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Canção de Ninar, de Leila Slimani, é um livro que não permite respostas fáceis

 

Por Leila Gonçalves – Vencedor do Prix Goncourt em 2016, “Canção de Ninar” é o segundo livro de minha xará, Leila Slimeni, uma marroquina de 38 anos, radicada em Paris desde os 17. Considerada uma revelação, ela já confirmou presença na próxima edição da FLIP onde será lançado seu romance de estreia.

Tamanho sucesso acabou despertando meu interesse, resolvi ler “Chaison Duce”, título original, e não me decepcionei com o resultado. Em linhas gerais, esta é a história de Louise, uma babá aparentemente perfeita, que mata Mila e Adam, dois irmãos sob seus cuidados, e, em seguida, tenta o suicídio.

Esta informação não se trata de um spoiler, à medida que é apresentada logo na abertura, colocando em foco os motivos que levaram esta mulher a provocar tamanha tragédia.

Eviscerando o aspecto psicológico das personagens e a simbiótica relação entre patrão e empregado, o romance apresenta um irretocável retrato da classe média francesa, mas seu cenário poderia não ser Paris mas qualquer grande cidade ao redor do mundo. Inclusive, Slimeni emprestou alguns detalhes de um caso verídico, envolvendo a babá Yoselyn Ortega, ocorrido há seis anos, em Nova York.

 

“O bebê está morto. Bastaram alguns segundos. O médico assegurou que ele não tinha sofrido. Estenderam-no em uma capa cinza e fecharam o zíper sobre o corpo desarticulado que boiava em meio aos brinquedos. A menina, por sua vez, ainda estava viva quando o socorro chegou. Resistiu como uma fera. Encontraram marcas de luta, pedaços de pele sob as unhas molinhas. Na ambulância que a transportava ao hospital ela estava agitada, tomada por convulsões. Com os olhos esbugalhados, parecia procurar o ar. Sua garganta estava cheia de sangue. Os pulmões estavam perfurados e a cabeça tinha batido com violência contra a cômoda azul.”

 

Um aspecto interessante é a escrita incisiva da escritora que consegue prender o leitor da primeira à última página. Para tanto, ela utiliza flash-backs e uma polifonia de narradores com informações indispensáveis para a construção da trama, por exemplo, Jacques e Stephanie, respectivamente, o falecido marido e a filha desaparecida de Louise.

Sem dúvida, ela é uma protagonista intrigante. Triste e solitária, dedica a maior parte de seu tempo não só como babá; ela também cozinha, limpa, passa, consegue deixar impecável o apartamento onde trabalha, sem ganhar um centavo a mais por isto. Qual o motivo de tamanha dedicação?

 

Já Paul e Myriam, os pais das crianças, estão focados na ascensão profissional e, acomodados com a eficiência de Louise, não conseguem dimensionar a gravidade da situação. Será que eles também podem ser responsabilizados pela tragédia?

Enfim, “Canção de Ninar” é um livro que não permite respostas fáceis. Se você procura entretenimento, esqueça. Perturbador e polêmico, é impossível sair ileso de suas 204 páginas.

Nota: Adquiri o e-book na Amazon que, com índice ativo completo, atendeu minhas expectativas.

 

SOBRE O LIVRO

Título: Canção de Ninar
Autora: Leila Slimani
Páginas: 192
Editora: Tusquets
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SINOPSE – Apesar da relutância do marido, Myriam, mãe de duas crianças pequenas, decide voltar a trabalhar em um escritório de advocacia. O casal inicia uma seleção rigorosa em busca da babá perfeita e fica encantado ao encontrar Louise: discreta, educada e dedicada, ela se dá bem com as crianças, mantém a casa sempre limpa e não reclama quando precisa ficar até tarde. Aos poucos, no entanto, a relação de dependência mútua entre a família e Louise dá origem a pequenas frustrações – até o dia em que ocorre uma tragédia. Com uma tensão crescente construída desde as primeiras linhas, Canção de ninar trata de questões que revelam a essência de nossos tempos, abordando as relações de poder, os preconceitos de classe e entre culturas, o papel da mulher na sociedade e as cobranças envolvendo a maternidade. Publicado em mais de 30 países e com mais de 600 mil exemplares vendidos na França, Canção de ninar fez de Leïla Slimani a primeira autora de origem marroquina a vencer o Goncourt, o mais prestigioso prêmio literário francês. “A tensão latente em cada página aquece aos poucos a análise da burguesia, até ser dinamitada por um impulso de violência instintiva.” Stéphanie Dupays e Eric Loret, Le Monde.

 

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