resenha

A Gafieira de Dois Tostões, de Georges Simenon

Por Rodrigo Padrini – Mergulhar em outra realidade, uma atmosfera estranha até segundos atrás. Suspeitar cada pequeno detalhe e todos os atores de uma peça que começou a ser encenada antes que você chegasse. Você é um estranho aqui, mas está convidado a entrar. É mais ou menos assim que Simenon descreve a primeira fase de uma investigação policial, a mais apaixonante aos olhos do comissário Maigret.

Ao começar a leitura de A gafieira de dois tostões (Companhia das Letras, 2016), tive a impressão de já conhecer aquela história. Já havia sido apresentado a James, Marcel Basso, o Sr. Feistein e o Velho Ulrich. Assim como a Lenoir e Victor Gaillard. E não estou citando nomes apenas para mostrar minha excelente memória.

Pelo contrário, estamos lidando aqui com personagens marcantes, atores de um dos melhores romances de Simenon com o comissário Maigret, entre os que tive oportunidade ler, obviamente. Sou um sujeito ‘esquecido’, apago finais da minha memória e pude fazer uma releitura sem grandes preocupações. Este é um dos melhores finais e dos mais surpreendentes, não há dúvidas.

 

[su_quote]“Tudo isso adquiria as proporções do formigueiro de que James havia falado. Um formigueiro em efervescência porque uma formiga tinha morrido!”[/su_quote]

 

Com o título original La Guinguette à deux sous, este romance, escrito em 1931 a bordo do navio Ostrogoth onde o autor morou por dois anos, traz elementos suficientes para uma leitura breve e envolvente, sendo uma excelente referência para conhecermos o talento da escrita de Simenon. A belíssima edição da Companhia das Letras mostra o bom trabalho que a editora vem fazendo ao reeditar e publicar os clássicos do comissário Jules Maigret.

Publicado anteriormente no Brasil com o título “A taberna de dois tostões” (L&PM Pocket, 2011), em edição de bolso, o enredo une duas histórias aparentemente desconectadas e leva Maigret a uma investigação pessoal, daquelas em que ele mesmo embarca no trem de madrugada e põe a mão na massa – do jeito que ele gosta, sujando as botas e suando a camisa, ou melhor, o sobretudo.

 

[su_quote]“Maigret o observava disfarçadamente.- Sabe que, segundo a lei, o senhor poderia ser acusado de cumplicidade?- Tem tanta coisa que a gente pode fazer segundo a lei. Sem contar que ela nem sempre é muito boa.”[/su_quote]

Muito já foi dito sobre a dimensão humana das investigações do comissário e a ênfase psicológica dada em suas tramas. Aqui temos um bom exemplo. Simenon constrói personagens humanos, simples, crus e factíveis, e, de certa forma, atemporais. O vagabundo aproveitador, o empresário chantageado, a amante esperançosa de um novo futuro, o marido que não cabe em sua própria casa e busca na mesa do bar um cantinho possível para viver.

Simenon sempre renova meu interesse em uma literatura policial que trata de compreender o criminoso, o contexto humano e social do crime, as diversas camadas da sociedade e os seus atravessamentos de poder.

 

Nada em suas histórias é somente entretenimento. É também reflexão crítica ao modo de convivermos em sociedade e analisar nossa própria existência. Não perca tempo, afinal, este é um belo título para sua biblioteca. Bonito, acessível e excepcional. Para quem se interessar, o livro foi adaptado para um episódio na televisão em outubro de 1975, com o ator Jean Richard interpretando o comissário Maigret. Não achei gratuito por aí. Quem achar, me conta.

(Imagens: Rodrigo Padrini)

 

Título: A Gafieira de Dois Tostões
Autor: Georges Simenon
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 144
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SINOPSE – Antes de ser executado, o condenado Jean Lenoir confessa ao comissário Maigret que foi testemunha de um crime seis anos antes – e que acaba de descobrir o paradeiro do assassino: a Gafieira de Dois Tostões, um bar ordinário à margem do rio Sena. Em pleno verão, em meio à insistência de Madame Maigret para que o comissário saia de férias, Maigret segue a pista do condenado e se vê envolvido num emaranhado de intrigas que ainda vai custar um punhado de vítimas.

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