Por Rogério Christofoletti – Em 2089, o mundo não é muito diferente do nosso: há multidões de miseráveis, a polícia produz massacres, as cidades são sujas e caóticas, e a maioria das pessoas age como zumbis na frente das telas. Em 2089, o mundo é bem diferente do nosso: os mares se apossaram do planeta, a chuva é ácida pra valer e Tóquio – vejam só! – é um paraíso da natureza, sem eletricidade ou alta tecnologia.
É por essa paisagem acidentada que acompanhamos a dupla Led Dent e Debbie Decay, delegados que deveriam colocar as coisas em ordem, mas que deixaram os contornos da lei há muito tempo. Led é um bombadão superviolento, ultra-dependente de tecnologia, um Ranxerox com a cara do Wolverine e o palavreado de Hell-Boy. Ele acelera sua poderosa moto, atropelando facínoras, cobrando dívidas de gângsteres e tendo na garupa a aparentemente inofensiva Debbie. Ela é sua amante, sua parceira, uma amiga que desde a infância se mostrou valente e casca-grossa, apesar do rosto angelical e da cascata de cabelos prateados. De olho nesses dois, vivemos uma viagem lisérgica, violenta e tecno-confusa. O nosso passaporte é “Tokyo Ghost”, uma graphic novel da DarkSide Books com ritmo alucinante, farta pancadaria e rios de sangue.
Com roteiro de Rick Remender, desenhos frenéticos de Sean Murphy e cores vibrantes de Matt Hollingsworth, “Tokyo Ghost” aciona gatilhos de memória de leitores mais experientes de quadrinhos, mangás e ficção científica. Para um ancião como eu, foi uma torrente de referências. O start é vertiginoso como em “Neuromancer” ou “Johnny Mnemonic”, ambos de William Gibson, com cargas avassaladoras de informação sobre o contexto social de época, no melhor estilo de Philip K. Dick.
A ambientação bebe nas melhores fontes do cyberpunk, e recorre a elementos comuns de “Akira”, só que com menos gritos! Estão ali a velocidade do traço e das ações, as consequências nefastas da energia nuclear e um sujeito irado sobre uma moto… Há samurais evocando um neo-bushidô, animais fofinhos nos ombros de nossos heróis, e katanas com fios que cortam até pensamentos. Há uma heroína de cabelos longos degolando homens abjetos como em “Kill Bill” e dando golpes acrobáticos como em “Ghost in the shell”.
“Tokyo Ghost” é forte e pulsante, mas não chega a ser nenhum “Ronin”, embora sua paleta de cores dialogue com a mítica série assinada por Frank Miller em 1983-84. Há um desfile de personagens histriônicos, e o vilão parece uma simbiose de “Exterminador do Futuro” e o Coringa de “Piada Mortal”. Assim, a quantidade de referências ajuda a erguer um edifício que se mantém em pé e consolida alguma exuberância. Para os mais velhos, a graphic novel presta tributos importantes; para os mais jovens, oferece uma amostra do que colhemos de melhor há quarenta anos.
Em 2089, imagino que o adjetivo “distópico” já nem exista mais, de tanto que foi utilizado no começo do século. Por isso, evitarei usar esse rótulo em “Tokyo Ghost”. O que temos em mãos é uma história de ação que esconde o tema da busca pessoal. Neste sentido, a obra é muito fiel à tradição das artes marciais e à filosofia oriental. As sequências de luta são vigorosas e impõem à narrativa algumas camadas que podem turvar a vista do leitor. É ação, sim!, e tem até algum romance, é verdade. Mas não se engane: a violência expressa os conflitos internos de Led e Debbie.
Assombrado pelo que considera fragilidade física, Led tenta soterrar seus sentimentos com doses cavalares de adrenalina e drogas tecnológicas. Mal percebe o quanto é oprimido por um imaginário machista e paternalista. Debbie, por sua vez e ao seu jeito, persegue um horizonte que se distancia a cada passo que dá, o da autonomia. Afinal, é possível ser feliz sozinha?
Ao fim e ao cabo, nossos heróis são humanamente imperfeitos, incompletos, claudicantes como bêbados nas madrugadas. Apelar para a violência não é uma forma de fazer justiça ou de restituir o equilíbrio. Talvez seja só uma maneira espetacular de desprender as carapaças para se autoconhecer e encontrar a paz interior.
Título: Tokyo Ghost
Autores: Rick Remender (Autor), Sean Murphy (Ilustrador), Matt Hollingsworth (Inker)
Tradução: Érico Assis
Páginas: 272
Editora: Darkside Books
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SINOPSE – Ilhas de Los Angeles, 2089. O planeta foi tomado pelos oceanos, mas a água é tão poluída que dissolve a pele. A humanidade está viciada em tecnologia em níveis inimagináveis, mesmo para os tempos em que vivemos hoje. A grande maioria, desempregada e famélica, vive em busca da alienação e um pouco de paz que o “barato” digital proporciona. Mesmo que para isso os tecnoiados precisem roubar e matar. Todo mundo anda ocupado em evitar a realidade, enfurnado nos antros do ópio eletrônico, cujo monopólio está nas mãos de gângsteres comandados pelo famigerado Flak. E como em todo comércio que envolve viciados, os problemas não são poucos. Para enquadrar os tecnoiados, cobrar dívidas e eliminar aqueles que incomodam além da conta, Flak e seus adeptos recorrem à dupla de delegados Led Dent e Debbie Decay, assassinos cruéis. Debbie, porém, nunca se rendeu ao vício digital, exceção das exceções, uma autêntica zero-tec. A dupla está prestes a cumprir uma missão longe da miserável Los Angeles. O objetivo: derrubar o último país que ainda não se rendeu ao mundo uberconectado, os Jardins Verdejantes de Tóquio.
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Jornalista, dramaturgo e professor universitário. Já publicou 12 livros na área acadêmica e escreveu oito peças de teatro. É um dos autores do e-book “Os Maiores Detetives do Mundo” (Chris Lauxx).
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