Por Rogério Christofoletti – Junte numa mesma pessoa aquele cunhado homofóbico, o vizinho racista e o colega do trabalho que se diverte achincalhando nordestinos. Depois, encaixe-os num corpo imenso e dê à rotunda figura um distintivo da polícia. Coloque o personagem no Rio de Janeiro, ao lado da diminuta comissária Lurdes, e injete nele uma vontade incansável de limpar as ruas da cidade. Esta é uma receita abreviada do detetive Andrade, personagem que – desculpe o trocadilho! – rouba a cena em “A pedido do embaixador”, romance de estreia de Fernando Perdigão.
Escalado para investigar a morte de um empresário do turismo gay, Andrade vai usar seus próprios (e impróprios) meios para chegar ao assassino e os motivos que o levaram às vias de fato. Na cola dele, o secretário da segurança pública do Rio e um influente embaixador, que – para nojo de Andrade – já foi amante da vítima. Para piorar, o detetive não tem a confiança do delegado Otávio, e seus métodos causam estragos diversos. Afinal, Andrade arranca confissões com chantagens, ameaça informantes e vez ou outra usa a força.
“A pedido do embaixador” se equilibra num enredo bastante trivial, e poderia ser uma novela bem mais curta. Seu autor segue a cartilha da história policial clássica e é econômico em malabarismos narrativos. Apesar disso, o livro cresce em duas direções certeiras: tem excelentes diálogos e um protagonista incandescente. As frases curtas e diretas, e a troca rápida de falas torna a leitura muito fluente, quase viciante. Andrade não tem qualquer compromisso com o pudor e o politicamente correto, o que permite um repertório de tiradas inspiradas, mas altamente reprováveis. Não é raro que o leitor se constranja diante do que lê. É fácil também que exploda em gargalhadas, muitas delas nervosas. “Não tinha preconceito com nada, mas odiava gente: homens, em especial; e a sociedade inteira, em geral”.
Assim, Andrade esculacha Dolores, a doméstica nordestina que cuida de tudo em sua casa. Ironiza de forma perversa os mais pobres, os indefesos e aqueles que considera subalternos, parcela expressiva da humanidade. É grosseiro, bruto e arbitrário. Não apenas se acha um ícone policial, mas uma autoridade moral por onde passa. Não precisamos de muitas páginas para perceber que é um animal em extinção, que resiste em se adaptar a novas condições. Andrade é um extemporâneo, um cara das antigas que sofre com a informalidade, a “promiscuidade” e outros sinais da decadência humana. Por isso, agarra-se a valores tradicionais como quem avança sobre uma bandeja de sanduíches. Aliás, essa fortaleza toda só se derrete diante de comida e da dançarina Suely, que resiste em assumir como namorada. As sessões de canto coral também acalmam seus nervos, bem como longos banhos de banheira, mas Andrade não pode perder tempo: quer descobrir quem matou Rubão…
Embora esteja em Copacabana, Andrade nunca será um delegado Espinosa (García-Roza). Apesar de ser patético em seus desvarios mitômatos, não chega a ser Ed Mort (Luis Fernando Verissimo) ou Diomedes (Lourenço Mutarelli). É notável por sua circunferência abdominal, mas sem a sofisticação de um Nero Wolfe (Rex Stout). O que mais chama a atenção na criatura de Fernando Perdigão é a ausência de concessões. Definitivamente, Andrade não é um sedutor, mas tem um magnetismo que talvez só mesmo Freud explique. É indomável, incorrigível, repugnante. Magicamente, não o abandonamos no meio do caminho. Seguimos ao lado desse trator mesmo com tanto fel destilado. Não estaria aí mais um mistério a ser resolvido?
Autor: Fernando Perdigão
Páginas: 240
Editora: Record
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SINOPSE – O irascível – e enorme – detetive Andrade tem um novo caso pela frente. A pedido de um influente embaixador, ele tem de investigar a morte de Rubens, um belo homem com uma vida amorosa movimentada, pela qual passam homens e mulheres. Com suas controversas técnicas investigativas, Andrade envolve-se nas mais constrangedoras confusões ao lado de sua fiel parceira, a inspetora Lurdes. Nem um pouco politicamente correta, essa dupla de mal-humorados é dona das tiradas mais cômicas da literatura policial. Vítima, suspeitos, colegas de trabalho, ninguém escapa dos comentários ácidos do detetive mais preconceituoso de todos os tempos.
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Jornalista, dramaturgo e professor universitário. Já publicou 12 livros na área acadêmica e escreveu oito peças de teatro. É um dos autores do e-book “Os Maiores Detetives do Mundo” (Chris Lauxx).
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Em seu livro de estreia , Fernando Perdigao constrói seu personagem principal com matiz underground , um feito original , louvável ficcionalmente . Andrade detetive nos arrebata exatamente porque revela , sem meias palavras , sua idiossincrasia sócio-cultural . Todos os personagens do romance de Fernando sao convincentes . Estreia promissora .