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Lançamento da coletânea Rio Noir, no Rio de Janeiro


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Dez dos quatorze autores reunidos no livro estavam presentes no lançamento. (Foto: Josué de Oliveira)

 

ENCONTRO NOIR – Ocorreu na noite de 11 de dezembro, na Livraria da Travessa, do Leblon, o lançamento da antologia de contos policiais e de suspense “Rio Noir” (Casa da Palavra, 302 páginas). Criada pela Akashic Books, a série  já passou por diversas cidades ao redor do mundo, retratando-as na forma de contos noir.

A organização da obra foi do escritor e músico Tony Bellotto, criador  do detetive Remo Bellini. O evento foi mais uma edição do Prosa nas Livrarias, promovido pelo jornal O Globo. Dez dos quatorze autores reunidos no livro estavam presentes para debater sobre literatura policial e a experiência de escrever para a edição carioca da série.

“O Brasil é um país pródigo em crimes”

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A conversa começou com o organizador destacando o que lhe parece uma contradição: a falta de uma tradição policial na literatura brasileira em meio a  uma realidade violenta que marca não apenas  o Rio de Janeiro, mas o país como um todo. Há poucos autores que trabalham o gênero, e ainda pouca admissão de ser um “autor policial” entre os escritores brasileiros.

noirBellotto contou que sua seleção começou por autores que já se dedicavam ao gênero. Outros foram chamados por abordarem a temática urbana, de suma importância para a lógica da antologia. Cada autor se dedicou a um bairro de sua escolha, ambientando nele sua narrativa.

Os autores presentes falaram brevemente sobre seus contos e as circunstâncias que os envolvem. Abaixo, um pequeno resumo das falas.

“O Brasil é um país criminoso”, disse Alexandre Fraga, que, além de escritor, é policial federal. Foi o último autor chamado para participar: Bellotto tomou conhecimento dele a poucos dias do fim do recebimento dos textos, a partir de uma reportagem sobre o recém-lançado “Oeste: a Guerra do Jogo do Bicho”. O protagonista do conto “Canibal de Ipanema” figura num livro anterior do autor.

Para Luiz Eduardo Soares, no Rio, o crime se impõe, faz parte do imaginário coletivo. Para o autor, o fascinante da narrativa policial é a surpresa, a reviravolta, algo que procurou desfrutar na escrita em si, feita sem planos, de modo a experimentar a descoberta tanto quanto o leitor. Seu texto, “Fim de semana em São Conrado”, tem como base um acontecimento real: a invasão do Hotel Intercontinental por traficantes, em 2010.

Guilherme Fiuza não aprecia particularmente o tema urbano e a cultura de exaltação da cidade, por isso queria que seu texto fosse além destes elementos. “RJ-171” tem como temática a negociação com o crime. O protagonista circula entre o mundo do crime e do poder, cruzando fronteiras.

O conto de Victoria Saramago tem como foco o gringo que chega à cidade. De que forma o Rio seria noir para ele? Ambientado na Floresta da Tijuca, “Ponto cego” acompanha uma personagem estrangeira que, caminhando pelo local, encontra um dedo decepado e decide descobrir quem é seu dono.

Arnaldo Bloch utilizou o medo infantil de uma canção como ponto de partida para “Enigma da Vitrola”. A ideia foi trabalhar o bairro de Jacarepaguá como um lugar desconhecido. Segundo o autor, o conto se aproxima mais do horror.

O protagonista de “Tangerina Tango”, Marcelo Ferroni, aparece em seu último romance, Das paredes, meu amor, os escravos nos contemplam. O autor queria trabalhar o próprio mundo literário na narrativa. O conto trata do desaparecimento de um famoso autor de autoajuda em visita ao Brasil.

Inspirado em circunstâncias reais, e também extrapolando-as, Raphael Montes traz uma história de inveja entre dois escritores que vivem em Copacabana. Assim como o protagonista de “A história de Georges Fullar”, o autor de “Dias Perfeitos” vive próximo de um escritor consagrado: o poeta Ferreira Gullar. Essa vivência lhe deu a ideia do conto, que, segundo Montes, “só poderia ocorrer em Copacabana”.

Flávio Carneiro declarou sua predileção por histórias sobre outras histórias, em que se possa realizar um jogo intertextual. Seus dois romances policiais anteriores, “O campeonato” e “O livro roubado”, vão nessa linhas. Segundo o autor, o Centro do Rio, onde se passa o conto “A espera”, exprime muito bem a capacidade que toda grande cidade tem de surpreender. No texto, André e Gordo – protagonistas dos romances anteriores – são contratados por uma mulher que sente falta do stalker que a acompanhava até em casa, que, do dia para a noite, para de segui-la.

Arthur Dapieve se declarou um leitor ávido do noir norte-americano, representado por autores como Raymond Chandler, Dashiel Hammet e Chester Himes. Seu conto “Táxi argentino” tem elementos clássicos do subgênero: um investigador em constante monólogo interior e uma loira peituda – que, nesse caso, é uma travesti. A investigação envolve um corpo encontrado no Corcovado, no que aparenta ser um suicídio.

Rubem Fonseca

Ainda durante o debate, a figura de Rubem Fonseca foi trazida à tona. Para Tony Belloto, a influência do autor de “Agosto”, uma das maiores vozes da literatura brasileira, é menor em escritores das gerações mais novas, enquanto que, para os que estão há mais tempo na estrada, manifesta-se com muito mais força.

A fórmula e as cidades

Para Raphael Montes, o policial tem uma espécie de fórmula, que funciona ou não dependendo de como utilizada. No entanto, o ideal é incluir outros elementos nas narrativas. O gênero propicia espaço amplo para refletir sobre as grandes cidades, por exemplo, ou mesmo da própria psique humana. O jovem autor declarou também que o momento vivido pela literatura policial no país é bom, como comprovam os recentes lançamentos de Tony Bellotto, Garcia-Roza, Patrícia Melo e muitos outros.

Confira fotos do evento

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O encontro aconteceu na Livraria da Travessa, no Leblon

 

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Autores e leitores debatem sobre literatura policial

 

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Josué de Oliveira com Arnaldo Bloch, colunista de O Globo e autor do conto “Enigma da Vitrola”

 

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Nosso enviado especial com Raphael Montes, que assina um dos contos

 

(Fotos: Josué de Oliveira)

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