clube do crime

Os filhos da noite, de Dennis Lehane


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POR JOSUÉ DE OLIVEIRA – No parágrafo de abertura de Os filhos da noite (Companhia das Letras, 480 páginas, R$ 49,50), um homem espera pelo momento em que será lançado ao mar. Seus pés foram mergulhados numa banheira cheia de cimento. Este homem, às portas de uma morte terrível, é Joe Coughlin, protagonista deste nono romance de Dennis Lehane – e, se a perspectiva de um destino tão horrendo (imaginem: ser jogado no mar com os pés mergulhados numa BANHEIRA CHEIA DE CIMENTO) não é o suficiente para capturar a atenção do leitor, eu sinceramente não sei o que é.

Lehane, autor da série Kenzie/Gennaro – histórias de detetive que dialogam com a tradição hardboiled dos mestres do romance policial norte-americano – e dos avulsos Sobre meninos e lobos e Paciente 67 – que ganharam elogiadas adaptações cinematográficas – entra dessa vez no mundo dos gangsters na era da Lei Seca. A trama segue Joe Coughlin, filho fora-da-lei de um proeminente capitão da polícia de Boston, em sua ascensão dentro do crime organizado, dos pequenos assaltos a bares clandestinos em sua cidade natal aos altos escalões da máfia em Tampa, na Flórida.

Os filhos da noite é, antes de tudo e essencialmente, a história de Joe. É através dos olhos dele que vamos acompanhando o desenrolar dos acontecimentos – assaltos a banco, guerras entre chefões do crime, os meandros do tráfico de bebidas – e, pouco a pouco, tomando conhecimento desse mundo paralelo que se descortina bem longe das vistas dos homens de bem. Um mundo que pulsa sob o manto da noite.

Desde o início da narrativa, Joe está acostumado com essa vida noturna (esse conceito está presente no título original da obra, Live by night). É a vida que ele sempre almejou para si: longe de preocupações mundanas com as contas do mês, a hipoteca, a escola das crianças, e cheia de experiências com as quais os não iniciados jamais sonhariam. Sua jornada é um mergulho na face mais sombria do sonho americano, onde categorias como bom e mau perdem o sentido; faz-se apenas o necessário para a obtenção dos melhores resultados. Trair, delatar, matar – o que for. A exploração da subjetividade de Joe, suas contradições e incertezas, bem como sua natureza astuta e confiante, e o modo peculiar como ele lê as situações e pessoas a sua volta, impulsionam a leitura de Os filhos da noite. Lehane é um daqueles escritores com a capacidade de tornar seus protagonistas vivos, dar-lhes uma voz muito particular, dissecá-lo para o leitor.

A galeria de personagens secundários criada pelo autor não é menos interessante. Como em todo bom épico, temos uma nêmesis à altura do “herói”: o líder da máfia irlandesa Albert White, cara legal e simpático quando não está ordenando o assassinato de rivais e buscando obstinadamente a cabeça de Joe. Emma Gould, femme fatale com quem Joe se envolve no primeiro ato do livro, enigmática a cada aparição, fugindo de clichês sem deixar de flertar com eles. Graciela, cubana radicada na Flórida que atua no crime do lado americano sem perder de vista o ideal de derrubar o governo-fantoche instalado pelos imperialistas em seu país. Irving Figgis, comandante do Departamento de Polícia de Tampa que mergulha gradualmente numa espiral de loucura. Loretta, jovem pura que acredita ter sido incumbida por Deus da tarefa de pregar contra a corrupção dos costumes, ameaçando os interesses da operação de Joe em Tampa. Lehane dá uma voz a cada um deles; não soam como caricaturas nem se apresentam como meros joguetes narrativos. Os eventuais conflitos nunca emergem como formas artificiais de tornar a história mais emocionante, mas como desdobramentos lógicos da personalidade das pessoas envolvidas.

A ambientação merece destaque. As cidades são sempre alvo de grande atenção por parte de Lehane, que aqui demonstra duplamente seu talento para torná-las verdadeiros personagens: além da Boston de todos os seus romances anteriores, temos aqui Tampa, com sua população miscigenada, fábricas de charutos se multiplicando pelas esquinas, jacarés arrastando-se pelos pântanos, litros e litros de rum consumidos como água. O autor encaixa habilmente seus trechos descritivos – por vezes longos – em meio à narrativa.

O ritmo pode se mostrar lento no início, mas o ótimo desenvolvimento de personagens, o constante clima de ameaça e as cenas de ação que pipocam de tempos em tempos – não é uma história de máfia sem alguns tiroteios – recompensarão os que avançarem na leitura. Aqueles que já são leitores de Lehane certamente não se sentiram incomodados e contarão o romance como um de seus melhores. Os filhos da noite tem um desenvolvimento satisfatório e um final que ecoa na cabeça muito tempo após a última página, obrigando o leitor a refletir sobre a crueldade dos homens e o ciclo infindável da violência. Os que vivem à noite são perpetuamente visitados por seus pecados, e nem sempre sobrevivem para ver o nascer do sol.

Obs. Os filhos da noite compartilha personagens com “Naquele dia”, sétimo livro do autor, embora ambos possam ser lidos separadamente.

(Imagens: ztopics, Flickr)

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13427_ggTítulo: Os filhos da noite
Autor: Dennis Lehane
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 480
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SINOPSE – A Lei Seca fez brotar do chão uma vasta rede de destilarias subterrâneas, bares clandestinos, gângsteres e policiais corruptos. Há muito que Joe Coughlin, o filho mais novo de um proeminente capitão da polícia de Boston, deu as costas à sua criação rígida e severa. Dos pequenos delitos cometidos na infância, Joe agora desfruta com gosto de uma carreira no crime construída a soldo de um dos mais temidos mafiosos da cidade.

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