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	<title>Arquivos Fernando Maia -</title>
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	<description>O melhor portal sobre suspense e mistério!</description>
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	<title>Arquivos Fernando Maia -</title>
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		<title>De Borges a Fincher: outras notas sobre o policial realista</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Literatura Policial]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 Mar 2018 13:56:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[colaboração]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Fernando Maia &#8211; A insensatez de se discutir a literatura policial realista aludindo a um texto de Borges parece</p>
<p>O post <a href="https://literaturapolicial.com/2018/03/15/de-borges-a-fincher-outras-notas-sobre-o-policial-realista/">De Borges a Fincher: outras notas sobre o policial realista</a> apareceu primeiro em <a href="https://literaturapolicial.com"></a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Por Fernando Maia</em> &#8211; A insensatez de se discutir a literatura policial realista aludindo a um texto de Borges parece óbvia. É conhecida a reticência do autor argentino a qualquer proposta de literatura realista, entendendo-se realista a literatura que joga com a verossimilhança (realidade não parece um termo propriamente ficcional), ou que fundamenta o seu jogo em precondições verossímeis. Pelas restrições expostas ao romance psicológico, bem como outras vindicações do gênero fantástico e tranquilamente pela sua própria prosa ficcional, Borges definitivamente prefere os jogos propostos pela literatura fantástica. Mas em <em>A Morte e a Bússola</em>, conto do seu &#8220;Ficções&#8221;, ele apresenta, com a contumaz sutileza das artimanhas borgeanas, um debate, ou pelo menos, uma problemática entre as duas possíveis, diremos, abordagens ficcionais: o realismo e o fantástico.</p>
<p><center><iframe style="width: 120px; height: 240px;" src="//ws-na.amazon-adsystem.com/widgets/q?ServiceVersion=20070822&amp;OneJS=1&amp;Operation=GetAdHtml&amp;MarketPlace=BR&amp;source=ac&amp;ref=qf_sp_asin_til&amp;ad_type=product_link&amp;tracking_id=literaturapol-20&amp;marketplace=amazon&amp;region=BR&amp;placement=8535911235&amp;asins=8535911235&amp;linkId=2bdeb0e33549d64020fafd6fed5f17a7&amp;show_border=false&amp;link_opens_in_new_window=true&amp;price_color=333333&amp;title_color=0066c0&amp;bg_color=ffffff" frameborder="0" marginwidth="0" marginheight="0" scrolling="no"><br />
</iframe></center>&nbsp;</p>
<p>E é por meio de dois personagens que o debate acontece: Erich Lonröt, um decifrador à moda de Auguste Dupin, e Franz Treviranus, um comissário da polícia. Temos então um crime, o primeiro de uma série de fatos de sangue, que é apresentado nesse conto como enigma. Lonröt se apega aos elementos simbólicos que rodeiam o ocorrido e é só por isso que ele se interessa. Treviranus é mais realista e, para ele, o crime não passa de um crime. Atesta que aquele homicídio fora a consequência de uma tentativa mal sucedida de furto, já que se supunha que a vítima estava de posse das melhores safiras do mundo. Mas Lonröt rejeita essa hipótese acusando-a de ser desinteressante. Aí revela preferir uma hipótese rabínica, já que a pretensa vítima era o Tetrarca da Galileia, presente naquela cidade (uma onírica Buenos Aires, mas que poderia ser Recife, Paris ou Adis Abeba) por ocasião de um congresso talmúdico.</p>
<p>O conto segue com mais dois homicídios, cujas pistas são apreendidas por Lonröt com tintas fantásticas. E assim ele vai montado a solução do enigma. Treviranus, por sua vez, também tem relativo sucesso e, talvez percebendo o realismo além da forma como se apresentam aquelas pistas ou usando essa tinta para interpretá-las, chega a advertir Lonröt de que tudo pode não passar de um simulacro. Junto com a insinuação, envia a Lonröt um mapa, por meio do qual esse último decifra o local onde acontecerá o quarto homicídio. Então o nosso tahu segue sozinho até o local decifrado e lá encontra Red Scarlach, justamente o criminoso que, como aludido nominalmente no primeiro parágrafo do texto, tinha jurado Lonröt de morte em uma ocasião diegeticamente anterior àquela história. Seguem então as revelações do próprio criminoso sobre toda a armação: a morte do rabino, a primeira das mortes, fora decorrência inesperada do roubo das safiras, como Treviranus supusera. Scarlach, o dândi, aproveitou as aparências fantásticas que a cena do crime providenciava e as organizou como um enigma. Depois, com base nas premissas do primeiro exercício, perpetrou o segundo homicídio e simulou a existência do terceiro. O objetivo de todo esse estratagema sangrento era exercitar a temerária perspicácia do seu inimigo, Lonröt, que logo se interessaria em resolvê-lo, caindo numa armadilha. Finalmente, Scarlach desfere um tiro em Lonröt, confirmando que este acertara o local do quarto fato de sangue, cuja vítima era ele mesmo. Ou seja, a história realista latente é a verdadeira. A história fantástica manifesta foi artifício do vilão Scarlach. Treviranus, o policial que vive a história realista, já desvendara a motivação, um dos propósitos fundamentais do quebra-cabeça engendrado por um homicídio, nas suas primeiras falas. Depois sugerira a Lönrot que tudo podia ser, na verdade, um embuste. Então, temos um escritor com claras ressalvas ao realismo dando a razão ao policial realista, protagonista de uma história policial que se esconde por trás de outra fantástica. E de uma forma contundente, já que ele mata o decifrador, um arquétipo que pertencia ao fantástico, segundo sua própria definição.</p>
<p>Entretanto, é difícil confirmar se a razão borgeana estaria num pretenso relato realista, ou no elemento precípuo da narrativa policial, o jogo de enigmas, no caso vencido parcialmente por Lonröt (afinal ele decifra o local onde se finalizaria a malfadada série). Afirmar que Borges tinha qualquer intenção de vindicar a superioridade do realismo sobre o fantástico é certamente insensato. Mas negar talvez o seja também. E aí, é melhor evitarmos esse irresistível labirinto borgeano e tomar um rumo mais terreno.</p>
<p><img  title="" fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-9690" style="margin-top: 30px; margin-bottom: 30px;" src="https://almanaquedaliteraturapolicial.files.wordpress.com/2015/10/zoo1.jpg?w=639"  alt="zoo1 De Borges a Fincher: outras notas sobre o policial realista"  width="588" height="401"></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Nisso, <a href="https://literaturapolicial.com/2015/10/29/zodiaco-e-o-policial-realista-a-definicao-de-um-novo-subgenero-das-narrativas-policiais/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">chegamos a Zodíaco, o filme de David Fincher de 2007</a>. Precisamos primeiro tratar da realidade; agora o termo é adequado. No final da década de 60 e começo da de 70, alguém cometeu cinco homicídios nas redondezas de São Francisco na Califórnia. Esse cidadão enviava cartas cifradas aos jornais, ostentava símbolos exóticos, vestia fantasias, referenciava-se em filmes antigos, contatava a polícia por telefone para revelar os seus crimes e assumir crimes que ele não cometera. Ele se deu a alcunha impressionista de Zodíaco. As polícias envolvidas, já que os homicídios ocorreram em várias jurisdições, nunca conseguiram prender esse indivíduo. Mas enfim, temos outra série de fatos de sangue, que inclusive por ação deliberada do criminoso (também fizera assim Red Scarlach) é proposta como enigma à polícia, ao Estado. David Fincher, uma criança californiana na época, resolveu transformar essa história em cinema quase quatro décadas depois. O filme tem inúmeras qualidades, mas a mais importante é a metanarrativa &#8211; a literária, não a cinematográfica – justamente quando propõe o debate entre o realismo e o fantástico. Temos dois personagens novamente: um jovem cartunista de um jornal de São Francisco, Robert Graysmith, e um investigador do Departamento de Homicídios dessa metrópole, Dave Toschi. O primeiro personagem é Lonröt, mas é também, Sherlock Holmes e é também Auguste Dupin. O segundo é Treviranus, é Gareth Lestrade da Scotland Yard e é também o senhor G, delegado de Paris. A dinâmica entre os dois, dadas as suas características, é semelhante à que acontece em A morte e a bússola. Ao primeiro interessam os enigmas: as cartas cifradas, o simbolismo, as impressionantes conexões entre os ataques. Ao segundo, interessa a elucidação do delito e o cumprimento do papel que cabe a si no processo que levará o homicida à punição. O filme segue e Robert Graysmith, depois de decifrar o enigma por meio das pistas que ele aborda de maneira fantástica, exige que Dave Toschi concorde com ele sobre a identidade do Zodíaco. Toschi pede evidências: pegadas, exames grafológicos, impressões digitais, testemunhas oculares. Graysmith não tem nada disso. Em vez disso tem, além da convicção, a sua lógica, que é tremendamente precária. E aí, o nosso Sherlock clama que Toschi pense como se não fosse policial. Esse último responde justamente que é policial. Toschi ainda terminará a conversa com o conselho impertinente ao seu interlocutor de que ele escrevesse um livro. A síntese, se é que todo esse debate encerra uma dialética, se encontra nesse conselho borgeano, por definição: Junte toda essa história fantástica que você elaborou e escreva um livro.</p>
<p>Tanto no conto de Borges, como no filme de Fincher, o arquetípico protagonista do policial fantástico elabora, ainda que mediante as sugestões do criminoso, uma narrativa fantástica para a sua investigação. E, se é possível chamá-lo assim, o policial realista, brandindo um imperioso charuto ou costeletas hirsutas, insiste o tempo inteiro que a investigação prescinde menos da fantasia do que da realidade.</p>
<p>Guardadas algumas diferenças nas formas, o jogo proposto por Fincher é o mesmo que propõe Borges. Mas enquanto esse finaliza o debate (conclusão talvez não perspicaz, mas certamente temerária da minha parte), com a morte do fantástico, o primeiro segue outra linha sugerindo que a abordagem fantástica (Graysmith) de uma história policial conseguiu resolver o enigma, enquanto a realista, vivida por Dave Toschi, permitiu que um criminoso não fosse devidamente punido. E se o cineasta, por meio do seu policial realista diz que o policial fantástico é coisa da ficção, qual seria a sua intenção ao fazer uma ficção, cuja grande realização é ser uma ótima narrativa policial realista? Talvez isso seja um labirinto da mesma forma e, por isso, devemos parar aqui.</p>
<p><em><strong>Fernando Maia</strong>&nbsp;é escritor. Publicou em 2014 o livro de contos&nbsp;<a href="https://literaturapolicial.com/2015/07/25/fernando-maia-casos-recifenses/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Casos Recifenses</a>, no qual apresenta o Investigador Scanoni. Nasceu e vive no Recife e é pai de Maria Flor e de João.</em></p>
<div class="saboxplugin-wrap" itemtype="http://schema.org/Person" itemscope itemprop="author"><div class="saboxplugin-tab"><div class="saboxplugin-gravatar"><img  title="" decoding="async" src="https://literaturapolicial.com/wp-content/uploads/2023/09/WOsSxJON_400x400.jpg" width="100"  height="100"  alt="WOsSxJON_400x400 De Borges a Fincher: outras notas sobre o policial realista"  itemprop="image"></div><div class="saboxplugin-authorname"><a href="https://literaturapolicial.com/author/admin_literatura/" class="vcard author" rel="author"><span class="fn">Literatura Policial</span></a></div><div class="saboxplugin-desc"><div itemprop="description"><p>Ana Paula Laux é jornalista e trabalha com curadoria de informação, gestão de mídias sociais e criação de conteúdo digital. Em 2014, lançou o e-book “Os Maiores Detetives do Mundo” (Chris Lauxx). Contato: analaux@gmail.com</p>
</div></div><div class="saboxplugin-web "><a href="https://literaturapolicial.com/" target="_self" >literaturapolicial.com/</a></div><div class="clearfix"></div></div></div><p>O post <a href="https://literaturapolicial.com/2018/03/15/de-borges-a-fincher-outras-notas-sobre-o-policial-realista/">De Borges a Fincher: outras notas sobre o policial realista</a> apareceu primeiro em <a href="https://literaturapolicial.com"></a>.</p>
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		<title>Scanoni e os 10 mandamentos de Chandler: uma interpretação de Casos Recifenses</title>
		<link>https://literaturapolicial.com/2016/11/22/scanoni-e-os-10-mandamentos-de-chandler-uma-interpretacao-de-casos-recifenses/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Literatura Policial]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 22 Nov 2016 14:55:33 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>(Imagem: David Pakman Show) &#160; Por Fernando Maia &#8211; Comecei a pensar a escrever um policial, certamente pela idealização de</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><img  title="" decoding="async" class="alignnone wp-image-15701 size-full" style="border:1px solid #c0c0c0;margin-top:0;margin-bottom:0;" src="https://almanaquedaliteraturapolicial.files.wordpress.com/2016/11/chandler2.jpg"  alt="chandler2 Scanoni e os 10 mandamentos de Chandler: uma interpretação de Casos Recifenses"  width="639" height="495" /><br />
<em>(Imagem: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=aUSxLRmc40A" target="_blank" rel="noopener noreferrer">David Pakman Show</a>)</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-size:1.15em;"><strong>Por Fernando Maia</strong> &#8211; Comecei a pensar a escrever um policial, certamente pela idealização de um protagonista, lá pela segunda metade de 2010. A escrita de &#8220;Casos Recifenses&#8221; terminou definitivamente nos primeiros meses de 2013. Embora já tivesse ouvido muito falar de Raymond Chandler, só tomei contato com ele certamente no final desse ano, por meio de uma edição com alguns contos seus – acho que apenas um realmente policial. Disso, embora não tenha lido nada depois, passei a considerá-lo o melhor dentre os americanos, justo porque era ótimo escritor. </span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-size:1.15em;">Há coisa de dois anos conheci os mandamentos e na primeira lida, concordei muito com ele, mesmo parecendo insensato ditar regras para um gênero que hoje em dia é tão ampliado. Depois sempre tentei, nas releituras de &#8220;Casos Recifenses&#8221; e nas reflexões seguintes, interpretar Scanoni e o livro por meio dessas regras. Resolvi então escrever o exercício. Segue abaixo o resultado.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-size:1.15em;"><strong>1 – A narrativa deve ser motivada com verossimilhança, tanto quanto à situação original como o seu desfecho;</strong><br />
Tudo é verossímil em &#8220;Casos Recifenses&#8221;: os homicídios, a investigação, eivada de condicionantes técnicos próprio do trabalho policial, as vítimas, os homicidas, os motivos e principalmente o próprio Scanoni, além do espaço diegético: um Recife totalmente real, com a reprodução fidedigna, por exemplo, dos locais. Talvez seja válido algum questionamento sobre o temperamento do personagem ser coisa comum a um policial brasileiro, mas nunca se pode dizer que existir um Scanoni policial no Brasil seja impossível. Já trabalhei com policiais e digo que, se nenhum era um Scanoni, alguns eram bem mais sofisticados (na personalidade) do que o que se pensa. Para fazer um contraponto, Espinosa de Garcia Roza é um policial brasileiro que analisa seus suspeitos como psicanalista, que lê literatura extremamente elevada e sonha um dia em sair da polícia para abrir um sebo. Mas talvez o seu grande problema é que ele é um personagem ontologicamente ético, às vezes descambando para o moralismo, enquanto a instituição de que faz parte é ontologicamente podre, salvando-se ele e mais uns auxiliares. Não parece fazer sentido. Espinosa tem problemas claros de verossimilhança. Acho que Scanoni, não. E antes que me chamem de despeitado, bebi muito em Garcia Roza na composição do meu personagem, principalmente na relação que Espinosa tem com a sua localidade, o Rio, Copacabana e o Peixoto.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-size:1.15em;"><strong>2 – Ela deve ser tecnicamente notada como método de assassinato e de detecção do crime;</strong><br />
Salvo algum erro ou outro, minha preocupação em ser correto quanto a esses assuntos foi muito grande. Inclusive, quando procurei usar os termos mais técnicos como laudo tanatoscópico, papiloscopista, balística, forense, diligência, etc; além de fazer certas escolhas por palavras como projétil, em vez de bala, disparo, em vez de tiro, homicida, em vez de assassino e homicídio, em vez de assassinato, abdômen, em vez de barriga, crânio em vez de cabeça, etc. E seria importante notar também que os policiais, no discurso direto, quase sempre usam o jargão mais técnico. As pessoas normais não. Isso é caso para uma leitura atenta.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-size:1.15em;"><strong>3 – Deve ser realista em temperamento, cenário e atmosfera. Deve falar sobre pessoas reais no mundo real;</strong><br />
Isso continua a resposta à primeira regra. As intenções realistas (verossimilhança é um termo melhor) perpassam todo o texto de &#8220;Casos Recifenses&#8221;, pelo menos até o epílogo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-size:1.15em;"><strong>4 – Deve ter uma história que tenha valor para além do mistério: ou seja, a investigação por si mesma deve ser uma aventura atraente de se ler;</strong><br />
Procurei inserir problemáticas da vida de qualquer pessoa em Scanoni. Acho muito irritantes as histórias policiais em que os personagens não fazem nada a não ser pensar no crime e investigar o crime, aí bebem por causa do crime, não dormem por causa do crime, brigam com a esposa por causa do crime, abandonam os filhos por causa do crime, não comem ninguém por causa do crime, etc. Tanto que Scanoni é profundamente preocupado em deixar as coisas de trabalho na Seccional e ir pra casa dormir na rede, inclusive abandonando um caso, porque vai entrar de férias. O único momento em que ele pensa em trabalho fora do expediente é quando sonha. Mas, além de sonhar com outras coisas, como por exemplo, mulheres, não se pode controlar o onirismo. E isso é bem realista. E pessoalmente gostei bastante dos resultados que alcancei na vida sentimental do personagem, fundada no contraponto entre idealismo (platônico) e realidade, coisa que pode acontecer a qualquer pessoa nos assuntos de amor.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-size:1.15em;"><strong>5 – Deve ser essencialmente simples para se explicar com facilidade quando for o momento adequado;</strong><br />
Às vezes acho que acabei complicando algumas das histórias. Principalmente a “A cópia malfeita” que é a de que menos gosto, em que julgo exagerado no detalhismo. Na verdade, as histórias passaram a ser mais simples depois que eu elaborei uma espécie de procedimento pra escrever. Mas além do caso supracitado sempre fico me perguntando se simplifiquei suficientemente as coisas.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><img  title="" loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-15707 size-full" style="border:1px solid #c0c0c0;margin-top:30px;margin-bottom:30px;" src="https://almanaquedaliteraturapolicial.files.wordpress.com/2016/11/51dbqar3rjl.jpg"  alt="51dbqar3rjl Scanoni e os 10 mandamentos de Chandler: uma interpretação de Casos Recifenses"  width="324" height="500" /></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-size:1.15em;"><strong>6 – Deve ser capaz de confundir o leitor mais esperto;</strong><br />
Duas coisas aí. Acho que em “Aurora Vermelha” eu dou uma escancarada logo no começo sobre o homicida. O leitor tem que se perguntar: o cara diz que entrou na casa porque entrou e Scanoni desiste dele? A minha justificativa é que o leitor deve entender que Scanoni é metódico no trabalho. Se o suspeito fez uma coisa estranha, mas não há nada que se encaixe no resto da investigação – lembremos que essa investigação estava no início – ele não tem por que insistir nesse suspeito. O nome disso é contraditório, até onde eu entendo de direito penal. E para Scanoni, imagino que tenha falhado em deixar isso claro, ninguém é suspeito a não ser que apareça algum elemento que razoavelmente indique o contrário. A outra coisa é que a estratégia clássica dos escritores policiais é pôr na história um personagem que parece o criminoso. Eu nunca gostei muito disso porque parece embuste, com raras exceções. O que eu fiz, algumas vezes, foi fazer Scanoni cometer erros procedimentais e de raciocínio no trabalho. Acho mais crível. E além de tudo fiz alguns deboches, como em “Raticidas Populares” quando Scanoni tem uma sensação estranha por causa do formol. No mais pode ser que eu tenha errado a mão alguma vez quando tentei confundir o leitor. Procurarei lidar melhor com isso no próximo livro.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-size:1.15em;"><strong>7 – A solução deve parecer inevitável quando for revelada;</strong><br />
Não entendo bem o que significa essa regra. Acho que diz mais respeito ao noir americano e os hard boilled, quando matar o criminoso muitas vezes é a única saída pro investigador. Acho que não se aplicaria a nosso amigo.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-size:1.15em;"><strong>8 – Não se deve tentar fazer tudo ao mesmo tempo. Se é uma história quebra-cabeça, operada em um ambiente razoavelmente bom, não pode ser também uma aventura violenta ou um romance apaixonado;</strong><br />
Isso diz respeito ao tom (à tinta, como diria Machado de Assis). Ou se usa o cérebro, ou se usam os músculos, ou se usa o coração. Dá até pra pitar um pouco de um, quando o tom é o outro, mas a dose tem que ser pequena. Acho que fiz isso, escolhendo o cérebro, colocando algo de coração, ainda que nunca se dramatize isso. Violência, só a dos próprios homicídios, que por sua vez, nunca são nada impressionantes ou elaborados. Sobre a escolha pelo cérebro, o quebra-cabeças nunca é tão complicado assim. É por meio do trabalho investigativo e não pelo poder de dedução, esse virou poder de escamoteio nas história das narrativas policiais, que Scanoni resolve (ou não) os seus casos. Como costumo dizer, ele não é mais inteligente que o normal da humanidade, ele é apenas competente quando desempenha seu trabalho como policial. Aí, de fato, sugere-se que ele está acima da média.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-size:1.15em;"><strong>9 – A história deve punir o criminoso de um jeito ou de outro, não necessariamente por força da lei. Se o detetive falha em resolver as consequências do crime, a história é um acorde sem solução, o que deixa irritação por trás dele;</strong><br />
Desobedeci muito isso. É notável que, no final de tudo, Scanoni não prende ninguém e muito menos mata alguém. A função dele, e ele sabe disso, não é essa de punir o criminoso de um jeito ou de outro. A função dele é fechar o inquérito devidamente, com o esclarecimento do fato, ou no mínimo fazer o que pode ser feito dentro de horário de expediente. É de fato um papel no processo de punição ao criminoso, mas conscientemente limitado. Essa característica do meu personagem foi claramente uma interpretação do investigador Dave Toschi, apresentado a nós como personagem no filme Zodíaco, de David Fincher. Num contraponto a outro personagem, o arquétipo do detetive consultor, as demandas de Toschi eram sempre no sentido de que ele não poderia ir além do processo a que ele estava subordinado, por mais que às vezes pudesse ficar frustrado por isso. A única vez em que Scanoni parece um pouco mais frustrado com esses limites, é quando, em Obituário de Carnaval, ele quer de fato prender uma pessoa. Mas o leitor atento deve notar que mais do que fazer justiça, ele quer compensar o fato de que não haverá carnaval para ele. Daí o estardalhaço da operação que prenderia o criminoso. A intenção aí, antes de ser irritar os leitores, foi causar efeitos mais realistas, até porque a minha avaliação sobre essa necessidade ética da literatura policial – a de se fazer justiça, não importando eventuais custos elevados – é a de que ela é um moralismo piegas pouco aplicável ao nosso tempo. E ao meu favor, posso dizer que nenhuma das pessoas que leu o livro alegou irritação por isso.</span></p>
<p style="text-align:justify;"><span style="font-size:1.15em;"><strong>10 – Você deve ser honesto com o leitor.</strong><br />
Essa regra provavelmente é um ataque à história policial de contrafação, na qual aparece tanta coisa inexplicável, que a única saída pro escritor, além de jogar o próprio livro no lixo, é fazer um final mirabolante, tal qual novela da Globo e coroar todo o embuste. Porque diferentemente de confundir o leitor, que deve ter as mesmas chances de desvendar o mistério que o protagonista, há muito esforço em enganá-lo. A coisa chega ao paroxismo na recente série Sherlock da BBC. Se na introdução de &#8220;Um Estudo em Vermelho&#8221;, livro de Doyle, os resultados das deduções de Holmes sobre Watson, são apresentados anaforicamente pelo próprio Watson, na série de TV, tais deduções, são algo a que não se pode chegar, seja quem for o espectador. Quem assistir ao primeiro capítulo, vai ver que uma das características do médico e parceiro de apartamento que Sherlock Holmes aponta foi percebida e deduzida, depois que Sherlock viu o desgaste da entrada do plug do carregador de celular. Não havia possibilidade alguma de se tirar tais conclusões sobre Watson. Tanto é que, na explicação do processo, a câmera precisa se aproximar muito do telefone, numa tentativa tosca e histérica de convencer o espectador de que a pista esteve sempre ali aos seus olhos e ele é que foi descuidado. A intenção de enganar o espectador é flagrante e parece que há quem goste disso, dado que esse é o tom mais claro da série. Acontecem coisas parecidas com o Sherlock Holmes de Guy Ritchie. E como sugeri antes, a culpa disso não parece ser de Conan Doyle, mas na literatura, a grande mestra do policial de contrafação é Agatha Christie. Nunca li nada dela, mas já vi muita gente dizer que uma releitura de qualquer peça sua é capaz de ver o quanto ela é embusteira. Enfim, fica a avaliação pra quem a lê. De qualquer forma, tive intenções de obedecer essa regra em &#8220;Casos Recifenses&#8221;, mas admito poder ter havido uma falha ou outra nas concatenações. O saldo porém, parece positivo, na medida em que os que vieram me falar do livro, não reclamaram de desonestidade da minha parte.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align:justify;"><strong><img  title="" loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-4264" style="margin-top:0;margin-bottom:0;" src="https://almanaquedaliteraturapolicial.files.wordpress.com/2014/05/logo-lp-1.png?w=150"  alt="logo-lp-1 Scanoni e os 10 mandamentos de Chandler: uma interpretação de Casos Recifenses"  width="55" height="44" />Fernando Maia</strong> <span style="color:#000000;">é escritor. Publicou em 2014 o livro de contos <a href="https://literaturapolicial.com/2015/07/25/fernando-maia-casos-recifenses/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Casos Recifenses</a>, no qual apresenta o Investigador Scanoni. Nasceu e vive no Recife e é pai de Maria Flor e de João.</span></p>
<div class="saboxplugin-wrap" itemtype="http://schema.org/Person" itemscope itemprop="author"><div class="saboxplugin-tab"><div class="saboxplugin-gravatar"><img  title="" loading="lazy" decoding="async" src="https://literaturapolicial.com/wp-content/uploads/2023/09/WOsSxJON_400x400.jpg" width="100"  height="100"  alt="WOsSxJON_400x400 Scanoni e os 10 mandamentos de Chandler: uma interpretação de Casos Recifenses"  itemprop="image"></div><div class="saboxplugin-authorname"><a href="https://literaturapolicial.com/author/admin_literatura/" class="vcard author" rel="author"><span class="fn">Literatura Policial</span></a></div><div class="saboxplugin-desc"><div itemprop="description"><p>Ana Paula Laux é jornalista e trabalha com curadoria de informação, gestão de mídias sociais e criação de conteúdo digital. Em 2014, lançou o e-book “Os Maiores Detetives do Mundo” (Chris Lauxx). Contato: analaux@gmail.com</p>
</div></div><div class="saboxplugin-web "><a href="https://literaturapolicial.com/" target="_self" >literaturapolicial.com/</a></div><div class="clearfix"></div></div></div><p>O post <a href="https://literaturapolicial.com/2016/11/22/scanoni-e-os-10-mandamentos-de-chandler-uma-interpretacao-de-casos-recifenses/">Scanoni e os 10 mandamentos de Chandler: uma interpretação de Casos Recifenses</a> apareceu primeiro em <a href="https://literaturapolicial.com"></a>.</p>
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		<title>Zodíaco e o policial realista: a definição de um novo subgênero das narrativas policiais</title>
		<link>https://literaturapolicial.com/2015/10/29/zodiaco-e-o-policial-realista-a-definicao-de-um-novo-subgenero-das-narrativas-policiais/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Literatura Policial]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 Oct 2015 19:51:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[serial killer]]></category>
		<category><![CDATA[assassino do zodíaco]]></category>
		<category><![CDATA[caso zodíaco]]></category>
		<category><![CDATA[Casos recifenses]]></category>
		<category><![CDATA[David Fincher]]></category>
		<category><![CDATA[Fernando Maia]]></category>
		<category><![CDATA[Jake Gyllenhaal]]></category>
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		<category><![CDATA[Robert Downey Jr]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Fernando Maia &#8211; Já tinha visto Zodíaco uma vez ainda em 2007, e embora não tenha desgostado, não era</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Por Fernando Maia</em> &#8211; Já tinha visto Zodíaco uma vez ainda em 2007, e embora não tenha desgostado, não era nada iniciado na mitologia da história relatada para considerá-lo o melhor filme policial da existência. Ainda assim, saí com alguma sensação estranha, perguntando-me o que o filme queria dizer. À primeira vista, realmente o filme é inconcluso e devidamente decepcionante no que se trata das expectativas que se têm comumente sobre um policial. Daí, segui minha vida normalmente e provavelmente não teria contato com o filme outra vez.</p>
<p>Entretanto, pra minha sorte, perto do final de 2009 estava eu numa situação meio involuntária de marasmo e ócio e o Cinemax resolveu passar Zodíaco de David Fincher pelo menos a cada três dias durante uns dois meses em horários diversos. Devo ter visto todas as vezes, no mínimo umas dez, quase sempre depois de o filme ter começado. A minha consideração não se deu porque o filme era violento ou caricato como “Seven” (mesmo diretor e certamente um bom filme) e muito menos porque a trama era tão bem feita e bisonha quanto a de “O código da Vinci” (de algum diretor e certamente uma porcaria). Considero Zodíaco uma aula de como se fazer cinema (direção de arte, fotografia, trilha sonora e finalmente direção geral) e uma introdução inteligentíssima ao estudo dos subgêneros da narrativa policial, ficcionais ou não. O filme se baseia numa história real e sequer cogita mudar os nomes dos personagens dela: vítimas, policiais e suspeitos. O efeito disso, somado a uma caracterização de época formidável, é arrebatador. Baseou-se também no livro de Robert Graysmith de mesmo título. Esse é um dos três protagonistas e é sob o ponto de vista dele que o enredo é contado. O meu problema aqui nesse artigo que segue é apresentar a introdução de que falei acima.</p>
<h5>Primeiro vamos aos eventos reais</h5>
<p>Uma série de homicídios ocorridos em São Francisco e outras cidades próximas do sul da Califórnia entre o final da década de 60 e início da de 70, cometidos por um cidadão indiscutivelmente muito psicótico que enviava cartas cifradas à polícia e a veículos de impressa e que resolveu se dar a alcunha de Zodíaco. As investigações levaram a uma infinidade de suspeitos, porém ninguém nunca foi condenado pelo caso. Um livro-reportagem foi escrito e virou best seller no início da década de 80.</p>
<p>Em 2007, David Fincher lançou Zodíaco no cinema. Alguém que assistir ao filme desinformado sobre a história, muito provavelmente achará que é uma ficção. Há muitos casos reais de homicidas seriais nos Estados Unidos, mas certamente o Caso Zodíaco, a se tomar pelos crimes (impressionantes apenas na torpeza, de fato), pelo impressionismo que o psicopata usava para se apresentar (a escolha de uma alcunha, as cartas cifradas, o uso de símbolos na vestimenta – como relataram alguns sobreviventes – citações a um filme cujo protagonista é um caçador de gente e por aí vai) e pela mitologia que surgiu depois é um dos que mais se parecem com uma história saída da cabeça de um autor bem imaginativo de narrativas policiais. Considero que a sacada do diretor em escolher fazer um filme sobre essa história passa por alguma interpretação desse tipo.</p>
<h5>Mas vamos ao filme</h5>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://almanaquedaliteraturapolicial.files.wordpress.com/2015/10/zoo2.jpg"><img  title="" loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-9692 " style="border: 1px solid #c0c0c0; margin-top: 0; margin-bottom: 0;" src="https://almanaquedaliteraturapolicial.files.wordpress.com/2015/10/zoo2.jpg"  alt="zoo2 Zodíaco e o policial realista: a definição de um novo subgênero das narrativas policiais"  width="516" height="336" /></a></p>
<p>Zodíaco começa num 4 de julho de 1969 com a cena do segundo ataque, no qual, em comunicação posterior à polícia o homicida se apresenta e confessa um outro ataque do ano anterior, dando detalhes apenas conhecidos pela polícia. A partir de então Fincher vai pôr em cena os três protagonistas. O primeiro, Paul Avery (Robert Downey Jr), é o editor da seção policial do San Francisco Chronicle. O segundo, Robert Graysmith – o escritor real do best seller – (Jake Gyllenhaal), é um cartunista do mesmo jornal que se interessa com alguma obsessão indevida pelo caso e o terceiro, Dave Toschi (Mark Ruffalo), investigador de homicídios da Polícia de São Francisco. Isso tudo foi estática, vamos à cinemática.</p>
<p>Os dois primeiros funcionam como representantes de dois subgêneros das narrativas policiais: Avery, da crônica policial, cuja versão ficcional é a narrativa de crime. Dedica-se ao caso para produzir notícias e não propriamente para resolvê-lo. Já Graysmth é um representante do subgênero clássico <em>whodunnit</em> ou do detetive consultor, guardadas as devidas diferenças em relação ao seu protótipo e criador do ofício, Sherlock Holmes. Empreende uma investigação amadora (no sentido mais exato de não-profissional) tentando desvendar um mistério perfeito. O terceiro, Toschi, representa um subgênero não muito propalado e talvez nem sequer definido apropriadamente, que é o policial realista. A investigação do caso e a tentativa de levar o criminoso à justiça não são um interesse em vender algo ou a tentativa de desvendar um mistério. São apenas atribuições normais do seu trabalho. Só como suplemento, Toschi está realmente interessado em levar à justiça um homicida que agiu numa área sob a sua jurisdição e por isso está fortemente preocupado com a produção de provas que possibilitem o caminhar do processo judicial pertinente.</p>
<p>Nesse ponto, precisamos de um adendo. Enquanto a lista de obras e autores (de cinema, de literatura ou de ambos) dos dois primeiros subgêneros é extensa e pouco discutível, proponho uma aqui para o terceiro, curta e extremamente discutível: na literatura os romances e contos com o Comissário Salvo Montalbano de <span style="color: #0000ff;"><a style="color: #0000ff;" href="https://www.youtube.com/watch?v=w7Q1pN-GRbE" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Andrea Camillieri</a></span>, <span style="color: #0000ff;"><a style="color: #0000ff;" href="https://literaturapolicial.com/2015/10/06/mestres-da-ficcao-luiz-alfredo-garcia-roza/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Garcia Roza</a></span> com o Delegado Espinosa e de alguma forma o policial nórdico (que eu chamo por minha própria conta de gris, como se fosse a mistura do noir com o branco da neve ártica). Na televisão diria que a série True Detective representa o subgênero. E já que tudo precisa de um pai fundador, o Comissário Maigret de <span style="color: #0000ff;"><a style="color: #0000ff;" href="https://www.youtube.com/watch?v=WpQY9Bs3Gws" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Simenon</a></span> pode ser o pai de tudo.</p>
<p>Para quem conhece essa lista, as diferenças entre essas obras são muito grandes, mas o meu ponto aqui é que todas elas tentam jogar com alguma verossimilhança entre a ficção que apresentam e a realidade do trabalho das instituições policiais reais e dos homens e mulheres que as fazem. Essa seria a definição primária do que entendo como policial realista. Mas voltemos ao filme.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://almanaquedaliteraturapolicial.files.wordpress.com/2015/10/zoo3.jpg"><img  title="" loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-9694" src="https://almanaquedaliteraturapolicial.files.wordpress.com/2015/10/zoo3.jpg"  alt="zoo3 Zodíaco e o policial realista: a definição de um novo subgênero das narrativas policiais"  width="600" height="330" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O enredo fundamental é a caçada ao Zodíaco empreendida por esse três personagens e as interações (bilaterais) consequentes disso entre eles três. E daí, eis a dinâmica. É nessas interações que a genialidade de Fincher em trabalhar personagens simbólicos e representativos de uma série de contextos explode ao ponto de os seus personagens se tornarem os próprios arquétipos mais consistentes daquilo que supostamente representavam antes. Talvez em Zodíaco, não alcance essa genialidade sobre os dois primeiro símbolos – o cronista policial e o detetive consultor – entretanto, tal como consegue em a Rede Social (filme também sobre uma história real) chega à perfeição com Dave Toschi. Sobre as interações de que se falou acima, apresentarei trechos fundamentais e alguns dos diálogos da mesma estirpe que elucidarão o problema-foco dessa resenha.</p>
<p>Por volta do início do último terço do filme, Graysmith, prestes a entrar de vez na sua investigação, vai à casa de um Avery envelhecido, alcoólatra, drogado e em franca decadência profissional, na intenção de propor que um livro deveria ser escrito. O desdém do jornalista (nesse ponto demitido há muito tempo do Chronicle) já se inicia na primeira resposta, quando concorda que alguém deveria escrever um livro, mas pergunta, sobre o quê? Graysmith explica o seu plano de um livro sobre o Caso Zodíaco. Avery se recusa dizendo algo como ”não é mais notícia. Trabalhamos com atualidades”. É o cronista policial comunicando ao detetive consultor que o seu papel não é desvendar mistérios. Recomendo ao leitor que se atente à decepção que se queda sobre Graysmith, num dos pontos altos de Gyllenhaall na atuação que deve ser a melhor da sua carreira. Noutro trecho, anterior ao primeiro, Avery publica uma matéria sobre um homicídio supostamente cometido pelo Zodíaco numa cidade do norte da Califórnia, já próxima de Los Angeles. Toschi então vai a Riverside (a cidade), mas ao que pareceu as suposições de Avery não tinham nenhum fundamento e pior, atrapalhariam as investigações das polícias no sul da Califórnia. Nesse ponto do filme, Toschi e Avery se desentendem e acabam com quaisquer possibilidades de cooperação sobre o caso, o que antes do evento era a tônica da relação entre os dois.</p>
<p>Mas o grande debate do filme passa a se dar entre o detetive consultor e o policial realista. Antes de começar, peço ao leitor que imagine um debate hipotético entre Sherlock e o inspetor Lestrade da Scotland Yard e o mantenha em mente. Depois o compare ao debate entre Graysmith e Toschi que apresentarei então. O primeiro encontro entre os dois se dá depois de a justiça negar a Toschi a prisão de um suspeito de ser o Zodíaco por insuficiências de provas, e acontece na sala de espera do cinema em que ambos os personagens assistem a uma seção de Dirty Harry. Para quem não conhece, o filme é um hard-boiled de 71, em que o assassino manda cartas cifradas com chantagens à polícia e se dá o nome de Scorpio. Harry Callaghan (Clint Eastwood) é o policial truculento responsável por caçar o sujeito. A metalinguagem é utilizada perfeitamente aí, mas isso não é assunto urgente. Toschi sai da seção incomodado e Graysmith o segue. Esse se aproxima com a feição angustiada que exibe durante quase todo o filme e diz a Toschi algo como “o assassino morre com um tiro no peito”. Alguém passa e diz a Toschi: “Calahan fez um ótimo trabalho no seu caso, hein?”. Toschi replica com “nem precisou de um processo, não foi?”. Aqui fica claro qual o papel do policial realista definido por Fincher.</p>
<p>O segundo encontro entre os personagens aparece depois de um corte de quatro anos (o tempo diegético da obra se estende por quase vinte), e é posterior ao último diálogo entre Graysmith e Avery. O nosso detetive consultor (que diferentemente de Sherlock, nunca foi consultado pela polícia) vai à busca de Toschi na esperança de que o Caso Zodíaco se reavive. Toschi, que devidamente não se lembrou do primeiro encontro entre os dois, é no início desdenhoso e tal como Avery, alerta Graysmith de que o caso não está mais na agenda da polícia, dizendo algo como “já faz mais de quatro anos que ele não aparece. Nesse tempo mais de 200 pessoas foram assassinadas em São Francisco. Eu tenho trabalho a fazer”. O que parece acontecer, na verdade, decorre das circunstâncias incomuns sob que a série de homicídios ocorre. Os ataques se deram em várias cidades, cada uma com uma polícia diferente, que por uma miríade de problemas associados ao trabalho policial não conseguiram cooperar. Coisas como uma polícia ter um suspeito, contra o qual os indícios mais robustos estavam com outra. Como também o fato de, aparentemente, as vítimas terem sido escolhidas quase que aleatoriamente.Há o de São Francisco, em que o Zodíaco mata um taxista. Os outros quatro ataques oficialmente atribuídos ao psicopata foram a casais em áreas ermas. Nenhuma das vítimas nunca teve qualquer relação com outra, exceto, evidentemente, o algoz.</p>
<p>Como o filme e mesmo o livro de Graysmith relatam a confusão foi enorme, e isso naturalmente acabou atrapalhando o trabalho empreendido pelas polícias e pela justiça da Califórnia. Voltando ao diálogo, Toschi ainda tem uma fagulha de esperança de encerrar o seu caso, quando Graysmith se mostra realmente interessado. Por isso ele tenta ajudá-lo com a indicação dos policiais responsáveis pelas investigações nas outras cidades . A partir disso, o detetive consultor inicia efetivamente seu trabalho de investigação. Como não é profissional, ele tende a se fundamentar muito mais em elementos circunstanciais e mesmo pitorescos do caso do que na produção das provas que levariam o Zodíaco à justiça. E é nesse papel que a feição angustiada do ator se torna desesperada. O personagem ainda vai deteriorando a sua vida pessoal, numa obsessão bem típica de detetives ficcionais. Só que sem os atributos inumanos do análogo de Bakery Street B, o fracasso do seu trabalho soa retumbante. Até o ponto em que ele chega, num lance de sorte, ao nome do suspeito preferido de David Toschi: Artur Leigh Alley.</p>
<p>Cruzando informações do próprio arquivo e das polícias sobre o caso, Graysmith descobre a data de nascimento do suspeito. Ao se lembrar de um telefonema feito dez anos antes a um apresentador de TV, em que um suposto Zodíaco revela que é o dia do seu aniversário, ele fecha o arco investigativo típico do <em>whodunnit</em>. Desesperado, vai de madrugada à casa de Toschi, que já tinha sido retirado da investigação do caso. A sequência de diálogos que se segue entre os dois é monumental. De um lado Graysmith apresentando um resumo da investigação. Elementos circunstanciais e intuitivos pululam. Toschi rebate quase todos os argumentos pedindo provas técnicas e efetivas, evidências – impressões digitais, grafologia, testemunhas oculares, etc. Num ponto, o policial revela uma carta que recebera do suspeito. Graysmith o interpela dizendo “foi datilografada”. Toschi replica “isso não é crime, Robert”. A conversa continua num bar onde tomam café da manhã e Graysmith consegue apresentar um relato mais consistente e convincente com a conclusão de que Artur Leigh Alley era o Zodíaco. Toschi, estupefato, aceita a conclusão, mas insiste por provas. Graysmith insiste que ele admita a culpa de Alley e lhe fala:</p>
<p>&#8211; Não pergunto ao policial.<br />
&#8211; Mas eu sou policial – Toschi responde. Então respira, encara Graysmith e desfecha serenamente<br />
– Calma Dirty Harry. Acabe o livro.</p>
<p>Dave Toschi então passa a figurar como o protótipo do policial realista, subgênero, como disse, pouquíssimo propalado, talvez justamente porque lhe falta uma definição que o tome como tal. Deve-se pensar fundamentalmente, que embora Dave Toschi seja um personagem real, o de Fincher passa pelo seu filtro artístico e se torna naturalmente ficcional. E se Graysmith é o protótipo do irrealista detetive consultor ao menos nas suas intenções obsessivas, é Dave Toschi que o faz cair na real (sem trocadilho, claro). Não é o mote aqui, mas se há um conflito entre esses dois símbolos, ele termina com a vitória de Avery, ou do cronista policial. O livro que Graysmith publica é um típico documentário de crime que vendeu aos borbotões. Numa perspectiva mais ampla, entretanto, a vitória acaba sendo do Zodíaco, embora seja possível interpretar que o mistério foi desvendado por Graysmith – e a cena no finalzinho do filme em que o cartunista e Alley se encontram é inquietante – infelizmente o psicopata, cuja inteligência não é (e não havia de fato nenhum motivo pra ser) celebrada, nunca foi preso porque o Estado, amarrado no seu próprio realismo não pode fazer justiça. Em Dirty Harry, ele levou um tiro no peito. Se fosse um filme de Sir Doyle, provavelmente tudo teria sido obra de Moriarty, o antípoda de Sherlock, de inteligência também inumana. Entretanto, o que David Fincher acaba dizendo quando enfatiza as problemáticas reais do sistema de justiça para se tornar efetivo não é que o mal sempre vence. Mas sim que às vezes ele é tão torpe que pode vencer. E o papel da justiça (e da polícia no meio) é o de trabalhar para que isso não aconteça.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="https://almanaquedaliteraturapolicial.files.wordpress.com/2015/10/foto_fernando_maia.jpg"><img  title="" loading="lazy" decoding="async" class="alignleft wp-image-9688" style="border: 1px solid #c0c0c0; margin-top: 0; margin-bottom: 0;" src="https://almanaquedaliteraturapolicial.files.wordpress.com/2015/10/foto_fernando_maia.jpg"  alt="foto_fernando_maia Zodíaco e o policial realista: a definição de um novo subgênero das narrativas policiais"  width="100" height="97" /></a></strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><em><strong>Fernando Maia</strong> é escritor. Publicou em 2014 o livro de contos <a href="https://literaturapolicial.com/2015/07/25/fernando-maia-casos-recifenses/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Casos Recifenses</a>, no qual apresenta o Investigador Scanoni. Nasceu e vive no Recife e é pai de Maria Flor.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<div class="saboxplugin-wrap" itemtype="http://schema.org/Person" itemscope itemprop="author"><div class="saboxplugin-tab"><div class="saboxplugin-gravatar"><img  title="" loading="lazy" decoding="async" src="https://literaturapolicial.com/wp-content/uploads/2023/09/WOsSxJON_400x400.jpg" width="100"  height="100"  alt="WOsSxJON_400x400 Zodíaco e o policial realista: a definição de um novo subgênero das narrativas policiais"  itemprop="image"></div><div class="saboxplugin-authorname"><a href="https://literaturapolicial.com/author/admin_literatura/" class="vcard author" rel="author"><span class="fn">Literatura Policial</span></a></div><div class="saboxplugin-desc"><div itemprop="description"><p>Ana Paula Laux é jornalista e trabalha com curadoria de informação, gestão de mídias sociais e criação de conteúdo digital. Em 2014, lançou o e-book “Os Maiores Detetives do Mundo” (Chris Lauxx). Contato: analaux@gmail.com</p>
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