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Recursos Desumanos, de Pierre Lemaitre


Por Rodrigo Padrini – Quando escuto algumas histórias, fico impressionado com a capacidade das pessoas piorarem algo que já estava ruim. Casos do tipo “matou por acidente e, desesperado, esquartejou, separou o corpo em malas, saiu de carro, jogou cada mala em locais diferentes e voltou para casa como se nada tivesse acontecido” sempre despertam curiosidade. O enredo de “Recursos Desumanos” (Editora Vestígio, 2015), de Pierre Lemaitre, produz um interesse semelhante.

Nossa história se passa em Paris, França, tendo como pano de fundo o mundo contemporâneo do trabalho, marcado pelo capitalismo, a competitividade, o desemprego, e outros aspectos que já estamos acostumados a observar, inclusive a recente crise econômica. O desemprego é tratado geralmente como um fantasma ou um monstro que nos assombra, alimentando uma péssima reputação social e, aqui, temos uma amostra extrema de suas consequências.

Alain Delambre tem 57 anos e está desempregado há quatro. Casado e com duas filhas maiores, nosso protagonista vive um momento único em sua vida. Ex-diretor de Recursos Humanos – RH (o título vai ficando cada vez mais claro), o Sr. Delambre amarga a perda de prestígio social, renda e qualidade de vida, encontrando oportunidade apenas em subempregos, o que apenas colabora com sua desmoralização frente a sua família e a sociedade.

Ao ter sua candidatura considerada para um cargo de Diretor de RH de uma grande empresa, Delambre surta. Sim, podemos enxergar sua determinação quase como um surto. Vislumbrando a oportunidade de retomar sua vida passada, trabalhar novamente, sentir-se produtivo, reconhecido socialmente e não mais contar as últimas moedas na carteira, Alain adota medidas inacreditavelmente egoístas.
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1178-20150203111158“Nunca fui um homem violento. Por mais longe que eu volte nas minhas lembranças, nunca quis matar ninguém. Uma ou outra crise de raiva, sim, mas nunca tive vontade de realmente machucar. De destruir. Então, necessariamente, isso me deixou surpreso.”

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O ápice de nossa história, na minha opinião, é a forma como se dará a seleção para o novo emprego: Delambre irá participar de um teste final de recrutamento, por meio da simulação de uma tomada de reféns. Sim, o futuro candidato a Diretor de RH deverá auxiliar na condução de uma tomada de reféns de mentirinha que terá como resultado final a escolha de um grande executivo da empresa que o está contratando.

Baseando suas decisões em conhecimentos de management e administração, o Sr. Delambre acredita tomar os caminhos mais adequados e corretos, dar novo formato às situações, enxergando apenas o futuro, no ímpeto de esquecer o passado. Raiva, ressentimento, desejo de vingança e orgulho não faltam por aqui.

Em ritmo de roteiro de cinema, o romance adota o raciocínio rápido de nossos narradores para conduzir a trama. Por meio da escrita de Lemaitre, conseguimos imaginar cada cena, cada diálogo e captar a tensão dos momentos. Frases curtas, palavras soltas e reflexões internas nos levam a incorporar Alain Delambre, desempregado, desesperado, esquecido da ética e da moral. “Daria um ótimo filme”, pensei inúmeras vezes.

Por alguns momentos, quis que o livro acabasse logo, chegasse ao final, incomodado pelo ritmo detalhado de alguns segmentos, visivelmente ansioso por um desfecho. Suspenses são para isso mesmo. Esqueci essa sensação nos minutos finais da leitura e me surpreendi por seu alto teor psicológico. Cada frase é essencial para que absorvamos sem pressa a atmosfera de Alain Delambre.

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Título: Recursos Desumanos
Autor: Pierre Lemaitre
Páginas: 368
Editora: Vestígio
Ano: 2015
Este livro no Skoob

SINOPSE: Alain Delambre é um homem de 57 anos completamente desgastado e ressentido pelos quatro anos de desemprego que vem amargando. Ex-diretor de RH, ele encontra apenas subempregos, o que o desmoraliza cada vez mais. Quando um empregador finalmente resolve considerar sua candidatura para um cargo em uma grande empresa e na área em que é especialista, Alain Delambre se vê disposto a qualquer coisa – a pedir um empréstimo emergencial ao genro que detesta, a se desqualificar aos olhos de sua esposa e de suas filhas e até mesmo a participar do teste final de recrutamento: a simulação de uma tomada de reféns. Neste alucinante jogo em busca da cobiçada posição e do resgate de sua dignidade, Delambre percorre caminhos inesperados, que poderão levá-lo longe demais…

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