman, sobre o surgimento do problema, escreve “O problema é normalmente um crime” (“The problem is usually a crime”). Isso dá margem para a interpretação de que as histórias de detetives não são necessariamente focadas em crimes e sim em problemas. E. M. Wrong, em 1926, afirma “Uma história de detective envolve um problema que deve quase sempre ser criminal” (“A detective story involves a problem which must nearly always be criminal”), reforçando a ideia de que a literatura policial não necessariamente precisa lidar diretamente com o crime.

Os maiores exemplos dessas histórias policiais sem crime surgem nos contos. As maiores subversões e desafios ao gênero estão presentes nos contos. O conto The Problem of Cell 13 foi escrito por Jacques Futrelle e publicado em 1905. A história gira em torno dos esforços do professor Augustus S. F. X. Van Dusen de concluir o desafio de escapar de uma cela de prisão usando processos puramente racionais. Não há crime, mas há a figura do detetive. Há outros exemplos escritos por Futrelle de histórias sem crimes.

Outro conto que vale a pena ser observado é The Adventure of President’s Half Dime, escrito pelo lendário Ellery Queen e publicado em 1947. O conto não traz um crime, mas trata de um tesouro perdido de George Washington. O último conto que vale a pena ser mencionado é The Shot That Waited, posteriormente chamado de The Duel of Shadows, publicado em 1934. Esse conto afasta-se dos dois contos mencionados anteriormente por trazer uma pessoa que foi ferida por um tiro que foi disparado mais de duzentos anos antes da história. Apesar do ferimento é certo dizer que não há um crime, embora Barnabas Hildreth realize o trabalho de investigação desse problema.

Acreditar que a literatura policial necessita da tríade detetive-criminoso-vítima acaba trazendo problemas sérios para o desenvolvimento do gênero. John Dickson Carr, no romance The Three Coffins, escreveu uma aula sobre como mistérios em salas trancadas são desenvolvidos. Essa aula é usada como base por diversos escritores do gênero e é até possível que tenha sido aplicado na vida real. Gideon Fell, o detetive da história, enumera sete formas de apresentação desse mistério. As formas 1 e 4 não trazem crimes. A forma 1 envolve uma série de coincidências que culminam na morte de alguém num aposento hermeticamente selado, dando a impressão de assassinato. A forma 4 trata de suicídio, mas construído de forma a parecer um homicídio. Forçar a ideia de que a literatura policial precisa obrigatoriamente de um crime inviabilizaria histórias baseadas nessas formas mesmo que os autores clássicos também as encaixe em literatura policial.

A expressão que algumas pessoas andam adotando é “ficção de crime” para englobar as histórias policiais. O termo “literatura policial” é uma aproximação do termo “detective fiction”, visto que ambos trazem uma figura que realiza um processo de investigação de um problema. Os países que falam línguas neolatinas usam expressões parecidas: roman policier, novela policíaca, roman politist, romanzo poliziesco. A ficção de crime seria, portanto, uma ramificação da literatura policial por não englobar histórias que não possuem crimes.

G. K. Chesterton escreveu em 1901 o ensaio “A Defence of Detective Stories” e naquele texto o autor usa o termo “police romance” e ainda elabora a frase “The romance of the police force is thus the whole romance of man”, evidenciando mais ainda que o termo literatura policial pode ser considerado algo próximo de detective fiction.

É possível entender a confusão. Até mesmo o Mystery Writers of America, um dos grupos mais importantes de todo o gênero no mundo, afirmou no Twitter que define um mistério como qualquer história onde um crime é um elemento central. Os autores do The Detection Club entendem que há diferenças entre “detective fiction” e “crime fiction”, principalmente levando em consideração os autores mencionados anteriormente e muitos outros.

Outro problema de aceitar o termo “ficção crime” é que mutilaria os trabalhos de diversos autores. Os contos mencionados seriam encaixados em quais termos? Por que dois contos de Sherlock Holmes seriam categorizados de maneiras diferentes mesmo trazendo processos de investigação? Novas dúvidas e confusões surgem. Criar ramificações em excesso pode trazer mais prejuízos para o gênero que benefícios, pois acaba diluindo mais ainda a essência do gênero.