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A casa no morro e Jamais o inexistente sorriso, de Olivia Maia

Por Josué de Oliveira – Nos últimos dez anos, a autora também lançou três romances e uma novela. Começou com Desumano, pela editora Brasiliense, em 2006. Então veio Operação P-2, no ano seguinte, pelo selo independente Os Viralata, e posteriormente relançado em edição da própria autora. Em 2010 veio Segunda mão, também independente, e A última expedição, em 2013, pela Draco.

Todos estes trabalhos caminham no terreno da literatura policial, gênero do qual Olivia Maia é uma das boas (e, infelizmente, poucas) representantes brasileiras.

Os dois contos supracitados já haviam sido lançados em edição própria e estavam esgotados, mas agora ganharam versões digitais pela Draco. São ambos boas portas de entrada para a literatura da autora: tramas policiais urbanas e duras com muito de trabalho policial propriamente dito.

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A casa no morro

Um assassinato na porta de um bar leva os investigadores Pedro e Iuri a uma casa abandonada em Caieras, onde deparam com uma história muito mal contada sobre uma pistola da 2ª guerra mundial.

O conto é narrado por Pedro, que também protagoniza Segunda mão. O investigador é um homem prático, sem muita paciência para conversa mole. Seu parceiro, Iuri, é mais circunspecto e só xinga em alemão. Os dois têm nas mãos um caso que parece simples — afinal, a identidade do culpado é praticamente certa –, mas se revela mais complexo do que imaginaram.

Chamam a atenção a linguagem enxuta, seca com que a autora constrói a narrativa, bem como a boa ambientação — sobretudo nos momentos em que Pedro descreve a ruína que encontra em Caieiras (o silêncio, a poeira). Há uma boa dose de tensão à medida que a trama se expande e os investigadores começam a se perguntar se a coisa é tão simples como supunham. O desfecho, apesar de previsível, é satisfatório o suficiente para finalizar bem todo o desenvolvimento. Gostaria de mais um romance com Pedro.

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Jamais o inexistente sorriso

A primeira investigação do delegado Daniel começa numa rua sem saída: uma moça sem nome e sem passado internada na ala psiquiátrica de um hospital. Intrigado, Daniel sente-se obrigado a buscar uma resposta nos submundos da cidade, sem se dar conta de que sua própria vida pode também estar em risco.

Daniel, protagonista-narrador deste conto, também aparece em Segunda mão. Apesar do pouco tempo no cargo — apenas seis meses –, o delegado já viu o suficiente para saber que precisará de estômago para prosseguir. Ao mesmo tempo, sente-se impotente por não poder fazer o bastante. A autora explora bem essa insatisfação de Daniel, de modo que suas motivações para investigar a identidade da misteriosa garota que surge drogada na delegacia — para em seguida desmaiar, balbuciando coisas incompreensíveis — jamais soa absurda. É a história de um homem contra o mundo, tentando obter a força algum tipo de justiça, ou o que mais se aproxime disso.

O final é como tudo no conto: cru, pesado, reforçando a impressão de que o mundo contra o qual Daniel lutou é um adversário sujo e cruel.

Ficam essas duas breves (e baratas: ambos custam apenas R$ 3,99) sugestões de uma autora nacional que vale a pena conhecer.

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(Imagem: site Oficial Olivia Maia)

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