resenha

Meu nome é Vermelho, de Orhan Pamuk

 

A Academia Real Sueca concedeu o Nobel de literatura em 2006 para Orhan Pamuk, confirmando seu favoritismo apesar da extensa e disputada lista de concorrentes. Principal romancista turco da atualidade, seus livros encaminham o leitor através de um labirinto de histórias e crenças cujo cenário é sua cidade natal, Istambul, um símbolo do entrelaçamento e confronto entre Ocidente e Oriente, principal tema de seus livros.

Publicado em 1998, “Meu nome é Vermelho” foi recebido com rasgados elogios pela crítica, porém, sua consagração definitiva veio cinco anos depois, quando recebeu o prestigiado IMPAC Dublin Literary Award.

Sua história transcorre durante o final do século XVI, quando um miniaturista da corte aparece assassinado no fundo de um poço. O crime pode estar ligado a um livro secreto que a vítima estava ilustrando, encomendado pelo sultão para enaltecer a glória do Império Otomano. Trata-se de um presente para uma comitiva veneziana que virá visitá-lo nos próximos anos e suas iluminuras, ao invés de obedecerem as regras toscas e bidimensionais da arte islâmica, seguem o florescente estilo renascentista cuja pintura figurativa é considerada uma afronta ao Alcorão.

Com quatro miniaturistas entre os principais suspeitos e uma única pista, um cavalo de estranhas narinas desenhado no corpo da vítima, Negro Effendi foi designado para assumir as investigações e conta com pouco tempo para apontar o assassino, dividido entre três hipóteses: rivalidade profissional, crime passional ou atentado terrorista.

 

[su_quote]Se a imagem do ser amado fica viva no seu coração, o mundo inteiro é sua casa.[/su_quote]

 

Contudo, o que ele realmente deseja é despertar a atenção de Shekure, o grande amor de sua vida. Separados há doze anos, a jovem está presa a uma antiga tradição: só pode ser declarada viúva quando seu marido, desaparecido durante uma batalha, for declarado morto por uma testemunha. Em dúvida quanto a seus sentimentos e constantemente assediada pelo cunhado, ela é uma personagem intrigante que revela uma sociedade com baixa tolerância às necessidades e opiniões femininas.

Sem um narrador onisciente, “Meu nome é Vermelho” apresenta 19 vozes e duas pertencem a uma mesma pessoa: o assassino. Em alguns capítulos, ele assume a autoria do crime, mas não revela quem é e, em outros, não admite a culpa sob a proteção de sua verdadeira identidade. Um enigma que desafia o leitor até o desfecho e garante algumas páginas absolutamente inusitadas, apresentadas por personagens pouco convencionais como um cachorro, uma árvore e até mesmo a cor vermelha.

Em síntese, denso de ideias, trata-se de uma proposta deslumbrante de leitura que reúne romance policial e histórico, ficção e realidade, filosofia e religião. Erudito, permite conhecer mais a fundo o Corão e a cultura islâmica e sua heterodoxa construção narrativa aponta para um novo caminho na literatura.

 

SOBRE O LIVRO

Título: Meu nome é vermelho
Autor: Orhan Pamuk
Páginas: 536
Editora: Companhia das Letras
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SINOPSE – Meu nome é Vermelho alia narrativa policial, uma história de amor proibido e reflexões sobre as culturas do Ocidente e do Oriente. A trama se passa em Istambul, no fim do século XVI. Para comemorar o primeiro milênio da Hégira (a fuga de Maomé para Meca), o sultão encomenda um livro para demonstrar a riqueza do Império Otomano. Para provar a superioridade do mundo islâmico, porém, as imagens devem ser feitas com técnicas de perspectiva da Itália renascentista. As intenções secretas do sultão logo dão margem a especulações, desencadeando uma onda de intrigas, e um dos artistas que trabalhava no livro é assasinado. Ao mesmo tempo, desenrola-se o caso de amor entre o Negro, que voltara a Istambul após doze anos de ausência, e a bela Shekure. Construída por dezenove narradores – entre eles um cachorro, um cadáver e o pigmento cuja cor dá nome ao livro -, a história surpreende pela exuberância estilística, que reflete o encontro de duas culturas.

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