resenha

RESENHA | O bazar dos sonhos ruins, Stephen King


O que faz nossas conexões cerebrais dançarem? O que massageia nossa mente, alivia o espírito e nos diverte? Não sei pra você, mas pra mim, uma boa receita seria: duas xícaras de tragédia, três colheres de ironia, meio copo de sarcasmo, sete gotas de suspense e uma colher de sobremesa de terror. Misture tudo e bata no liquidificador. Em seguida, disponha o conteúdo em pequenas formas antiaderentes e leve ao forno por trinta minutos. Agora é só esperar esfriar e degustar acompanhado de uma boa caneca de café.

O Bazar dos Sonhos Ruins é um dos recentes lançamentos de Stephen King pela Suma de Letras no Brasil e promete divertir, desde os leitores mais fieis de King, aos mais esporádicos ou não iniciados. Generoso – são mais de quinhentas páginas –, o livro traz vinte histórias nas quais ‘horror’ e ‘humor’ andam juntos e, mais uma vez, pude recordar o porquê de gostar tanto da escrita de Stephen King. O cara manda muito bem e deve ser lido.

Já tive a oportunidade de falar sobre outro livro de contos do autor, Escuridão Total Sem Estrelas (Suma de Letras, 2015), este com apenas quatro histórias mais longas – e excelentes, por acaso. Aqui estamos falando de um livro com histórias de tamanhos e formatos variados – temos até algumas em forma de poema – e com avaliações, em minha opinião, variáveis. Em sua maioria, são histórias bem escritas – claro – e interessantes, além de divertidas daquele jeito que os fãs de King conhecem muito bem.

Como pontos negativos, alguns contos contam com um final razoável que não acompanham a qualidade da história e decepcionam, como “Vida após a morte” e “Moralidade”. Frustração talvez seja a melhor palavra. Outras não precisavam ser tão longas e se deter em detalhes como em “Blockade Billy”, já que é uma história que tem como ponto central o beisebol e isso faz com que a experiência de quem não tem familiaridade com o jogo seja mediana. Umas não têm nada do terror que você talvez espere encontrar como em “Batman e Robin têm uma discussão”, apesar de serem boas passagens.
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“Ele disse que foi uma alucinação
que vimos, provocada pela febre e pela água suja.
Disse de novo que nossas fortunas estavam garantidas e riu.
O filho da mãe, aquela gargalhada foi o fim dele.
Eu vi que ele estava louco – ou eu estava – e que um de nós
teria que morrer” (A igreja de ossos, p.175)

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Como pontos positivos, vemos estilos diferentes de escrita utilizados por King, propositalmente, como em “Tommy” e “A igreja de ossos” – em forma de versos – e em “Fogos de artifício e bebedeira” – com uma linguagem mais caipira e popular. Esta última, uma das mais divertidas, por sinal. Temos uma riqueza de detalhes que nos faz mergulhar em alguns contos e uma criatividade que diverte e impressiona como em “O pequeno deus verde da agonia” – comicamente terrível –, “Garotinho malvado” – para quem odeia crianças malvadas, essa é excelente – e “Herman Wouk ainda está vivo” – duas histórias se alternam e se encontram no final. Outros contos entre os meus favoritos são “A duna” e “Indisposta”, ambos meio macabros, tristes e inusitados.

Quanto à publicação em si, a Suma de Letras acerta no tipo de papel, nas fontes e na edição, de modo geral. No entanto, a capa não agradou. Não sei se são as cores, a imagem ou o conjunto, mas outras publicações de King como “Novembro de 63”, “Joyland” e “Escuridão Total Sem Estrelas” são tão legais que, ao compararmos, “O Bazar dos Sonhos Ruins” ganha uma nota apenas um pouco acima da média no quesito beleza. Entretanto, nada que prejudique a experiência. Ele ainda merece um espaço na sua estante.

Por fim, um livro de contos de King é um belo exemplo de como construir histórias curtas e ter, como resultado, pequenas travessas de diversão, boa escrita, ficção e um terrorzinho de leve. Você pode degustar aos poucos e ou se empanturrar de uma só vez, não interessa. O banquete está servido e a satisfação é garantida.

(Imagem: Rodrigo Padrini Monteiro)

Título: O Bazar dos Sonhos Ruins
Autor: Stephen King
Tradução: Regiane Winarski
Editora: Suma de Letras
Páginas: 527

SNOPSE –  Mestre das histórias curtas, o que Stephen King oferece neste livro é uma coleção generosa de contos – muitos deles inéditos no Brasil. E, antes de cada história, o autor faz pequenos comentários autobiográficos, revelando quando, onde, por que e como veio a escrever (ou reescrever) cada uma delas. Temas eletrizantes interligam os contos; moralidade, vida após a morte, culpa, erros que não cometeríamos se pudéssemos voltar no tempo… Muitos deles são protagonizados por personagens no fim da vida, relembrando seus crimes e pecados. Outros falam de pessoas descobrindo superpoderes – como o colunista, em “Obituários”, que consegue matar pessoas ao escrever sobre suas mortes. Incríveis, bizarros e completamente envolventes, essas histórias formam uma das melhores obras do mestre do terror, um presente para seus Leitores Fiéis.

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