A garota na teia de aranha, de David Lagercrantz
O DRAGÃO ESTÁ NERVOSO (MAS NÃO MUITO)
Os erros e acertos – mais acertos do que erros – do novo livro baseado nos personagens de Stieg Larsson
Por Mateus Baldi – Ao longo da história recente da literatura, dezenas de bastiões, verdadeiros representantes de nichos consolidados, foram revisitados após a morte de seus autores. Por praticidade, a literatura policial demonstrou ser o gênero mais prolífico no que tange à adaptação/continuação de sagas, séries e legados de autores. Sherlock Holmes, James Bond, Sydney Sheldon. Todos foram às prateleiras em obras de caráter duvidoso e ajudaram a botar uma grana no bolso das editoras.
Com isso em mente, era mais que natural o receio do mundo literário quando os herdeiros de Stieg Larsson anunciaram que o autor David Lagergrantz, repórter que escrevera a biografia de Ibrahimovic, daria continuidade aos personagens Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist.
Larsson, o sueco criador da trilogia Millennium, foi vítima de um infarto fulminante antes que seus livros chegassem às livrarias – portanto não teve como testemunhar o sucesso avassalador da dupla: a trilogia vendeu 80 milhões de exemplares ao redor do globo e o primeiro volume, Os homens que não amavam as mulheres, foi justamente eleito melhor romance policial dos últimos dez anos. Carregada de feminismo, tecnologia, violência e um retrato brutalista da pacata Suécia, as prosa de Larsson atingiu em cheio todo um nicho refém das mesmas técnicas batidas de sempre, que convenciam ao requentar fórmulas batidas de um gênero idoso.
A missão de Lagercrantz, adianto desde já, foi cumprida com sucesso: copiando o estilo e a construção dos livros, ele conseguiu manter vivo o espírito de Larsson e construir uma trama intrincadíssima sem cair na maioria dos clichés. Mas eu disse maioria. Como tratava-se de um livro para comemorar o aniversário de dez anos do lançamento da trilogia, nada melhor do que homenagear a matéria-prima, certo? O problema é que Lagercrantz homenageia demais, deixando algumas coisas meio que sem sentido. O retorno dos agentes da Säpo – a polícia secreta sueca –, queridinhos dos leitores, me pareceu um tanto quanto forçado, ainda que renda boas cenas de ação e humanidade, principalmente na figura de Jan Bublanski, um policial judeu desacreditado com a vida e a existência de Deus.
Mesclando vários pontos de vista, assim como na trilogia, David oferece nesse “Aquilo Que Não Mata” – título sueco, extraído de uma frase de Nietzsche – um retorno aos dois últimos livros. Não só trazendo os policiais de volta, mas também toda a mitologia de Zalachenko e o passado de Lisbeth – muito bem recriado, deixando margem para algumas interpretações –, Lagercrantz foi feliz na escolha da trama principal: um cientista em perigo acaba recorrendo a Mikael; enquanto isso, um hacker invade a rede interna da NSA, a mesma denunciada por Edward Snowden. Conforme as páginas avançam, os fatos se cruzam numa cadeia cada vez mais intrincada onde as informações vão sendo despejadas em doses homeopáticas, como num filme de suspense – assassinos, União Soviética, autistas, espionagem industrial e personagens riquíssimos: está tudo lá.
(Em alguns pontos da narrativa fica difícil crer nas soluções apresentadas pelo autor, e para o grande público, eu diria, compreender o significado de termos cibernéticos e matemáticos será uma grande batalha. Os diálogos também parecem forçados aqui e ali, mereciam uma edição mais rigorosa).
Mas vamos ao que interessa:
Lisbeth e Mikael. Se o segundo aparece amargurado e distante do homem pragmático e objetivo que sempre foi – é o único personagem para quem o tempo parece ter passado; sério, todos os outros parecem ter ficado presos em 2003 –, a hacker favorita da literatura mundial retorna em grande estilo. Aparecendo pouco, como sempre, Lisbeth é providencial – e praticamente divina – quando tem de ser. Talvez falte um pouco de agressividade e cenas das tradicionais torturas físicas e psicológicas que seus inimigos costumam sofrer, mas o leitor fiel não vai se incomodar muito com isso.
O grande problema no arco de Lisbeth é a forma como ela se conecta com toda a história: pode ser que tenha sido uma decisão arriscada demais por parte do autor, e não vou desfilar argumentos aqui para não dar o inevitável e temido spoiler, inserir certos elementos do passado de Lisbeth como motor das 465 páginas desse romance. No esforço de se manter autoral, emular Stieg Larsson e agradar os fãs, David Lagercrantz fez um verdadeiro tour de force. Errando bastante, com certeza, mas acertando em cheio na nostalgia & diversão, A Garota Na Teia De Aranha é um ótimo entretenimento e deixa margem para continuações num final um tanto quanto decepcionante. O sueco já declarou que pretende escrever mais um ou dois livros, e depois cair fora. Não quer ser Stieg Larsson para sempre. De qualquer forma, é fato que, com Lagercrantz ou não, Lisbeth e Mikael voltarão.
Título: A garota na teia de aranha
Autor: David Lagercrantz
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 472
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SINOPSE – Uma muralha virtual impenetrável: é assim que se pode definir a rede da NSA, a temida agência de segurança americana. Quando a mensagem Você foi invadido piscou na tela de Ed Needham, responsável pelos computadores que guardam alguns dos maiores segredos do mundo, ele custou a acreditar. A tentativa de localizar o criminoso também não trazia frutos, as pistas não levavam a lugar nenhum, cada indício terminava num beco sem saída. Que hacker seria capaz de algo assim?
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Nasceu em 1994. É escritor e roteirista. Fundou a plataforma literária Resenha de Bolso, foi editor de cultura da revista Poleiro e colaborador de literatura no site da Piauí.
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