resenha

A Dona de Casa Perfeita: aparência e ilusão

Sabe quando você olha um perfil nas redes sociais e pensa: “ninguém pode ser tão perfeito assim”? A Dona de Casa Perfeita, da Liane Child, começa exatamente nesse incômodo.

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Esse livro se vende como um suspense, mas na verdade vai além disso. É uma história que cutuca a ideia de vida perfeita, de papel feminino idealizado e do peso das expectativas que a sociedade coloca nas mulheres.

A protagonista é Madison March, uma influenciadora com milhões de seguidores que encarna a “tradwife” (esposa tradicional) dos sonhos: acorda cedo, faz pão artesanal, cuida da horta, cria os filhos com dedicação total e apoia o marido no rancho.

O feed dela parece uma propaganda de margarina porque tudo é organizado, harmonioso, inspirador. Perfeito demais, né? É porque não é.

Quando uma nova professora entra na vida da família March, começam a surgir rachaduras nessa imagem impecável. Um segredo do passado ameaça desmontar tudo o que foi cuidadosamente construído pela Madison, e só aí o suspense começa a prevalecer.

A questão é que Madison não vive só uma rotina, ela interpreta um papel, um papel que é curtido, compartilhado e desejado por milhões de mulheres que não percebem que tudo aquilo é um teatro. E a história mostra como uma vida editada pode ser tão perigosa quanto uma mentira explícita, porque cada foto perfeita esconde uma camada a mais de ilusão.

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A maior tragédia talvez nem seja o final, que é um tanto inesperado (e meio forçado), mas a romantização do modelo de “esposa perfeita” que não representa o ideal da maioria das mulheres.

Já a escrita de Liane Child é fácil, flui bem, mas do começo até a metade ela prolonga situações além do necessário, dá a sensação de que a autora poderia ter sido mais direta e enxuta. E ainda há pontos difíceis de acreditar, especialmente na relação de Madison com a empregada e faz-tudo, como a questão dos filhos e do próprio motivo da amizade. Então este é menos um thriller envolvente e mais um drama psicológico com crítica social.

Um aviso necessário é que a história pode ativar gatilhos, como violência doméstica, abuso psicológico, manipulação emocional, pressão estética e relações tóxicas.

Madison não é uma personagem fácil de definir. Ela não parece alguém que existe só no livro, poderíamos esbarrar com alguém como ela na vida real. Tem horas em que ela é claramente manipuladora, faz escolhas bem questionáveis, e em outras parece presa na própria armadilha.

Mais do que tudo, ela é produto de um sistema que aplaude aparência perfeita a qualquer custo. Essa mistura de culpa e vítima é o que torna a história de Liane Child interessante.

Talvez você não termine impactado só pela reviravolta final, mas certamente vai fechar o livro pensando sobre o quanto a gente consome e acredita em narrativas de perfeição.

* Livro enviado ao perfil pela editora HarperCollins.

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SOBRE O LIVRO

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Madison March é uma influenciadora famosa que vende a imagem da “esposa tradicional perfeita”. Com milhões de seguidores, ela mostra uma rotina dos sonhos: pão artesanal saindo do forno, horta impecável, filhos brincando livres e o marido cuidando do rancho. Tudo parece perfeito. PARECE. Quando uma nova professora chega para ensinar as crianças, um segredo do passado começa a ameaçar essa fachada impecável da Madinson, e aí o suspense revela que, por trás de um feed bonito, pode existir uma história bem diferente…

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Literatura Policial

Ana Paula Laux é jornalista e trabalha com curadoria de informação, gestão de mídias sociais e criação de conteúdo digital. Em 2014, lançou o e-book “Os Maiores Detetives do Mundo” (Chris Lauxx). Contato: [email protected]

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