Existem livros que chegam até nós embalados por elogios quase unânimes. Recomendações em redes sociais, comentários empolgados, promessas de uma leitura “assustadora” e impossível de largar.
Nós Já Moramos Aqui, de Marcus Kliewer, é exatamente esse tipo de livro. Depois de ouvir tanto que ele era maravilhoso, finalmente mergulhei na leitura, mas a experiência ficou bem longe do que eu esperava.
Isso não significa que o livro seja ruim, mas significa que ele não funciona para todo tipo de leitor. E é justamente sobre isso que esta crítica se propõe a falar: menos sobre consenso e mais sobre perfil de leitura, expectativas e escolhas narrativas.
⚠️ Aviso de spoilers: alguns pontos importantes da trama e da construção da história serão comentados ao longo do texto.
A história acompanha Charlie e Eve, um casal que ganha a vida comprando casas antigas, reformando e revendendo com lucro. Quando as duas encontram uma propriedade antiga em uma vizinhança isolada no interior do Oregon, tudo parece perfeito demais para ser verdade.
A casa é grande, charmosa, cheia de potencial. O tipo de lugar que parece guardar histórias e segredos.
Durante os preparativos para a reforma, Eve está sozinha quando alguém bate à porta. Um homem, acompanhado da esposa e dos três filhos, afirma ter morado ali décadas atrás e pede permissão para mostrar a casa às crianças. Incapaz de dizer não, Eve permite a entrada.
É a partir desse momento que a narrativa começa a escorregar para algo inquietante.
A visita se prolonga. As pessoas parecem não perceber que já passaram dos limites. Coisas estranhas começam a acontecer: a filha mais nova da família desaparece, há uma aparição fantasmagórica no porão, e a sensação de que o tempo está se comportando de forma errada se intensifica. Quando Charlie some repentinamente, Eve começa a perder qualquer referência sólida da realidade.
A grande pergunta passa a ser: tem algo errado com aquela casa e aquela família ou Eve está enlouquecendo?
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Esse é o ponto central. Nós Já Moramos Aqui é um livro que funciona muito bem para um tipo específico de leitor, e pode ser profundamente frustrante para outro.
Se você gosta de histórias que:
Não explicam tudo claramente
Deixam pontas soltas
Apostam em finais abertos
Estimulam teorias, interpretações e leituras simbólicas
… este livro provavelmente vai funcionar para você.
A narrativa convida o leitor a juntar pistas espalhadas ao longo da leitura. Nada vem mastigado. O desconforto não está apenas nos acontecimentos, mas na falta de respostas objetivas.
Agora, se você é do time que prefere:
Coerência bem amarrada
Regras claras do universo da história
Respostas no final
Revelações concretas
… a leitura pode ser um exercício de paciência. Esse é o meu caso.
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Um dos maiores problemas do livro é o ritmo. A história avança lentamente, com muitas descrições e pouco diálogo, o que contribui para uma sensação constante de arrasto.
Há trechos inteiros em que não fica claro o que exatamente está acontecendo. Não no sentido proposital do mistério bem construído, mas em uma nebulosidade que cansa.
Se você já se incomoda com narrativas excessivamente descritivas, este livro vai exigir esforço.
Esse estilo pode até funcionar para criar atmosfera, mas aqui ele frequentemente prejudica o envolvimento emocional com os personagens e com os eventos.
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Ao longo da leitura, fica cada vez mais forte a sensação de que a história flerta com:
Universos paralelos
Portais temporais
Realidades sobrepostas
Minha teoria pessoal, ainda na metade do livro, era de que alguns personagens transitam entre tempos ou dimensões diferentes. Essa ideia nunca é confirmada de forma clara, e talvez nem devesse ser.
O problema é que o livro aposta tanto na ambiguidade que corre o risco de afastar quem busca algum tipo de ancoragem narrativa.
Para leitores que gostam de histórias mais místicas, fantásticas ou conspiratórias, esse pode ser justamente o maior atrativo.
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Apesar de ser vendido como um livro assustador, Nós Já Moramos Aqui está longe de ser um dos títulos mais perturbadores do gênero.
Discordo, inclusive, de comparações feitas por autores como Freida McFadden. O medo aqui é mais psicológico e atmosférico do que visceral. Ele nasce da estranheza, da repetição e da dúvida, não do choque.
Se você entra esperando terror intenso, pode se frustrar.
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Depois de terminar a leitura, ficou claro por que este livro gera reações tão extremas. Há leitores que amam, e há leitores que odeiam.
Não porque ele seja radicalmente inovador, mas porque ele exige um tipo específico de disposição do leitor.
Não há consenso, e talvez nunca devesse haver.
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Depende exclusivamente do seu perfil.
👉 Se você gosta de histórias abertas, simbólicas, cheias de interpretações possíveis, este livro pode render boas discussões e teorias.
👉 Se você prefere narrativas mais objetivas, com começo, meio e fim bem definidos, talvez seja melhor ajustar as expectativas.
Se quiser conferir por conta própria, você pode encontrar o livro aqui:
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Nós Já Moramos Aqui não é um livro ruim, mas também não é universal. Ele se apoia em ambiguidade, atmosfera e desconforto psicológico e cobra um preço alto do leitor que espera respostas.
Talvez o maior erro seja vendê-lo como algo que ele não é: um terror tradicional ou uma história que se explica sozinha.
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Ana Paula Laux é jornalista e trabalha com curadoria de informação, gestão de mídias sociais e criação de conteúdo digital. Em 2014, lançou o e-book “Os Maiores Detetives do Mundo” (Chris Lauxx). Contato: analaux@gmail.com
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