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O que Arthur Conan Doyle acharia de Jovem Sherlock?

Poucos personagens da literatura atravessaram tantas gerações quanto Sherlock Holmes. Criado por Arthur Conan Doyle no final do século XIX, o detetive de mente afiada e métodos dedutivos revolucionários virou um ícone cultural lembrado até hoje.

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Com a série Jovem Sherlock o detetive ganha uma nova abordagem, que é a história do gênio antes de se tornar o lendário investigador. A pergunta que surge é curiosa e inevitável: o que o próprio Arthur Conan Doyle acharia dessa versão jovem de seu personagem?

É claro que nunca saberemos, visto que Doyle já se foi há muito tempo (em 1930), mas é possível imaginar algumas reações dele analisando sua obra, sua personalidade e a forma como ele reagiu a adaptações enquanto viveu.

Para entender o que Doyle poderia pensar sobre Jovem Sherlock, é preciso compreender a relação de amor e ódio que ele tinha com o personagem.

Sherlock Holmes apareceu pela primeira vez em Um Estudo em Vermelho, publicado em 1887. O sucesso inicial foi modesto, mas tudo mudou quando as histórias começaram a ser publicadas na revista The Strand Magazine. A partir daí, Sherlock Holmes virou uma febre, um fenômeno literário que pegou até Doyle de surpresa. Curiosamente, ele viria a detestar esse fenômeno tempos depois.

Conan Doyle considerava seus romances históricos muito mais importantes para sua carreira literária, talvez por uma simples questão de elitismo literário dele mesmo. Holmes era para ele quase um trabalho comercial, algo que escrevia para pagar contas. Tanto que, em 1893, o autor decidiu matar sua galinha dos ovos de ouro em O Problema Final, fazendo-o cair nas Cataratas de Reichenbach com o Professor Moriarty.

Só que o que ele não contava era com a reação dos leitores. O público fez uma fiasqueira! Cartas indignadas chegaram aos milhares e muitos leitores cancelaram assinaturas da revista. A pressão foi tão grande que Doyle acabou ressuscitando o detetive alguns anos depois em A Casa Vazia. Esse episódio acabou revelando que Sherlock Holmes não pertencia mais a ele, que ele agora era propriedade do público.

Hoje sabemos que Holmes é um dos personagens mais adaptados da história da cultura pop. Ele já apareceu em filmes, séries, quadrinhos, jogos, animações e livros derivados.

Cada versão apresenta uma interpretação diferente do personagem. Algumas enfatizam o gênio lógico, outras destacam sua personalidade excêntrica e outras exploram a ação. Jovem Sherlock segue outro caminho: mostrar como Holmes se tornou Holmes.

A série explora um período da vida do detetive que praticamente não aparece nas histórias originais: sua juventude. Nos contos e romances de Conan Doyle, o passado de Holmes é apenas sugerido, alimentando um mística sobre suas raízes. Sabemos poucas coisas, como por exemplo que ele estudou em universidade, que tem um irmão mais velho, Mycroft, e que desenvolveu cedo habilidades de observação. Só que muitos detalhes ficaram em aberto, provavelmente pela pura falta de interesse de Doyle em explorar essas origens. E é justamente nesse espaço narrativo que a série entra.

Ela constrói a formação intelectual do personagem, suas primeiras investigações e o desenvolvimento de sua mente analítica. Outro ponto especialmente intrigante na série é a conexão inicial com Moriarty. Em vez de aparecer apenas como o grande vilão, a história aponta que os dois se conheceram ainda jovens, tornaram-se colegas, rivais intelectuais ou até aliados momentâneos. Essa relação inicial, marcada por admiração mútua e competição intelectual, pode ter se deteriorado ao longo do tempo, dando origem ao conflito que mais tarde se tornaria um dos maiores duelos de inteligência da literatura policial.

Existem bons motivos para acreditar que Doyle poderia então gostar da ideia desta série, apesar do ranço que desenvolveu com Sherlock. Afinal, ele era um autor bastante aberto à experimentação narrativa. Além de contos sherlockianos, escreveu ficção científica, histórias de terror, aventuras históricas e literatura espiritualista.

Um exemplo famoso é O Mundo Perdido, que apresenta o Professor Challenger e dinossauros em uma ilha isolada. Ou seja, Doyle gostava de imaginação e exploração de novos conceitos, e ele sabia que personagens evoluem quando passam para novos meios. Na época dele, já existiam peças de teatro baseadas em Sherlock Holmes, e ele chegou a colaborar com algumas adaptações. Provavelmente ele ficaria curioso, intrigado e interessado em ver o resultado, sabendo que seu personagem tinha ultrapassado os limites da literatura e se tornado parte da cultura mundial.

Se você quer entender melhor o personagem antes de assistir à série, vale muito a pena começar pelos livros de Conan Doyle. Algumas leituras essenciais incluem:

Esses livros são perfeitos para quem quer descobrir por que o personagem se tornou um fenômeno mundial.

 

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