EXCLUSIVO: Cara Hunter fala sobre Adam Fawley, Agatha Christie e novo livro, Toda a Fúria
Em entrevista ao Literatura Policial, em parceria com a Editora Trama, escritora britânica fala sobre a criação de seu detetive, casos reais que inspiraram seus livros e sua relação com os leitores brasileiros
Entrevista exclusiva do Literatura Policial em parceria com a Editora Trama
Cara Hunter transformou as ruas aparentemente tranquilas de Oxford em cenário para desaparecimentos, assassinatos e investigações que conquistaram leitores de thrillers policiais em diversos países. Autora da série protagonizada pelo detetive Adam Fawley, a escritora britânica ficou conhecida também por uma característica pouco convencional: suas histórias misturam a narrativa tradicional a mensagens, postagens em redes sociais, notícias, documentos policiais e outras pistas que permitem ao próprio leitor participar da investigação.
No Brasil, a história começou com Onde está Daisy Mason?, primeiro livro da série de Adam Fawley, publicado pela Editora Trama. Nele, uma menina de oito anos desaparece durante uma festa na casa da família e Fawley precisa descobrir como uma criança conseguiu sumir sem que aparentemente ninguém tivesse visto nada. O livro foi indicado a Crime Book of the Year no British Book Awards de 2019.
Depois vieram Em um Porão Escuro e Sem Saída, ampliando o universo do investigador e de sua equipe em Oxford. A série já conta com seis livros publicados.
Agora, os leitores brasileiros recebem o quarto caso de Fawley: Toda a Fúria, publicado originalmente como All the Rage.
Conheça todos os livros de Cara Hunter
Uma adolescente escapa de um sequestro, mas não quer contar tudo
Em Toda a Fúria, uma adolescente é sequestrada e agredida, mas consegue escapar. A polícia acredita que ela possui uma informação fundamental: a jovem parece saber quem a atacou, mas se recusa a revelar o que sabe.
Sem sua colaboração e sem provas suficientes para avançar, a investigação chega a um impasse. A situação muda quando outra jovem desaparece em circunstâncias semelhantes.
Adam Fawley começa então a perceber um padrão, e a investigação acaba se aproximando de algo enterrado em seu próprio passado.
É justamente a trajetória de Fawley, porém, que guarda uma curiosidade: quando Cara Hunter escreveu sua primeira história, ela nem sequer imaginava que estava criando o protagonista de uma série.
Em entrevista exclusiva ao Literatura Policial, realizada em parceria com a Editora Trama, Cara Hunter falou sobre a origem do personagem, sua forma incomum de escrever thrillers, a influência de Agatha Christie, crimes reais que chegaram à ficção e sua experiência com os leitores brasileiros.
Compre o livro Toda a Fúria aqui
Leia a entrevista
Literatura Policial — Como surgiu o detetive Adam Fawley? Houve alguma pessoa, policial ou experiência real que tenha influenciado a criação do personagem?
Cara Hunter: Quando escrevi Onde está Daisy Mason?, nunca pensei que seria uma série. Achei que seria um livro único. Então, enquanto escrevia, meu foco estava apenas naquela história e, como ela envolvia uma criança desaparecida, eu sabia que teria de haver uma investigação policial.
Adam começou, portanto, como o “policial necessário”, uma espécie de mecanismo para fazer a trama funcionar. Ele certamente não foi baseado em uma pessoa real. Naquela época, eu nunca tinha conhecido um policial de verdade.
Decidi logo no início que Adam falaria diretamente, em primeira pessoa, e, como resultado disso, sua personalidade acabou se desenvolvendo muito mais. Tive muita sorte de criar alguém com quem os leitores parecem se identificar, porque minha primeira editora no Reino Unido imediatamente quis transformar o livro em uma série!
E, a cada novo livro, descubro mais sobre ele e sobre seu passado.
Literatura Policial — Seus livros utilizam mensagens de WhatsApp, postagens em redes sociais, notícias e documentos policiais como parte da narrativa. Você acha que esse formato mudou permanentemente a maneira como os romances policiais modernos são escritos?
Cara Hunter: Quando comecei, pouquíssimos escritores faziam isso, então acho que fui um pouco pioneira! Eu adoro fazer isso e, quanto mais incluo esses elementos, mais os leitores pedem.
O que gosto especialmente é que isso permite que os leitores se tornem detetives também, eles recebem a “matéria-prima” do caso e podem chegar às próprias conclusões.
Além disso, torna a experiência de leitura mais variada e visualmente interessante.
Eu mesma também faço toda a parte gráfica. Sou extremamente exigente para que tudo fique exatamente como quero, então seria péssima se tivesse que pedir para outra pessoa fazer isso por mim!
E, claro, em Assassinato na Família, levei essa ideia ao extremo e me retirei completamente da narrativa. Foi muito divertido, um verdadeiro desafio desenvolver personagens apenas por meio de diálogos, mas adorei fazer isso.
Literatura Policial — Quando você começa um novo romance de Adam Fawley, já sabe exatamente quem é o culpado e como tudo termina ou a investigação também surpreende você enquanto escreve?
Cara Hunter: Nos livros de Fawley, sim. No começo, eu fazia sinopses incrivelmente detalhadas e a história geralmente seguia aquela estrutura, embora surgisse uma ou outra ideia nova durante o processo.
Com mais experiência, minhas sinopses ficaram menores, mas ainda conheço todos os elementos principais, incluindo o importantíssimo final!
Mas isso não aconteceu com Assassinato na Família. Foi completamente diferente. Tudo o que eu tinha era a premissa e os personagens. Eu não fazia ideia de quem era o assassino. Simplesmente sentei e comecei a escrever.
Isso nunca tinha acontecido comigo antes. Foi assustador e empolgante ao mesmo tempo, como pular de um penhasco esperando conseguir inventar um paraquedas durante a queda!
Literatura Policial — Você sempre foi apaixonada por romances policiais? Quais autores tiveram maior influência na sua formação como escritora?
Cara Hunter: Sempre foi um dos meus gêneros favoritos. Acho que todos nós adoramos um mistério, queremos descobrir o segredo, saber o que aconteceu e por quê.
Li praticamente toda a obra de Agatha Christie durante minha adolescência, e foi uma grande escola sobre como estruturar um romance policial satisfatório enquanto se mantém o culpado bem diante dos olhos do leitor.
Literatura Policial — Você tem muitos leitores brasileiros. Existe algo no Brasil, na nossa cultura, nos leitores ou até algum lugar específico do país que desperte sua curiosidade ou que gostaria de conhecer?
Cara Hunter: Estive na Bienal do Rio no ano passado e adorei. É a cidade mais bonita que já visitei, e as pessoas são muito acolhedoras e apaixonadas pela leitura.
Vocês pensam sobre livros, conversam sobre livros e são leitores muito sofisticados de literatura policial. Foi inesquecível.
Espero muito, muito poder voltar. Talvez novamente ao Rio no ano que vem. Conheci apenas uma pequena parte do país, então ainda há muita coisa para descobrir!
Literatura Policial — Entre todos os personagens que você criou, existe algum que ainda tenha muito a contar e que talvez os leitores não conheçam tão bem quanto imaginam?
Cara Hunter: Bem, a resposta óbvia era Daisy Mason. Muitos leitores do mundo inteiro continuavam me pedindo para contar mais sobre ela e sobre o que realmente aconteceu e, no fim, eu contei!
Makin’ a Killing é uma continuação de Onde está Daisy Mason? e acho que deve chegar em breve ao Brasil. Adoraria saber o que vocês vão achar!
Literatura Policial — Algum caso real já inspirou um detalhe importante de um livro ou você prefere manter certa distância entre realidade e ficção?
Cara Hunter: Muitas vezes! Na maioria delas, um caso criminal verdadeiro funciona como a faísca para a ideia de um livro.
Por exemplo, em Em um Porão Escuro, a história foi inicialmente desencadeada pelo terrível caso Josef Fritzl, na Áustria, enquanto Sem Saída se inspirou em um caso real de familicídio no Reino Unido.
Mas o livro que mais se aproxima de um caso verdadeiro é Hope to Die, inspirado no caso de Keli Lane, uma jovem australiana condenada pelo assassinato de seu bebê, embora o corpo nunca tenha sido encontrado.
É um caso extraordinário, o tipo de história muito mais estranha do que a ficção e em que ninguém acreditaria se não tivesse realmente acontecido.
Espero que esse livro também chegue em breve ao Brasil.
Toda a Fúria amplia o universo de Adam Fawley
As respostas de Cara Hunter nos ajudam a entender como o detetive Adam Fawley deixou de cumprir só uma função narrativa em Onde está Daisy Mason? para se tornar um personagem capaz de sustentar uma série literária. O que nasceu como necessidade da trama ganhou passado, conflitos e uma identidade que a própria autora foi descobrindo à medida que ia avançando nos livros.
Em Toda a Fúria, o quarto romance da série, essa construção parece chegar a um ponto especialmente crucial. O desaparecimento de uma segunda jovem amplia uma investigação inicialmente circunscrita a um ataque, ao mesmo tempo que desloca o caso para um terreno mais íntimo: o passado do próprio detetive Fawley.
É justamente nessa combinação entre investigação e personagem que Cara Hunter encontra uma das forças de sua ficção. Seus romances preservam o prazer clássico de procurar pistas, desconfiar de versões e tentar antecipar uma solução, mas incorporam à narrativa a linguagem fragmentada do presente: mensagens, documentos, notícias e redes sociais. O resultado aproxima o leitor do trabalho policial sem abandonar aquilo que Agatha Christie, influência assumida pela escritora, dominava tão bem: esconder respostas à vista de todos.
Toda a Fúria chega não apenas como mais um caso para Adam Fawley solucionar, mas como parte da consolidação de um universo que surgiu quase por acaso. Cara Hunter não planejava uma série quando criou o investigador. Talvez seja justamente por isso que sua trajetória pareça menos programada e mais orgânica: livro após livro, o detetive Fawley continua sendo investigado também por quem o escreve.
Nota editorial: O texto de apresentação e a edição desta matéria passaram por revisão com auxílio de inteligência artificial. As respostas da entrevistada foram integralmente preservadas em seu conteúdo. Este conteúdo pode conter links de afiliados. Ao comprar por meio deles, o Literatura Policial pode receber uma pequena comissão, sem nenhum custo adicional para você. [Imagens: Divulgação Editora Trama]
Share this content:

Ana Paula Laux é jornalista e trabalha com curadoria de informação, gestão de mídias sociais e criação de conteúdo digital. Em 2014, lançou o e-book “Os Maiores Detetives do Mundo” (Chris Lauxx). Contato: [email protected]

