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ENTREVISTA | Isabel Moustakas no cenário da literatura policial


Isabel

Por Rogério Christofoletti – A mais recente novidade na literatura policial brasileira é talvez a mais coerente de todas. Já é um mistério em si mesma. Isabel Moustakas estreou em 2016 com Esta Terra Selvagem (Companhia das Letras), lançamento que foi aditivado por uma pergunta: afinal, quem é essa tal Isabel Moustakas? Sim, ninguém a conhece e nem se sabe ao certo se esse é um nome verdadeiro. Especulações cercam a autora, que pode, inclusive, ser um homem… Para além da pergunta “Quem é?”, surgem outras: “Por que recorreu a um pseudônimo?”… “Está se escondendo por quê?”… “Que jogada é essa?”

Enquanto os questionamentos se multiplicam, Moustakas não para. Escreve desenfreadamente e prepara o próximo livro, Cães Vorazes, ainda sem data de chegar às prateleiras. Sobre isso e muito mais, ela fala na entrevista a seguir, feita por e-mail. Afinal, ela não atenderia nossos telefonemas…

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1. Em “Esta Terra Selvagem”, você compõe um cenário cru e cruel de uma cidade que parece insistir na violência. Existem algumas pistas ali para continuar vivendo, mas o que é necessário para sobreviver na selva da literatura contemporânea?
Acho que é preciso se ocupar menos da vida literária, por mais que ela seja importante para a sobrevivência dos escritores, com suas bienais, feiras do livro e coisas do tipo, e se dedicar mais à literatura, isto é, à leitura e à escrita. Aliás, esta é a principal razão porque assinei “Esta terra selvagem” sob pseudônimo. A minha intenção era de que apenas o livro fosse levado em conta. Creio ter conseguido isso, ao menos em parte. É claro que o burburinho em torno do pseudônimo era inevitável e até ajudou na divulgação, mas acredito que será menor a partir do próximo lançamento.

2. Com tantos filmes e seriados de TV policiais tão bem produzidos, o que resta de público e de espaço para a literatura de crime e suspense?
Sempre haverá espaço para a literatura de crime e suspense. Há expedientes e formas de narrar propriamente literárias e que, portanto, só encontramos nos livros. Com isso, não quero dizer que um meio de expressão é “melhor” do que o outro. Eles são diferentes, e o grande barato está em não confundi-los. Um bom filme policial é um bom filme policial, uma boa série é uma boa série e um bom livro é um bom livro; há dias em que sinto vontade de ver um filme ou uma série, e há dias em que prefiro me jogar no sofá e ler. O importante é que temos todas essas coisas bacanas à disposição, com tudo o que cada uma delas tem de específico.

3. O que fez uma advogada de meia idade, bem estabelecida e com família estável, iniciar uma carreira literária? O que te faz escrever?
Uma das coisas que acho mais legais nos romances policiais é que eles dizem muito sobre os lugares em que se passam. Por exemplo, é possível conhecer algo de Edimburgo lendo os romances de Ian Rankin. Achei que seria interessante situar mais histórias desse gênero na cidade de São Paulo. Eu também queria abordar os aspectos mais sombrios da nossa realidade, que é muito difícil e perturbadora. Afirmei noutro lugar e repito aqui: nosso cotidiano é essencialmente distópico. O Brasil é violentíssimo. Escrever é a forma que encontrei de processar isso, de refletir a respeito, mesmo num livro tão acelerado quanto Esta Terra Selvagem. Por mais que exagere aspectos da realidade, tento dizer algo do fascismo à brasileira sob o qual vivemos.
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“Sempre haverá espaço para a literatura
de crime e suspense.”

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4. Você está preparando um livro para o ano que vem. O que pode falar dele?

Cães Vorazes é basicamente uma história de vingança. O protagonista se chama Rodrigo. Ele era vereador e renunciou ao mandato em meio a um escândalo de corrupção. Um dos efeitos colaterais desse escândalo é o assassinato brutal da irmã de Rodrigo. Ele culpa alguém por isso, mas essa pessoa está foragida. Ao sair no encalço do suposto culpado, Rodrigo aos poucos percebe que as coisas não são tão simples, seja o ato de perseguir e matar, seja o que resultou na morte da irmã. É um livro diferente de Esta Terra Selvagem. É mais longo e menos acelerado. Tentei me deter mais nas motivações dos personagens e criar uma atmosfera “grudenta” que desse conta do meio corrupto em que eles vivem. Quis ressaltar mais os efeitos da corrupção e da violência do que a violência em si, já bastante explorada no primeiro livro. Espero ter conseguido. Aconteça o que acontecer, quero que cada história minha seja diferente. Quero explorar temas, ambientações e ritmos distintos. Odiaria me repetir.

5. Isabel Moustakas teme ser rotulada como “autora de livros policiais”? Gêneros aprisionam os autores?
Não acho que gêneros aprisionem ninguém, pelo contrário. Há tantos autores e estilos distintos, de P. D. James a Edward Bunker, de Georges Simenon a James Ellroy, e acho que isso mostra o quanto é possível experimentar coisas diferentes ao se contar uma história de determinado gênero. Prefiro autores que, dentro de certos limites, conseguem oferecer uma experiência original e vibrante aos que tentam reinventar a roda a qualquer custo.

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6. O que se pode esperar da literatura de crimes no Brasil?
Espero que, ao contrário dos crimes propriamente ditos, ela cresça cada vez mais. É uma forma direta e nada pueril de expor os nossos inúmeros problemas e refletir sobre eles.

7. Muitos especulam sobre a sua identidade. Há quem até deixe de tratar de “Esta Terra Selvagem” para argumentar em torno de um suposto pseudônimo. Afinal, Isabel Moustakas existe mesmo? Como nos convence disso?
A especulação sobre a minha verdadeira identidade é divertida, mas nada deve ser mais importante do que os livros. Não tenho a intenção de revelar quem sou, não por enquanto. À medida que escrever e publicar mais, acho que o lance do pseudônimo deixará de ser tão discutido. É o que espero. Não sou um golpe de marketing. Sou uma autora e, enquanto tal, quero que o meu trabalho seja levado em consideração acima de tudo.

(Imagens: Divulgação, Rogério Christofoletti)

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