Por Rogério Christofoletti – Caetano Veloso já cantou que “os livros são objetos transcendentes mas podemos amá-los do amor táctil que votamos aos maços de cigarro”. Quem ama um livro, um autor, um tipo de literatura sabe que a espessura desse sentimento é muito maior que as obras completas de Balzac, e que nenhuma nota de rodapé poderia comportá-lo, mesmo que demasiadamente abreviado.
Numa saborosa brincadeira com as palavras, Blaise Pascal teria dito que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”, o que em bom português significa que o amor não é racional. Um sarcástico responderia: “vou pensar melhor nisso…”. Mas o fato é que me pego agora reunindo um conjunto de motivos para sustentar uma paixão, um amor que simplesmente prescinde de cartilha. Tão desnecessário quanto fazer listas de títulos favoritos. Tão prazeroso e irresistível quanto compartilhar as mesmas listas com outros leitores…
Ficam, então, os motivos para amar a literatura policial aqui sistematizados, como quem organiza as prateleiras e acaricia as lombadas dos volumes. Talvez sirva ao leitor como um punhado de argumentos em calorosas discussões bizantinas, como munição em saraus e festins, como aparato de sedução em corredores de livrarias. Elencar esses motivos é uma maneira de declarar esse amor táctil, na medida que os livros mais conhecem: a medida das palavras.
1. A literatura policial é popular
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2. A literatura policial permite experimentação
A engenharia complexa dos enredos, as possibilidades narrativas, as brumas da ambientação e da caracterização psicológica, e o engendramento de enigmas, tudo isso é interessante nas histórias policiais. Se atrai leitores, também instiga os autores, e muitos deles se aventuram no terreno da literatura policial para testar seus limites técnicos e criativos. É o caso de Charles Dickens (e seu inspetor Bucket), Fernando Pessoa (com o personagem Abílio Quaresma), Umberto Eco (em O Nome da Rosa), Orhan Pamuk (Meu nome é vermelho) e até mesmo J.K. Rowlling, que já assinou dois livros sob o pseudônimo Robert Galbraith e é considerada a autora mais influente de Hollywood no momento…
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3. A literatura policial é prazerosa e agrada aos leitores
Pode consultar qualquer lista de mais-vendidos e você vai encontrar pelo menos dois romances policiais entre os dez primeiros. No The New York Times é assim, no Le Monde também, e os principais rankings brasileiros não fogem à regra. Se tanta gente recorre a esses livros, sinal de que o gênero é abrangente e empolgante. Afinal, ninguém sabe mais de literatura do que o leitor…
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4. A literatura policial é instigante e agrada aos escritores
Some-se à lista do motivo nº 2 os diversos autores que já manifestaram seu interesse e predileção pelo gênero policial. Entre eles os argentinos Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares, que sob o pseudônimo Honorio Bustos Domecq, escreveram “Seis problemas para Don Isidro Parodi” e “Duas fantasias memoráveis”. Borges foi taxativo. Para ele, a narrativa policial é “uma das poucas invenções literárias da nossa época, de um encanto tão poderoso que dificilmente há obra narrativa que não participe dela em alguma medida”…
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5. A literatura policial tem especificidade
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6. A literatura policial é evolutiva
Embora já tenha mais de 150 anos de história, o gênero não estagnou, gerando subgêneros (como o noir e hard-boiled) e alargando as fronteiras da narrativa. Há personagens de todos os tipos, crimes dos mais diversos naipes, soluções as mais criativas. A ficção de crime se reinventa a cada tiro e punhalada…
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7. A literatura policial é influente
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8. A literatura policial é organizada
Não bastassem as regras bem definidas do gênero e sua força nas livrarias pelo mundo, a ficção policial também conta com prêmios que reconhecem o trabalho dos autores, associações de escritores (como a CWA, do Reino Unido) e eventos específicos para leitura, discussão e criação coletiva, como o Quais du Polar, em Lyon (França) e o BAN!, em Buenos Aires.
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9. A literatura policial é generosa com o leitor
Tradicional ou vanguardista, para rápido consumo ou para extremos jogos cerebrais, este gênero já ofereceu alguns dos maiores personagens da literatura universal. O que dizer de Sam Spade, o arquétipo do policial durão? E Nero Wolfe, o glutão perspicaz? Paris seria a mesma sem Maigret? Cabem adjetivos para Poirot? Só mais um: Sherlock Holmes, o homem que nunca viveu e nunca morrerá! Quer maior atestado de imaginação criadora?
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10. A literatura policial está em expansão
Ela ignora fronteiras geográficas e linguísticas, e não dá sinais de que vá parar tão cedo. Há referências do gênero em todas as partes do planeta: em Cuba (Leonardo Padura-Fuentes) e na Islândia (Arnaldur Indridason), em Israel (Batya Gur) e no Chile (Roberto Ampuero), na Bélgica (Georges Simenon) e no Japão (Fuminori Nakamura). Homens e mulheres, jovens e experientes, os autores de histórias policiais demonstram em todas as línguas (inclusive o português!) que o gênero tem se disseminado em todas as direções. A dinâmica demonstra força e ímpeto, mas também permite que a narrativa policial sirva para nos apresentar as mais variadas e ricas culturas locais do planeta. É pra amar a literatura policial ou não, hein?
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Jornalista, dramaturgo e professor universitário. Já publicou 12 livros na área acadêmica e escreveu oito peças de teatro. É um dos autores do e-book “Os Maiores Detetives do Mundo” (Chris Lauxx).
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