Por Rogério Christofoletti – Coletâneas de contos policiais oferecem ótimas oportunidades não apenas para ler narrativas curtas e mortais, mas também para conhecer novos e necessários autores. Neste sentido, “Crimes Fantásticos” atende aos dois desejos. Recém-lançado pela pequena e valente Argonautas, de Porto Alegre, o livro traz meia dúzia de histórias numa amostra diversa e levemente experimental.
Em formato de bolso, com miolo de papel barato e amarelado, e deliberada estética pulp, “Crimes Fantásticos” honra uma tradição ancestral, a das revistas norte-americanas que reuniam a nata dos autores do gênero, como Raymond Chandler e Dashiell Hammett. Neste sentido, é literatura para rápido consumo, para diversão e leve fruição.
Mas se engana quem pensa que ser despretensioso é não ter qualidade editorial. O comum, o mundano, o ordinário são os atributos mais genuínos e verdadeiros de publicações como essa, caprichosamente embalados em narrativas respingadas de sangue, trapaça e traição.
Além da intrigante ilustração da capa de Eduardo Monteiro, “Crimes Fantásticos” vem com outros dois preciosos bônus: o conto de abertura do papa do pulp brasileiro R.F. Lucchetti e um prefácio de Marco Aurélio Lucchetti, dando uma aula sobre a função e a importância das revistas pulp para os gêneros criminais.
A partir disso, desfilam pelas pouco mais de cem páginas cinco autores que se nutrem de crimes para perambular por vários gêneros literários.
Cesar Alcázar, por exemplo, nos leva à década de trinta com gângsteres, jogo ilegal, contrabando de bebida e tensões raciais. “Meu velho Kentucky blues” nos faz mergulhar tão fundo na atmosfera que a gente duvida que o autor sequer tenha 40 anos. Ou ele viveu naquele tempo ou fez um ótimo trabalho de pesquisa de adereços, gírias e ambientação. Claro que caminhamos lado a lado com a marginália e isso nos deixa até à vontade…
Em “Imagem inversa”, a escritora Nikelen Witter nos apresenta uma protagonista incomum: uma inspetora de polícia com uma anomalia na visão que a faz enxergar tudo ao contrário. Perturbada e incompreendida, Marielena é convocada às pressas para determinar as circunstâncias de um crime arrepiante. Afinal, seus olhos captam o que ninguém consegue ver…
Bem menos tensa é a história de Christopher Kastensmidt, “As águias de dois e meio”. Nele, e de forma divertida, somos atraídos para um faroeste onde não se deve confiar em ninguém. Tropeçamos em moedas de ouro raras e num vaqueiro caipirão, e viajamos inevitavelmente como “Em de volta para o futuro”… Se você é fã de Marty McFly, afivele o cinto.
O clima volta a pesar em “Mortos insepultos”, de Mariana Portella. O mistério que a autora propõe é instigante, mas sua resolução é apressada e as motivações que conduzem a protagonista não são convincentes. Uma pena, já que sete cadáveres roubados ao mesmo tempo de um cemitério judaico e substituídos por outros mortos renderiam uma história de gelar o sangue…
Fecha o livro “Abductor”, de Duda Falcão. Nele, mais uma detetive entra em cena. É a terceira no livro! Várias crianças passam a desaparecer em Porto Alegre e sinais espalhados pela cidade levam a acreditar na existência de um criminoso em série. Entretanto, tudo o que é ruim pode piorar. Quem conhece o autor sabe que ele navega por águas sobrenaturais. Por que, então, numa história de crime as coisas teriam menos terror?
“Crimes Fantásticos” é rico no potencial de exploração desses jovens e necessários autores de gênero do Rio Grande do Sul. Seria muito bom ver outras editoras, maiores e nem tão grandes, investirem em coletâneas do tipo, encharcando as livrarias com essa literatura barata e divertida, rápida e rasteira. Seria muito bom esbarrar em facínoras e mulheres fatais, em crimes aparentemente insolúveis e em detetives irremediáveis. Assim, nosso medo e horror ficariam confinados naquelas páginas de papel barato…
(Imagem: Rogério Christofoletti)
Autor: Vários autores
Editora: Argonautas
Páginas: 128
SINOPSE – Em Crimes Fantásticos, seis autores renomados da literatura de gênero brasileira, incluindo o lendário R. F. Luchetti, nosso Papa do Pulp, oferecem uma seleção de histórias escabrosas, recheadas de violência e mistério.
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Jornalista, dramaturgo e professor universitário. Já publicou 12 livros na área acadêmica e escreveu oito peças de teatro. É um dos autores do e-book “Os Maiores Detetives do Mundo” (Chris Lauxx).
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Procurei o livro na Editora Argonautas, lá não conta. Vocês se anteciparam ao lançamento?
Oi Ivan. Não, o livro foi lançado este mês. Você pode comprar entrando em contato com o Cesar Alcázar, um dos editores da Argonautas: https://www.facebook.com/cesar.alcazar.12