Por que eu detestei Cai o Pano, último livro de Poirot
ATENÇÃO: ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS DE CAI O PANO E DO FIM DE HERCULE POIROT
Posterguei por décadas a leitura de Cai o Pano (Curtain), último romance que Agatha Christie escreveu com Hercule Poirot, numa tentativa quase infantil de evitar o inevitável. Enquanto o livro ficasse fechadinho lá na estante, Poirot continuaria vivo, continuaria resolvendo seus casos de forma brilhante, organizando suas células cinzentas e impondo ordem ao caos moral que sempre definiu seu universo.
Mas chegou o momento inevitável. Finalmente criei coragem para ler o bendito livro e colocar um ponto final nessa história. Muito me surpreendeu a reação que tive nas páginas finais: esperava tristeza, recebi decepção profunda.
A morte de Poirot sempre foi um fato conhecido. Desde outubro de 1975, quando Cai o Pano foi publicado, o mundo sabe que Agatha Christie decidiu encerrar definitivamente a trajetória do detetive. Então a morte de Poirot era inevitável; o que me revoltou foi o caminho que Agatha escolheu para chegar até ela.
Nas últimas páginas, descobrimos que Hercule Poirot, o homem que dedicou a vida inteira à defesa da justiça, comete um assassinato.
Durante mais de cinquenta anos de publicações, Poirot foi construído como alguém que acreditava profundamente na responsabilidade moral individual. Ele não foi meramente uma máquina de solucionar enigmas, ele foi um juiz informal da consciência humana. Em muitas investigações, Agatha permitiu que Poirot debatesse os limites da lei, da culpa, da punição. Em alguns casos famosos, como Assassinato no Expresso do Oriente, ele até aceitou soluções moralmente ambíguas. Só que ele nunca havia atravessado pessoalmente a linha que separa investigador e executor.
Em Cai o Pano, ele atravessa.
O antagonista do livro, um tal de Stephen Norton, é um homem que surge praticamente do nada para ocupar um lugar que a série jamais preparou para ele. Christie tenta transformá-lo numa espécie de nêmesis definitivo, um manipulador psicológico capaz de induzir pessoas comuns ao assassinato sem jamais sujar as próprias mãos. Forçado, artificial, preguiçoso.
Norton não tem o peso narrativo de um Moriarty, não é alguém que acompanhou a trajetória de Poirot, não representa uma ameaça construída ao longo dos livros. Ele aparece só para cumprir uma função específica: criar uma situação extrema que justifique o impensável.
Então esse impensável acontece, quando Poirot decide que a única forma de impedir novos crimes é matando Norton. Você, fã dos livros de Poirot, consegue acreditar que ele agiria assim? Eu não consigo. Não parece uma evolução natural do Poirot que conhecemos, mas sim uma decisão amarga da autora.
Grandes finais costumam surgir organicamente daquilo que os personagens são. Em Cai o Pano, a impressão é de que Agatha Christie força Poirot a agir contra sua própria história e natureza para servir a uma tese que ela tentou defender. O assassinato não nasceu de Poirot, ele foi imposto a ele.
Talvez isso não seja surpreendente quando a gente lembra da relação da autora com seu detetive. Agatha Christie achava Poirot um ser insuportável, irritante, egoísta. Em sua autobiografia, ela admitiu que não gostava do detetive belga, tal qual Conan Doyle com seu Sherlock Holmes.
O livro foi escrito durante a Segunda Guerra Mundial e guardado por décadas em um cofre, destinado a ser publicado apenas depois de sua morte. Era uma despedida planejada, quase como um acerto de contas. Agatha não apenas mata Poirot, ela o condena.
Ao transformar Poirot em um assassino, mesmo que por razões apresentadas como “nobres”, ela altera retrospectivamente a percepção de toda a trajetória dele. O homem que passou décadas perseguindo criminosos termina sua vida como um deles. Isso é triste demais.
O livro tem seus méritos, mesmo que a estrutura pareça a de uma casa torta. A decadência física de Poirot, sua vulnerabilidade e a certeza de que o fim está chegando produzem momentos de grande força emocional.
Se a história tivesse terminado com sua morte, provavelmente seria lembrada como uma despedida digna. Poirot merecia partir como aquilo que sempre foi: um homem imperfeito, vaidoso, teimoso e frequentemente insuportável, mas profundamente comprometido com a ideia de justiça.
Transformá-lo em assassino foi apenas cruel.
SOBRE O LIVRO
Em sua última missão juntos, Hercule Poirot e o Capitão Hastings enfrentam o mistério mais difícil de suas vidas: quem é o assassino X? O reencontro da dupla acontece na mansão Styles, o mesmo lugar onde investigaram seu primeiro crime no passado, agora transformado em hospedaria. O que deveria ser uma estadia calma vira uma investigação intensa quando eles percebem que cinco casos antigos têm um ponto em comum: X, um dos hóspedes atuais. Escrito durante a Segunda Guerra Mundial, mas guardado em um cofre até 1975, Cai o Pano é a despedida do detetive mais famoso de Agatha Christie.
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Ana Paula Laux é jornalista e trabalha com curadoria de informação, gestão de mídias sociais e criação de conteúdo digital. Em 2014, lançou o e-book “Os Maiores Detetives do Mundo” (Chris Lauxx). Contato: [email protected]



