NETFLIX | Caixa de Pássaros recicla medos que você já assistiu

[Imagem: Divulgação Netflix]

 

Por Rogério Christofoletti – As festas de fim de ano estão aí e, desta vez, elas podem representar um verdadeiro terror pra muita gente. Talvez por isso e para preparar o espírito, a Netflix lançou “Caixa de Pássaros”, adaptação para a telinha do livro de Josh Malerman, que no Brasil saiu pela Intrínseca. Um filminho de medo sempre cai bem, e este até entretem, embora possa decepcionar públicos mais exigentes ou experientes. Um dos motivos é que viciados no gênero podem ter diversos déjà-vu ao longo dos 124 minutos da atração.

Na trama, somos testemunhas de estranhos acontecimentos que remetem a um tipo de fim do mundo: sem razão aparente, pessoas mudam repentinamente de comportamento e passam a se matar. Esses suicídios em massa se espalham por todo o planeta, e acompanhamos a jornada de um punhado de personagens no interior dos Estados Unidos. Entre eles, a arredia e durona Malorie, bem interpretada por Sandra Bullock, que está desagradavelmente grávida. O advérbio é por conta dela, já que a personagem demonstra seu desgosto em grande parte do filme.

Jogando com o passado e o presente, a diretora dinamarquesa Susanne Bier nos leva ao início da terrível epidemia social e a cinco anos depois, quando Malorie está fugindo pelas corredeiras de um rio com duas crianças. Todas estão vendadas e se orientam por outros sentidos: quem fica de olhos abertos para o mundo simplesmente enlouquece e morre!

 

 

A angústia de uma mãe que tenta salvar a prole e as dúvidas sobre que mal está causando aquele caos são as âncoras emocionais do filme, e garantem doses bem definidas de drama e suspense à história. Mas como eu disse: você já viu isso, não é mesmo?

 

“Caixa de Pássaros” é um shake com ingredientes bem conhecidos do cinema e da literatura de horror, suspense e ficção científica.

 

O lançamento da Netflix tem um quê de “O Nevoeiro” (livro de Stephen King que já virou filme e minissérie em 2007 e 2017), pois nos coloca diante do que se pode chamar de um terror de atmosfera. Mas tem também bastante de “Um Lugar Silencioso”, lançado em abril deste ano, com direção precisa de John Krasinski, que atua ao lado da mulher, a talentosa Emily Blunt. Afinal, estamos no pós-apocalipse e temos uma família que luta bravamente para sobreviver tendo que abdicar de um dos sentidos. Mas não para por aqui: “Caixa de Pássaros” remete à “Guerra Mundial Z” (2013), “Fim dos Tempos” (2008) e até a “Eu sou a lenda” (2007), só para ficarmos nas referências mais explícitas.

Esses parentescos podem incomodar à medida que o thriller fica não só previsível, mas as soluções aos enigmas apresentados, cada vez mais reduzidas. É verdade que nem todas as questões devem ser respondidas em obras do gênero – afinal estamos falando do sobrenatural -, mas dar contornos mais nítidos a motivações dos personagens e pistas sobre as bases da trama é necessário. A falta de respostas em “Caixa de Pássaros” pode ser outro fator de desconforto ao espectador. Sei lá, talvez não queiram que a gente veja. Melhor fechar os olhos.

 

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Rogerio Christofoletti

Jornalista, dramaturgo e professor universitário. Já publicou 11 livros na área acadêmica e escreveu oito peças de teatro. É um dos autores do e-book "Os Maiores Detetives do Mundo" (Chris Lauxx).

2 comentários em “NETFLIX | Caixa de Pássaros recicla medos que você já assistiu

  • 29 de dezembro de 2018 em 2:51 am
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    À parte, os medos “reciclados”, há uma interessante metáfora no filme.

    Não é um filme excepcional, mas independente disso, o “modus operandi”, deixa transparecer uma mensagem cristã sobre o mal, sobre a cooperação com o mal e a rejeição ao mal.

    Agora, com Spoiler:

    Algumas pessoas estão de costas para o perigo por todo o tempo ( os cegos ) e isso, é para eles a salvação, e outras, ( as vítimas ) só desse modo se salvam e já o fazem intuitivamente. Outras, ( os loucos ) cooperam voluntariamente com o mal.

    O mais interessante é ver como esses três grupos se relacionam com o perigo. A mensagem é nítida. Não sei se foi essa a intenção da diretora.

    Interessante notar que aqueles que cooperam com o mal ( os loucos ), não são tentados a praticá-lo (suicídio) e isso lhes confere uma aparente liberdade, mas na verdade, já foram de outra forma, possuídos pelo mal.

    Vejo aí, uma alegoria da Salvação Cristã.

    Um ‘Lugar Silencioso”, que ainda não assisti, mas já li em artigos, que também tem por outros meios, uma mensagem religiosa.

    Boa Noite!

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  • 29 de dezembro de 2018 em 11:53 am
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    É uma interessante leitura, Eduardo!
    No comentário que escrevi, tentei me manter na superfície da obra, naquilo que é mais aparente e pretensamente realista mesmo. Mas sua interpretação adiciona novas camadas de entendimento à atração. Valeu! 🙂
    PS 1 – Assista a Um Lugar Silencioso. É um bom terror. Conciso e intenso.
    PS 2 – Se você aprecia metáforas religiosas, não deixe de ver Mãe, com a Jenifer Lawrence e o Javier Barden.
    Que em 2019 vc encontre ótimos livros e filmes!

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