Por Rodrigo Padrini – Mergulhar em outra realidade, uma atmosfera estranha até segundos atrás. Suspeitar cada pequeno detalhe e todos os atores de uma peça que começou a ser encenada antes que você chegasse. Você é um estranho aqui, mas está convidado a entrar. É mais ou menos assim que Simenon descreve a primeira fase de uma investigação policial, a mais apaixonante aos olhos do comissário Maigret.
Ao começar a leitura de A gafieira de dois tostões (Companhia das Letras, 2016), tive a impressão de já conhecer aquela história. Já havia sido apresentado a James, Marcel Basso, o Sr. Feistein e o Velho Ulrich. Assim como a Lenoir e Victor Gaillard. E não estou citando nomes apenas para mostrar minha excelente memória.
Pelo contrário, estamos lidando aqui com personagens marcantes, atores de um dos melhores romances de Simenon com o comissário Maigret, entre os que tive oportunidade ler, obviamente. Sou um sujeito ‘esquecido’, apago finais da minha memória e pude fazer uma releitura sem grandes preocupações. Este é um dos melhores finais e dos mais surpreendentes, não há dúvidas.
Com o título original La Guinguette à deux sous, este romance, escrito em 1931 a bordo do navio Ostrogoth onde o autor morou por dois anos, traz elementos suficientes para uma leitura breve e envolvente, sendo uma excelente referência para conhecermos o talento da escrita de Simenon. A belíssima edição da Companhia das Letras mostra o bom trabalho que a editora vem fazendo ao reeditar e publicar os clássicos do comissário Jules Maigret.
Publicado anteriormente no Brasil com o título “A taberna de dois tostões” (L&PM Pocket, 2011), em edição de bolso, o enredo une duas histórias aparentemente desconectadas e leva Maigret a uma investigação pessoal, daquelas em que ele mesmo embarca no trem de madrugada e põe a mão na massa – do jeito que ele gosta, sujando as botas e suando a camisa, ou melhor, o sobretudo.
Muito já foi dito sobre a dimensão humana das investigações do comissário e a ênfase psicológica dada em suas tramas. Aqui temos um bom exemplo. Simenon constrói personagens humanos, simples, crus e factíveis, e, de certa forma, atemporais. O vagabundo aproveitador, o empresário chantageado, a amante esperançosa de um novo futuro, o marido que não cabe em sua própria casa e busca na mesa do bar um cantinho possível para viver.
Simenon sempre renova meu interesse em uma literatura policial que trata de compreender o criminoso, o contexto humano e social do crime, as diversas camadas da sociedade e os seus atravessamentos de poder.
Nada em suas histórias é somente entretenimento. É também reflexão crítica ao modo de convivermos em sociedade e analisar nossa própria existência. Não perca tempo, afinal, este é um belo título para sua biblioteca. Bonito, acessível e excepcional. Para quem se interessar, o livro foi adaptado para um episódio na televisão em outubro de 1975, com o ator Jean Richard interpretando o comissário Maigret. Não achei gratuito por aí. Quem achar, me conta.
(Imagens: Rodrigo Padrini)
Autor: Georges Simenon
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 144
Compre o livro / e-book
SINOPSE – Antes de ser executado, o condenado Jean Lenoir confessa ao comissário Maigret que foi testemunha de um crime seis anos antes – e que acaba de descobrir o paradeiro do assassino: a Gafieira de Dois Tostões, um bar ordinário à margem do rio Sena. Em pleno verão, em meio à insistência de Madame Maigret para que o comissário saia de férias, Maigret segue a pista do condenado e se vê envolvido num emaranhado de intrigas que ainda vai custar um punhado de vítimas.
Share this content:
Psicólogo, mestre e doutorando em Psicologia. Atua no sistema prisional. É músico e leitor assíduo de romances policiais, com aquele lugar especial no coração para Georges Simenon e Raymond Chandler.
Carlos Castelo e o Horror Sutil: Uma Jornada Entre Luz e Trevas Conhecido por seu…
Dan Brown está de volta com um thriller eletrizante! Fãs de mistério, simbologia e reviravoltas…
Prepare-se para mergulhar em histórias enigmáticas que passaram despercebidas, mas que são verdadeiros tesouros…
Estas bibliotecas fascinantes são muito mais do que simples depósitos de livros. Algumas guardam…
Se há algo que desperta o encanto de qualquer amante da literatura, é o…
CENÁRIOS REAIS DA LITERATURA DE SUSPENSE - A literatura de suspense tem o dom…
View Comments
Republicou isso em Mais uma Opinião.