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Maigret entre os Flamengos, de Georges Simenon

Por Rodrigo Padrini – Não se espante. Maigret é assim mesmo, entra na sua casa, senta à mesa, aceita uma bebida e fica para o jantar. Para quem acompanha a série de romances com o Comissário Maigret escrita pelo belga Georges Simenon, a dimensão pessoal de suas investigações já não assusta. Nem a sua informalidade ou caráter intuitivo. Ele vai chegando e incomodando. São os seus modos.

“Maigret Entre os Flamengos” (Companhia das Letras, 2016) é mais uma das novas edições da Companhia, que vem nos brindando desde 2013 com títulos esteticamente belos e encorpados, protagonizados por um dos detetives mais famosos da literatura policial. Já comentei sobre outras publicações no site e sobre o próprio personagem, mas volto a dizer que tenho curtido bastante a iniciativa da editora.

O mistério dessa vez se passa em Givet, uma comuna francesa próximo à fronteira com a Bélgica, aparentemente no início da década de 30 do século XX – o romance foi publicado originalmente em março de 1932. Assim como em outras ocasiões, o comissário resolve deixar a sua casa, a sua esposa e o seu escritório para passar alguns dias em outra localidade, adotando uma de suas formas preferidas de trabalhar: a imersão em uma determinada realidade.

 

“Era mais que amor, era fervor que havia em seu tom. Estava transfigurada. Não ousava se sentar novamente. Prendendo a respiração, esperava, de modo que tudo sugeria se tratar de uma espécie de super-homem que ia aparecer”.

 

Após ser requisitado pela jovem Anna Peeters, que pede a sua ajuda para que não cometam uma injustiça contra a sua família, Maigret recebe um telegrama do comissário da polícia de Nancy que termina por instigar a sua curiosidade. Sem levar um terno sobressalente, Maigret desembarca em Givet, onde pretende inebriar-se de todos os afetos, informações e contradições possíveis, até que consiga solucionar o mistério para o qual foi convocado.

Li este romance rapidamente. A narrativa é ágil e Simenon consegue, como na maioria das aventuras com o comissário Maigret, atiçar nossa curiosidade e revelar um desfecho surpreendente, que brinca também com o nosso conceito de justiça. O responsável por traduzir e transmitir a bela narrativa de Simenon é André Telles, encarregado da tradução também de outros oito títulos já publicados com o comissário nesta nova remessa de edições da Companhia.
 

 

A utilização de alguns vínculos familiares em alguns trechos por Simenon – sobrinho de ciclano, prima de fulano – em detrimento da utilização de nomes, gera breves momentos de confusão numa leitura menos atenciosa ou com intervalos regulares. Recomendo ler em uma ou duas sentadas. Porém, nada que afete o desenvolvimento da história e não possa ser solucionado com algumas retomadas em páginas anteriores.

No Brasil, o termo “flamengo” pode gerar piadinhas futebolísticas silenciosas ou remeter ainda àquelas aves rosa de pescoço comprido – os flamingos -, mas não se confunda. Os “flamengos” se referem historicamente a um determinado grupo de habitantes de uma região no norte da Bélgica. Literatura policial também é cultura.

O impacto dos acontecimentos e sua dramaticidade são muito característicos da época em que se passa a história, e aprofundar-se na leitura buscando compreender o contexto em que a trama se desenrola pode tornar sua experiência ainda mais interessante. Simenon é implacável, mais uma vez. Uma história curta, profunda e marcante. Leia sem moderação.

(Fotos: Rodrigo Padrini)

 

Título: Maigret Entre os Flamengos (Original: Chez les Flamands)
Autor: Georges Simenon
Editora: Companhia das Letras
Tradução: André Telles
Páginas: 136

SINOPSE – O comissário Maigret recebe um chamado de uma mulher desesperada para esclarecer um caso de assassinato envolvendo sua família. Levado à chuvosa cidade de Givet, na fronteira com a Bélgica, ele precisará solucionar um fascinante mistério. Contudo, tanto a respeitável loja da família quanto a sonolenta comunidade e até o ruidoso rio que atravessa o vilarejo escondem segredos que ele não tardará a descobrir.

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