Por Rodrigo Padrini – O que faz nossas conexões cerebrais dançarem? O que massageia nossa mente, alivia o espírito e nos diverte? Não sei pra você, mas pra mim, uma boa receita seria: duas xícaras de tragédia, três colheres de ironia, meio copo de sarcasmo, sete gotas de suspense e uma colher de sobremesa de terror. Misture tudo e bata no liquidificador. Em seguida, disponha o conteúdo em pequenas formas antiaderentes e leve ao forno por trinta minutos. Agora é só esperar esfriar e degustar acompanhado de uma boa caneca de café.
O Bazar dos Sonhos Ruins promete divertir, desde os leitores mais fieis de Stephen King, aos mais esporádicos ou não iniciados. Generoso – são mais de quinhentas páginas –, o livro traz vinte histórias nas quais ‘horror’ e ‘humor’ andam juntos e, mais uma vez, pude recordar o porquê de gostar tanto da escrita de Stephen King. O cara manda muito bem e deve ser lido.
Já tive a oportunidade de falar sobre outro livro de contos do autor, Escuridão Total Sem Estrelas (Editora Suma, 2015), este com apenas quatro histórias mais longas – e excelentes, por acaso. Aqui estamos falando de um livro com histórias de tamanhos e formatos variados – temos até algumas em forma de poema – e com avaliações, em minha opinião, variáveis. Em sua maioria, são histórias bem escritas – claro – e interessantes, além de divertidas daquele jeito que os fãs de King conhecem muito bem.
Como pontos negativos, alguns contos contam com um final razoável que não acompanham a qualidade da história e decepcionam, como “Vida após a morte” e “Moralidade”. Frustração talvez seja a melhor palavra. Outras não precisavam ser tão longas e se deter em detalhes como em “Blockade Billy”, já que é uma história que tem como ponto central o beisebol e isso faz com que a experiência de quem não tem familiaridade com o jogo seja mediana. Umas não têm nada do terror que você talvez espere encontrar como em “Batman e Robin têm uma discussão”, apesar de serem boas passagens.
“Ele disse que foi uma alucinação
que vimos, provocada pela febre e pela água suja.
Disse de novo que nossas fortunas estavam garantidas e riu.
O filho da mãe, aquela gargalhada foi o fim dele.
Eu vi que ele estava louco – ou eu estava – e que um de nós
teria que morrer” (A igreja de ossos, p.175)
Como pontos positivos, vemos estilos diferentes de escrita utilizados por King, propositalmente, como em “Tommy” e “A igreja de ossos” – em forma de versos – e em “Fogos de artifício e bebedeira” – com uma linguagem mais caipira e popular. Esta última, uma das mais divertidas, por sinal. Temos uma riqueza de detalhes que nos faz mergulhar em alguns contos e uma criatividade que diverte e impressiona como em “O pequeno deus verde da agonia” – comicamente terrível –, “Garotinho malvado” – para quem odeia crianças malvadas, essa é excelente – e “Herman Wouk ainda está vivo” – duas histórias se alternam e se encontram no final. Outros contos entre os meus favoritos são “A duna” e “Indisposta”, ambos meio macabros, tristes e inusitados.
Quanto à publicação em si, a Suma de Letras acerta no tipo de papel, nas fontes e na edição, de modo geral. No entanto, a capa não agradou. Não sei se são as cores, a imagem ou o conjunto, mas outras publicações de King como Novembro de 63, Joyland e Escuridão Total Sem Estrelas são tão legais que, ao compararmos, O Bazar dos Sonhos Ruins ganha uma nota apenas um pouco acima da média no quesito beleza. Entretanto, nada que prejudique a experiência. Ele ainda merece um espaço na sua estante.
Por fim, um livro de contos de King é um belo exemplo de como construir histórias curtas e ter, como resultado, pequenas travessas de diversão, boa escrita, ficção e um terrorzinho de leve. Você pode degustar aos poucos e ou se empanturrar de uma só vez, não interessa. O banquete está servido e a satisfação é garantida.
(Imagem: Rodrigo Padrini Monteiro)
Autor: Stephen King
Tradução: Regiane Winarski
Editora: Suma
Páginas: 527
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SINOPSE – Mestre das histórias curtas, o que Stephen King oferece neste livro é uma coleção generosa de contos – muitos deles inéditos no Brasil. E, antes de cada história, o autor faz pequenos comentários autobiográficos, revelando quando, onde, por que e como veio a escrever (ou reescrever) cada uma delas. Temas eletrizantes interligam os contos; moralidade, vida após a morte, culpa, erros que não cometeríamos se pudéssemos voltar no tempo… Muitos deles são protagonizados por personagens no fim da vida, relembrando seus crimes e pecados. Outros falam de pessoas descobrindo superpoderes – como o colunista, em “Obituários”, que consegue matar pessoas ao escrever sobre suas mortes. Incríveis, bizarros e completamente envolventes, essas histórias formam uma das melhores obras do mestre do terror, um presente para seus Leitores Fiéis.
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Psicólogo, mestre e doutorando em Psicologia. Atua no sistema prisional. É músico e leitor assíduo de romances policiais, com aquele lugar especial no coração para Georges Simenon e Raymond Chandler.
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