Por Josué de Oliveira – De todos os subgêneros da literatura policial que conheço, apenas um relaciona-se com uma localização no planeta: trata-se do scandi crime, expressão utilizada para se referir à ficção criminal produzida nos países da Escandinávia, no norte da Europa. O termo aponta para a crescente popularização de autores nórdicos junto ao público aficionado por romances policiais em todo o mundo. Nomes como Stieg Larsson, Jo Nesbo, Henning Mankell, Karin Fossum e Hakan Nesser são alguns exemplos desse fenômeno.
A tradição policial escandinava (e, em especial, a sueca) veio se estabelecendo ao longo de décadas, resultando na explosão mais recente. Em meio aos diversos representantes do scandi crime traduzidos para o português nos últimos anos, dois nomes que chegaram por aqui no final de 2014 merecem atenção. Trata-se do casal Maj Sjöwall e Per Wahlöö. Autores de dez livros, lançados entre os anos 60 e 70, os dois são considerados pioneiros da literatura policial sueca. Seus livros são protagonizados por Martin Beck, inspetor da polícia de Estocolmo, introduzido neste Roseanna.
Na trama, Beck e sua equipe são destacados para colaborar na investigação do assassinato de uma mulher anônima, encontrada durante a dragagem de um lago com sinais de violência sexual. O caso esbarra numa total falta de pistas. Seguem-se meses de trabalho minucioso e exaustivo de Martin Beck, homem de meia idade, melancólico e constantemente doente, mas obcecado pelo mistério da mulher que ninguém parece saber quem foi.
Se precisasse descrever o romance Roseanna numa só palavra, eu o chamaria de “simples”. Não é espetacular nem particularmente original, mas se mostra muito bem-sucedido no que se propõe. De modo geral, o que mais salta aos olhos é uma escolha incomum dos autores: não escorar a narrativa no mistério em si, mas na jornada dos policiais que devem desvendá-lo, em todas as dificuldades e percalços enfrentados por Beck para fazer a investigação caminhar.
Por vezes, a impressão que se tem ao ler é de que capítulos e capítulos se passam sem que nada aconteça. Em outros romances, isso poderia ser considerado uma falha, mas em Roseanna essa lentidão – que incomoda os personagens tanto quanto os leitores – faz parte do universo do livro. O trabalho de investigação é em grande medida braçal, cansativo, enfadonho, e muito tempo pode se passar antes que algum avanço ocorra. Os autores procuram dar à história esse tom mais realista, ao qual são fieis até o fim.
O principal atrativo, portanto, é observar as estratégias às quais Beck e seu grupo precisam recorrer para sair do escuro e obter pequenos sucessos, reunindo pistas pouco a pouco, num trabalho de formiga. Sjöwall e Wahlöö mostram criatividade ao retratar os personagens seguindo planos de ação minuciosos e absolutamente verossímeis dentro do contexto em que estão. Assim, as descobertas, quando ocorrem, fazem sentido e não soam forçadas. Roseanna pode não ter reviravoltas espetaculares, mas se sai muitíssimo bem na exploração dos mecanismos da investigação.
Em se tratando de personagens, o livro é pouco mais que regular. Naturalmente, Beck é o mais bem-desenvolvido, sendo os demais pouco além de enfeites, ganhando mais vida em momentos pontuais de descontração e troca de piadas. O protagonista é um homem pacato, razoavelmente inteligente, esposo e pai displicente, mas policial dedicado (a falha como homem de família, aliás, se relaciona diretamente com a profissão). Beck não é particularmente caloroso ou interessante e em diversos momentos seu descaso em relação à família é irritante e infantil. A personalidade um tanto plácida do protagonista pode ser um obstáculo para quem gosta de se apegar aos personagens, mas espero apenas vir a gostar um pouco mais dele nos próximos volumes da série.
Escrito numa prosa leve e objetiva, Roseanna é a porta de entrada para o universo dos pioneiros Maj Sjöwall e Per Wahlöö, onde crimes são solucionados com suor e noites viradas. Julgando por esse primeiro contato, ele me parece interessante o suficiente para render outras visitas.
Autores: Maj Sjöwall e Per Wahlöö
Editora: Record
Páginas: 256
Ano: 2014
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SINOPSE – O corpo de uma mulher de origem desconhecida é encontrado durante a dragagem de um lago na Suécia. Sem qualquer pista de quem poderia ter cometido o crime, o inspetor Martin Beck mobiliza sua equipe em uma busca internacional por um assassino sem nome e sem rosto.
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Formado em Estudos de Mídia pela UFF e vive em Niterói, RJ. Trabalha na área de desenvolvimento de livros digitais. Gosta de ler, escrever, ver filmes esquisitos e curte bandas que ninguém conhece. Atualmente, revisa seu primeiro romance policial.
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Excelente análise Josué!!!! Meus Parabéns!!! Estou na metade do livro, que comecei a ler hoje, e concordo plenamente com sua análise!!! Adoro Nordic Noa, pois comecei pelo Fenomenal Sting Larsson, depois o excelente Casal Lars Kepler, e agora esse Casal.