resenha

Richard Morgan faz cyberpunk noir em Carbono Alterado


No século 25, morrer não é mais um problema. A ciência já descobriu uma forma de driblar esse inconveniente, e assim que alguém bate as botas, um pequeno dispositivo do tamanho de uma guimba de cigarro pode ser colhido da nuca do finado e implantado em outro corpo em melhores condições. Grandes corporações cuidam desse processo, assim como se encarregam de fabricar outras “capas” ou guardar esses maravilhosos cartuchos de carbono onde se armazenam as almas. Mas pensa que é simples e fácil? Nã-nã-não. Tudo tem seu preço, e às vezes ele é bem salgado. Takeshi Kovacs sabe bem disso. Já morreu outras vezes e sabe que morrer definitivamente é possível. Basta destruir esses cartuchos ou provocar danos irreversíveis nesse sistema de reimplante. É o que chamam de Morte Real.

No século 25, a humanidade se espalhou pela galáxia, colonizando outros planetas. Takeshi é natural do Mundo de Harlan e ele nunca havia pisado na Terra. Nunca até agora. Depois de sua última morte, o ex-membro do Corpo de Emissários das Nações Unidas ficou por séculos na geladeira pois tinha uma pena a cumprir. Para livrar-se da punição, o casca-grossa é enviado à Terra e lhe é proposto um acordo: se investigar e solucionar um crime para um misterioso magnata, ficará livre, com um corpo novo e com os bolsos cheios.

Laurens Bancroft quer descobrir quem afinal estourou seus miolos. Não estamos falando de um fantasma que contrata um detetive particular. O senhor Bancroft tem muito dinheiro, tinha backup remoto de seu cartucho cortical, mas não está nada feliz com o fato de alguém querer vê-lo de pés juntos. A polícia insiste em suicídio, mas Bancroft não se lembra de ter puxado o gatilho. Aparentemente, não tinha motivos para isso. Takeshi Kovacs aceita o caso e vai inevitavelmente se perder num labirinto de personagens esguios, verdades provisórias e suspeitas cegantes.

“Carbono Alterado” é o romance de estréia do inglês Richard Morgan e foi lançado originalmente em 2002. É intrigante que uma história tão forte e tão bem contada tenha demorado tanto para sair por aqui, e só desembarque agora nas prateleiras. O provável motivo é que a Bertrand Brasil quer preparar os leitores para a chegada da aventura à TV. Sim, a Netflix está produzindo uma série de dez episódios com previsão de exibição para 2018. Mas se você é leitor de ficção científica ou de literatura policial não espere e salte já para as páginas do livro!

“Carbono Alterado” nos transporta para numa atmosfera deslumbrante e confusa, com cenários caóticos e miscigenados, habitados por personagens ambíguos e esquisitões. A Terra é só o mais antigo planeta colonizado pelos humanos, mudou bastante nos últimos séculos, mas conserva em sua fauna estratos marginais e criminosos. Pode-se perambular pelas vielas escuras de aerotáxi e se hospedar em um dos hotéis administrados por inteligências artificiais. Aliás, as IAs não só gerenciam os empreendimentos como são donas deles!

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Em muitos momentos da leitura, é possível lembrar dos melhores romances de William Gibson e das mais angustiantes sequências de Blade Runner, o filme de Ridley Scott. Assim como é fácil detectar alguns elementos próprios das histórias noir: das femme fatales com quem é impossível não se envolver ao fetiche por armas e à violência crua e brutal.

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Richard Morgan é um hábil arquiteto narrativo, e parte de sua elaborada técnica está no desenvolvimento de uma extensa terminologia própria que nomeia coisas, procedimentos, sensações. Estamos na Terra, mas poucas vezes nos sentimos tão alienígenas.

Intenso, quente e cheio de hormônios, “Carbono Alterado” é uma combinação efervescente dos gêneros policial e sci-fi. O autor não prioriza mergulhos filosóficos profundos e típicos de Philip K. Dick, e isso também permite que Morgan exiba uma voz única e vigorosa. Sua prosa é clara, altamente criativa e meticulosa na ambientação cênica. Tão seguro quanto seu personagem Takeshi, o autor sabe onde quer nos levar, mesmo que hesitemos tanto. Duas páginas são suficientes para que o leitor se despregue de sua cadeira, viaje quatro séculos e esbarre na escória que habita Bay City, antiga San Francisco.

Takeshi é como qualquer detetive que já encontramos em outros volumes: ele tenta extrair informações das pessoas para concluir sua investigação. Nem sempre usa os métodos mais civilizados. Seu passado ajudou a calcificar esse modus operandi: não se pode esperar muitas delicadezas de um combatente como ele, acostumado a carnificinas. Deliberadamente violento, “Carbono Alterado” tem o ímpeto dos filmes de Quentin Tarantino, mas a plasticidade das cenas de sexo e tiroteios dão molduras mais artísticas ao uso das furiosas armas e ao uso de certas partes do corpo. As irmãs Wachowski de “Matrix” se encontram para um chá com Sam Peckinpah de “Meu Ódio Será Sua Herança”.

Vencedor do Prêmio Philip K. Dick de 2003, “Carbono Alterado” propicia uma experiência única de leitura nas (muitas) cenas em que pilotamos corpos com Takeshi. Aqui, vestir a capa tem outros sentidos e propósitos. Ocupar o corpo de alguém, ajustar-se a isso e remodular seus gestos, presença e ações ressaltam a literatura de ficção científica de Morgan.

São quase quinhentas páginas de pancadaria, tiros, erros de sistema, sexo, drogas, sangue e assombrosas tecnologias. Inteligente, a história oferece como bônus doses homeopáticas de refinado humor e grandes questões para se pensar: Qual é o valor da vida, quando é mais difícil morrer? Ela vale mais ou menos? O que faremos quando a morte – essa grande razão da vida – puder ser adiada? Não se trata de perguntas retóricas. Não é uma questão de perspectiva. Isso muda tudo. Takeshi Kovacs sabe disso. O senhor Bancroft também. Nós é que precisamos começar a nos preocupar.

Título: Carbono alterado
Autor: Richard Morgan
Tradução: Edmo Suassuna
Ano: 2017
Editora: Bertrand Brasil
Páginas: 490
Este livro no Skoob

SINOPSE – No século XXV, a consciência de uma pessoa pode ser armazenada em um cartucho na base do cérebro e baixada para um novo corpo quando o atual para de funcionar. A morte, agora, nada mais é que um contratempo inconveniente, uma falha no programa. Takeshi Kovacs, um ex-militar de elite, após sua última morte, tem sua consciência transportada a Bay City, a antiga São Francisco, e é trazido de volta à vida para solucionar o assassinato de um magnata. Isso só para descobrir que seu contratante é a própria vítima, que voltou à vida em um novo corpo, mas sem as memórias do crime. Mal sabe Kovacs, porém, que essa investigação irá lançá-lo no centro de uma conspiração perversa até para os padrões de uma sociedade que trata a existência humana como um produto a ser comercializado.

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