Londres, inverno de 1816. A cidade amanhecia envolta em neblina espessa, misturada ao cheiro de carvão queimado e de corpos humanos amontoados em hospitais, prisões e casas insalubres. A Europa saía cambaleante das Guerras Napoleônicas, e a Inglaterra vivia uma contradição típica do início do século XIX: progresso científico acelerado de um lado, miséria urbana e mortalidade precoce do outro. Foi nesse mundo — concreto, violento e profundamente desigual — que Mary Wollstonecraft Shelley, então com 18 anos, começou a imaginar a história que viria a se chamar Frankenstein; ou, o Prometeu Moderno.
Mary Shelley não escrevia no vácuo. Filha da filósofa feminista Mary Wollstonecraft e do pensador político William Godwin, cresceu cercada por debates científicos, médicos e filosóficos. Seu círculo incluía poetas, médicos e intelectuais fascinados por uma pergunta central do período: o que, afinal, faz um corpo viver?
À época em que Frankenstein começou a tomar forma, a medicina europeia estava em transição. O corpo humano já havia sido mapeado com relativa precisão anatômica. Desde o século XVI, com Andreas Vesalius, sabia-se onde estavam ossos, músculos, nervos e órgãos. No início do século XIX, estudantes de medicina aprendiam anatomia por meio de dissecações — muitas delas obtidas de forma ilegal.
Na Inglaterra, o Murder Act de 1752 permitia que corpos de criminosos executados fossem entregues às escolas médicas para dissecação pública. A prática tinha um duplo objetivo: científico e punitivo. O cadáver dissecado simbolizava a humilhação final do condenado. Mas o número de corpos legais era insuficiente. Surgiu então uma figura sinistra, porém comum: o resurrection man, o ladrão de cadáveres, que violava cemitérios para abastecer as salas de aula.
A medicina conhecia o corpo morto com precisão crescente. O corpo vivo, porém, ainda era um enigma.
x
O grande debate médico da época girava em torno do vitalismo — a ideia de que a vida dependia de uma força especial, diferente de processos puramente mecânicos ou químicos. Muitos médicos acreditavam que essa força poderia ser estimulada, transferida ou até reativada.
Entre eles estava Luigi Galvani (1737–1798), médico e físico italiano, cujos experimentos com pernas de rãs mostravam contrações musculares quando submetidas a estímulos elétricos. Galvani acreditava ter descoberto a “eletricidade animal”. Seu sobrinho, Giovanni Aldini, levou essa ideia ainda mais longe.
Luigi Galvani
Em 1803, Aldini realizou demonstrações públicas em Londres utilizando o corpo do criminoso executado George Forster, 26 anos, condenado por afogamento. Diante de médicos, juristas e curiosos, Aldini aplicou correntes elétricas no cadáver. O rosto contraiu-se. Um olho se abriu. O braço se moveu. Relatos da época afirmam que parte do público acreditou estar testemunhando uma ressurreição.
Tecnicamente, não era vida. Era excitabilidade neuromuscular residual. Mas, para um público que mal compreendia o sistema nervoso, a fronteira parecia perigosamente tênue.
Mary Shelley conhecia essas experiências. Elas circulavam em jornais, palestras e conversas privadas. Seu marido, Percy Bysshe Shelley, lia tratados científicos; o médico John Polidori, presente na famosa temporada na Villa Diodati, tinha formação em medicina. Frankenstein nasce desse caldo intelectual, não da fantasia pura.
x
Apesar do fascínio, a medicina ignorava aspectos fundamentais. Não se conhecia a função dos microrganismos. A teoria germinal das doenças só seria consolidada décadas depois, com Pasteur. Infecções eram atribuídas a “miasmas” — vapores nocivos do ar. Cirurgias ainda eram feitas sem anestesia eficaz (o éter só entraria em uso nos anos 1840). A taxa de mortalidade hospitalar era altíssima.
O cérebro, embora estudado anatomicamente, era um mistério funcional. Emoções, consciência e memória não tinham explicação científica. A morte era diagnosticada por sinais falhos: ausência de respiração visível ou pulso perceptível. Casos de enterros prematuros eram relatados com frequência suficiente para gerar pânico social e projetos de “caixões de segurança”.
Ou seja: a medicina sabia desmontar o corpo, mas não compreendia plenamente como ele se tornava humano.
x
Victor Frankenstein, na obra, não é um mágico. Ele é um estudante de ciências naturais, formado em anatomia, química e filosofia natural — termos reais do currículo da época. Sua obsessão não é criar matéria, mas reanimar matéria morta. Shelley nunca descreve o método com detalhes técnicos, o que é significativo: ela escreve exatamente no ponto onde a ciência real parava.
O romance reflete uma época em que médicos começavam a ocupar o lugar antes reservado a Deus e à Igreja: o de árbitros da vida e da morte. Mas faz isso com uma advertência clara. O problema não é o conhecimento em si, e sim a ausência de responsabilidade ética.
x
Poucas décadas depois, a realidade alcançaria a ficção de forma brutal. Em 1828, os assassinatos de William Burke e William Hare, em Edimburgo, expuseram o tráfico de corpos para escolas médicas. O escândalo levou ao Anatomy Act de 1832, que regulamentou a dissecação de corpos não reclamados — em geral, os dos pobres.
A ciência avançou. A anestesia surgiu. A bacteriologia revolucionou a medicina. Hoje transplantamos órgãos, manipulamos genes e mantemos corpos vivos por aparelhos. Mas a pergunta central de Frankenstein permanece desconfortavelmente atual: quem decide até onde ir?
x
Mary Shelley escreveu Frankenstein antes dos 20 anos, observando uma ciência que avançava mais rápido do que sua capacidade moral. Dois séculos depois, seguimos celebrando o progresso técnico enquanto lidamos, tardiamente, com suas consequências humanas.
Talvez a ironia mais cruel seja esta: a medicina do século XIX não sabia como criar vida — mas sabia perfeitamente quem podia ser sacrificado em nome do saber. E, olhando para desigualdades no acesso à saúde, experimentos antiéticos e decisões tomadas longe dos mais vulneráveis, a pergunta final se impõe, incômoda e necessária:
Aprendemos mesmo a diferença entre conhecer o corpo e respeitar o humano — ou apenas refinamos os instrumentos?
Frankenstein, de Mary Shelley, narra a história de Victor Frankenstein, um jovem cientista obcecado em criar vida a partir da matéria morta. Sua experiência dá origem a uma criatura consciente, sensível e rejeitada, que passa a confrontar o criador. O romance explora ciência, ética, responsabilidade e os limites da ambição humana, tornando-se um marco do terror gótico e da ficção científica moderna.
x
* Texto e imagens desenvolvidos com o apoio de ferramentas de inteligência artificial.
Share this content:
Ana Paula Laux é jornalista e trabalha com curadoria de informação, gestão de mídias sociais e criação de conteúdo digital. Em 2014, lançou o e-book “Os Maiores Detetives do Mundo” (Chris Lauxx). Contato: analaux@gmail.com
Poucos personagens da literatura atravessaram tantas gerações quanto Sherlock Holmes. Criado por Arthur Conan Doyle…
Todo mundo já ouviu alguma versão dessa história: um livro é rejeitado por várias editoras…
Sabe quando você olha um perfil nas redes sociais e pensa: “ninguém pode ser tão…
Confira as dicas de lançamentos de suspense e mistério para março no Literatura Policial. LEIA…
Quando pensamos em Sherlock Holmes, é quase impossível não imaginar uma Londres coberta por neblina,…
Quando pensamos na era vitoriana, é comum imaginar salões silenciosos, moral rígida, chá da tarde…