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Tua, de Claudia Piñeiro: A vida íntima dos assassinos

Por Rogério Christofoletti – O segredo é essencial para quem quer transgredir. Mais ainda: segredos são essenciais para se cometer crimes. Se o político quer desviar verbas públicas, se o canibal quer devorar a vizinha da frente, se o executivo quer ter um caso com a secretária, todos eles precisarão agir no terreno do oculto e do inaparente. O anonimato funciona como um grosso manto que protege o assassino, a golpista, o ladrão, o corrupto, a traidora. Mas note: o segredo não é condição essencial para cometer o crime, mas permite que o sujeito se mantenha nas sombras e possa voltar a cruzar a fatídica linha, caso precise ou deseje.

Poucas são as situações humanas em que podemos guardar tantos segredos. Sócios fazem isso para se preservar. Amigos, para demonstrar fidelidade… Mas é no casamento que o fator cumplicidade assume formas perigosamente nebulosas. Claudia Piñeiro mostra isso em “Tua”, romance de 2006 que chegou ao Brasil quase dez anos depois.

Nele, a dona-de-casa de classe média alta Inés Pereyra descobre uma infidelidade do marido Ernesto. Por acaso, encontra bilhetes de amor assinados com um singelo “Tua”, escrito com batom. Certa de que homens sempre traem – não importa com quem; é só uma questão de tempo -, Inés passa a puxar o fio de um novelo que vai nos levar a um homicídio. Mas não basta matar. É preciso ocultar o corpo da vítima, e apagar as pistas que ligam crime e assassino. A partir daí, Inés congela o sangue das veias e passa a viver para esconder esse segredo para arquitetar sua vingança. Até onde se pode ir para salvar um casamento? Dividir a cama vale o mesmo que dividir segredos?

 

 

Consagrada na Argentina, Claudia Piñeiro é uma escritora pouco conhecida no Brasil, e além de “Tua”, as estantes locais têm “Betibu” e ponto. Uma pena porque, nas palavras do Corriere della Sera, “Hitchcock é uma mulher que vive em Buenos Aires”…

O painel que ela nos oferece é de uma sociedade saturada de aparências, cuja viga mestra é uma classe média que se alimenta de futilidades e desdenha dos dramas que corroem seus alicerces. Enquanto Inés se preocupa com pistas e vestígios, sua filha adolescente Lali é tragada por um inferno solitário. Ernesto, por sua vez, não enxerga um centímetro além do perímetro de seu umbigo…

As 140 páginas da novela nos custam poucas horas. Levei duas curtas noites para chegar ao ponto final, e quando fechei o livro, a cabeça girava sem parar. Claudia Piñeiro não apenas contou um caso de polícia: ela nos atraiu para dentro daquela família para a sujeira que sustenta seus laços. Guardar esses segredos todos nos faz mais do que testemunhas. Somos cúmplices, agora.
 

Título: Tua
Autora: Claudia Piñeiro
Editora: Verus
Páginas: 140
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SINOPSE – Inés está convencida de que toda mulher, em algum momento, será traída. Assim, não fica tão surpresa quando encontra um bilhete nas coisas de Ernesto, seu marido — um coração desenhado com batom vermelho, escrito “te amo” e assinado “Tua”. Porém, quando Inés percebe que a traição do marido vai muito além do que ela pensava, trama um plano de vingança do qual não haverá volta.

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  • O livro é muito bom, terminei de ler ontem. Muito bem amarrado e cheio de reviravoltas. Um dos melhores policiais que li ultimamente.

    • No Brasil, tem "Betibu" também, mas ainda não lemos. Estamos com o mais recente dela, "Una suerte pequeña", que vamos conferir em breve...

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