Primeiras impressões de Romance Policial: Espinosa
Por Rodrigo Padrini – Como bem diz o título, são as primeiras impressões. Dizem que a primeira impressão é a que fica. Espero que não. No último dia 15 de outubro, estreou no canal GNT a série Romance Policial: Espinosa, uma adaptação televisiva inspirada no livro “Uma Janela em Copacabana” (Companhia das Letras, 2010), de Luiz Alfredo Garcia-Roza (já escrevi uma resenha sobre ele aqui no site). A série tem como protagonista o famoso Delegado Espinosa, um possível quarentão introspectivo, apreciador de comidas congeladas, mulheres e livros.
Me considero um fã de literatura policial, porém, tive apenas um breve contato com o Delegado Espinosa e a obra policial de Garcia-Roza, lendo propositalmente antes o livro que inspirou a série em questão. No entanto, creio ser suficiente para apresentar uma crítica construtiva sobre sua adaptação televisiva. Assisti ao primeiro episódio acompanhando freneticamente a hashtag #EspinosanoGNT no Twitter e lendo as opiniões por lá. Busco aqui uma síntese do que ouvi e, para amenizar, comecemos pela parte boa.
Deixo claro que tenho ciência de que a série é apenas inspirada no livro e não é uma adaptação fiel do que está escrito. Mas, como somos pessoas chatas e críticas, somos também exigentes e temos grandes expectativas. Afinal, criticar faz parte, fortalece e faz crescer, que nem Danoninho e Biotônico Fontoura. E semana que vem posso mudar de ideia.
Pontos positivos
- A trilha sonora me causou ótimas impressões, discreta e adequada às cenas. Rolou uma introdução de uma faixa da carreira solo do Rodrigo Amarante. =]
- A abertura do seriado também é muito bacana, com boas tomadas de Copacabana e um clima meio “Narcos”, uma série excelente do Netflix que você devia conhecer.
- A representação das principais mortes que ocorrem no início da trama também salvou o episódio. Foi muito legal ver os cenários na telinha, mesmo que com algumas inconsistências.
- A edição é boa e o episódio ficou dinâmico, sem intervalos (isso então foi excelente) e com uma duração legal.
- O ator Domingos Montagner, que interpreta Espinosa, me satisfez, mas não impressionou. Talvez uma narração do próprio, em cima das cenas de silêncio, proporcionaria um clima mais introspectivo, bem característico do personagem.
- A beleza do cenário facilita as coisas. Aquela parte do Rio de Janeiro é muito bonita, um belo pano de fundo, e a série parece que saberá explorar isso.
Pontos negativos
- O elenco não convenceu neste primeiro episódio. A maioria dos personagens não passa nenhuma originalidade e seguem estereótipos bem batidos. O Domingos Montagner e a Nanda Costa salvaram.
- Ainda sobre os atores, muitos são sofríveis. Alguns já morreram no episódio, pelo menos.
- Os interrogatórios mostram um clima tenso totalmente desnecessário e desconexo com a trama original. Até a dona da empresa de cuidadores de idosos foi ofensivamente interrogada, poxa.
- O Espinosa me pareceu agressivo e estressado. Não captei esse espírito na obra escrita, mas sim de um personagem calejado, introspectivo e pensativo, coerente e ponderado.
- A ideia de botar o Espinosa para nadar no mar à noite ficou bacana, poético, mas inverossímil.
- Na trama original, a namorada de Espinosa se chama Irene, trabalha/mora em São Paulo e parece mais velha/madura. Na TV, esqueci o nome da namorada, mas é nova, praticamente mora na casa do Espinosa e rola uma tensão sexual o tempo inteiro. Isso não condiz muito com o que imaginei da dinâmica afetiva do Delegado. Posso estar sendo insuportável, mas sei lá, isso não ficou legal.
- O clima da delegacia e os policiais são “mais clichê” impossível.
Bom, entre mortos e feridos, como diria meu avô, são apenas algumas observações de um espectador crítico. Vários desses comentários foram falados em outras palavras no Twitter e espero ter transmitido minimamente seus pontos de vista. Romance Policial: Espinosa é uma produção nacional e isso é sensacional. Precisamos reforçar o gênero no país e em vários momentos, prometeu impressionar. Porém, em outros, decepcionou. Uma mistura de alto profissionalismo e amadorismo (ou falta de bom senso) inacreditável. Como disse ontem no Twitter, é uma baita responsabilidade botar livros de tanta qualidade na TV.
De qualquer forma, compensa acompanhar os próximos episódios e, quem sabe, queimar a minha língua.
(Imagem: divulgação GNT)
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Psicólogo, mestre e doutorando em Psicologia. Atua no sistema prisional. É músico e leitor assíduo de romances policiais, com aquele lugar especial no coração para Georges Simenon e Raymond Chandler.
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