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Padura esbanja simpatia em Canoas


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“Dizem que, quando um cubano fala devagar, ele fala em português.” Foi assim que o escritor Leonardo Padura abriu a última noite da 31ª Feira do Livro, em Canoas (RS). A frase era mais para quebrar o gelo, mas não precisava. Apesar dos 12 graus de temperatura naquela sexta, 26, o auditório Luis Fernando Verissimo estava lotado de calor humano, e Padura dividia o palco com Frei Betto, seu amigo de longa data.

Mediados pela jornalista Cláudia Laitano, falaram sobre direitos humanos, a decisão judicial que libera o casamento gay nos Estados Unidos, Cuba e a conjuntura política, e – claro! – livros. Padura estava certo. A plateia não precisou de tradução para se divertir e se encantar com o que o autor cubano mais celebrado do momento tinha a dizer. Com sua voz de trovão, falou das dificuldades de escrever o romance “O homem que amava os cachorros” – que reconta a perseguição e morte de Trotski – e de como a literatura aproxima as pessoas. “Sou amigo de Frei Betto antes mesmo de conhecê-lo, pois eu já o lia. Fiz amizades até com quem já não era mais vivo. Os livros permitem isso”.

Simpático e bem-humorado, Padura atendeu jornalistas, pacientemente autografou dezenas de exemplares e posou para outras dezenas de fotos. Na primeira fila, tinha Verissimo que o acompanhava com seu sorriso de passarinho. O cronista brasileiro retribuía a gentileza da noite anterior, quando foi a vez do cubano lhe prestigiar na palestra. Aliás, não é apenas a literatura que os aproxima. Compartilham a paixão pelo jazz e pelo cinema, e suas esposas têm o mesmo nome: Lucia. Ambas acompanhavam seus escritores prediletos naquele noite. Quando os aplausos terminaram e o auditório foi esvaziado, Padura ainda atendia alguns leitores, com selfies, autógrafos e curtas conversas. Sua mulher, a também escritora Lucía López Coll o esperava silenciosamente num dos bancos da Praça da Bandeira. Estava encolhida, diante daquele frio tão distante da tropical Cuba. Viagens da vida e da literatura.

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Livros e árvores

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image_1Quem visita pela primeira vez a Feira do Livro de Canoas tem a exata sensação de estar numa cidade do interior que respira livros. Não é exagero dizer que a feira transforma a cidade durante sua realização. Os organizadores espalham totens em forma de letras pela cidade, criando uma espécie de roteiro literário, mudando a paisagem local.

O evento acontece a partir de uma praça central, onde são erguidas tendas para a venda de todo tipo de obra e onde tapumes fazem brotar do chão um auditório para mais de duzentas pessoas. É nesse espaço que acontecem palestras, debates, oficinas, contação de história e sessões de autógrafos.

Nos eventos mais concorridos, mais cadeiras são colocadas na área externa, de frente para um telão onde são projetadas as atrações. A cada ano, o auditório leva o nome do patrono da feira, e o homenageado deste ano foi Luis Fernando Verissimo, que parecia muito à vontade, apesar de sua legendária timidez. A Feira do Livro faz dessas coisas. Na noite anterior, foi a vez dele de enfrentar o público. E cadê o autor caladão? Palestrou, fez fotos com fãs e autografou livros por quase duas horas.

Com duas semanas de duração, a feira de Canoas tem ainda saraus, cafés literários e atividades de formação de novos públicos. Mescla literatura regional, nacional e internacional, e atrai públicos de todas as idades. Por ser uma promoção da prefeitura local, milhares de leitores mirins em uniformes escolares formam extensas filas em suas invasões diárias. Adolescentes se acotovelam para tirar selfies entre as árvores, e os mais velhos aguardam sua vez para colher autógrafos com seus autores favoritos.

Diferente de grandiosos eventos do gênero, a Feira do Livro de Canoas não tem pavilhões, mas barraquinhas de livros. Não conta com grandes editoras, mas com livreiros. O comércio de livros é importante, mas o que mais parece importar mesmo é aproximar leitores de autores. Neste ano, trouxe Verissimo, Padura, Frei Betto, Alice Ruiz, Heloisa Seixas, Ruy Castro, sem contar os muitos escritores gaúchos. Num ano tão difícil para a literatura, quando a tradicional Jornada de Passo Fundo simplesmente não acontece por falta de patrocínio, eventos como o de Canoas assumem uma importância decisiva para os caminhos do livro no país. É como disse Frei Betto, “vamos guardar o pessimismo para dias melhores”.

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FOTOS

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(Imagens: Ana Paula Laux/Rogério Christofoletti)
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