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Simenon entrevista Fellini


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Georges Simenon nasceu em 13 de fevereiro de 1903 em Liège, na Bélgica. Considerado um dos autores mais influentes do século 20, ele se destacou pela obra policial e principalmente por ter criado um dos detetives mais populares da literatura, o comissário Jules Maigret.

Reza a lenda que Simenon influenciou o júri do Festival de Cannes a dar a Palma de Ouro a Federico Fellini por “La Dolce Vita” em 1960. Verdade ou não, o fato é que eles trocaram cartas amistosas por anos e chegaram a se encontrar algumas vezes. Numa delas, em fevereiro de 1977, o escritor entrevistou o cineasta. Foi um diálogo memorável, publicado na revista L’Express.

O literaturapolicial.com traduziu trechos desta entrevista histórica, inédita em português.

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Simenon: Sabe de uma coisa? Nunca vou ao cinema…

Fellini: Nem eu.

Simenon: Apesar disso, tenho que dizer que chorei vendo “Casanova”, e isso nunca tinha acontecido.

Fellini: Muito obrigado.

Simenon: Queria ver contigo o papel do jornalista, se não se importa. Você tem consciência de que “Casanova” é uma obra-prima?

Fellini: É difícil responder a essa pergunta. Assim que termino um filme, o abandono com verdadeiro frenesi. Quero me separar dele e não voltar a me relacionar com ele. Por isso me é tão difícil ter um senso crítico e objetivo dos meus filmes. Adoro o que você diz, mas não posso julgar meus filmes.

Simenon: O que sente depois de terminada uma obra tão monumental? Está cansado, animado? Se sente aliviado?

Fellini: Na verdade, não consigo aproveitar o final de um filme por muito tempo. É que assim que começo, quero terminar, porque filmar é tremendamente duro e pesado. Assim que termino, não tenho tempo para descansar porque começo imediatamente outro. O vazio me produz um sentimento de total inutilidade. É um sentimento que você certamente conhece e já experimentou.

Simenon: Com certeza. Depois de escrever uma novela, passo dois dias de euforia completa, com champagne incluído. Passados os dois dias, digo a mim mesmo: Tudo isso não vale nada.

(…)

Simenon: Quando realmente começa um filme para você?

Fellini: Para mim, o filme começa no dia em que coloco anúncios nos jornais pedindo gente para trabalhar. Não atores, mas gente. Então, abro um escritório em algum lugar e espero. Logo chega uma procissão de loucos, loucas, rostos, corpos, narizes, uma gravata, um pé… Que exagere um pouco. Não acontece o mesmo com as suas novelas? Às vezes, tudo começa com um cheiro, uma direção, uma receita de cozinha.

Simenon: Eu, quando começo uma história, nunca sei como vai terminar.

Fellini: Nem eu sei com os meus filmes. Vejo as pessoas que cantam para mim, e dentro da minha cabeça, parece um tipo de canto da anunciação. Anoto muita coisa, muitas fotos e prometo a todos: “Estará no meu filme”. Por isso, me chamam de mentiroso, porque, evidentemente, não posso contratar todo o mundo. Esta fase é também o momento em que exerço mais sadicamente o meu poder. Por exemplo, peço mulheres gigantes. “Tragam-me todas as mulheres gigantes do país!” E elas chegam, fazem uma fila gigante de gigantas para falarem comigo. E eu, tão pequeno, atrás da minha pequena mesa, olho para a primeira e faço um gesto com a mão: “Não é giganta o bastante!” Depois dos anúncios e do casting, me ponho a desenhar e, aí, preciso começar. O filme não está completo. O roteiro não está terminado, não escolhi todos os atores, nem pensei todos os sets, mas tenho que começar. As duas primeiras semanas de filmagem são para mim uma viagem contraditória. Destino desconhecido. Depois, tenho a impressão de que não dirijo um filme, mas que ele me dirige e sabe perfeitamente para onde ir. Então, tento ficar disponível e aceitar as descobertas da viagem. Este precário equilíbrio entre aquilo que se queria fazer e o que realmente faz, esse desejo de fidelidade ao impulso inicial, é a única definição que sou capaz de dar ao meu trabalho. Quando leio as suas obras, aquelas que escreve como se tivesse falando, tenho a impressão de que estou escutando a mim mesmo. Me sinto absolutamente solidário com o que você diz sobre os problemas da criação artística.

Simenon: A única diferença é que estou sozinho e você, acompanhado de centenas de pessoas. É mais difícil pra você.

(…)

Simenon: Sabe o que me disse o Charlie Chaplin um dia?

Fellini: Sim, eu li em uma das suas obras. Chaplin disse: “Nem você nem eu somos pessoas neuróticas porque, quando estamos muito angustiados, você escreve um livro e eu faço um filme”.

Simenon: Posso dizer o que penso do seu “Casanova”? Você conseguiu, com esse afresco, um dos mais belos filmes da história do cinema, uma verdadeira psicanálise da humanidade. Você é um “poeta maldito”, como Villon, Baudelaire, Van Gogh ou Edgar Allan Poe. Chamo “poeta maldito” a todos os artistas que trabalham muito mais com seu subconsciente que com a razão. São aqueles que, mesmo querendo, não poderiam fazer diferente do que fazem. São aqueles que, às vezes, criam monstros, mas são monstros universais. Seu filme me faz pensar em Goya, outro “poeta maldito” que, apesar disso, era um pintor da Corte. E ela gostava da sua obra, apesar de ser uma obra puramente trágica. Você também mostrou a Corte: Veneza, as festas, as comidas, os bailes… Contudo, tanto na sua obra quanto na de Goya, por trás de todos os risos, passeia a morte. Seu afresco é também uma forma de mergulhar nas profundidades humanas.

Fellini: Você também fez um afresco. Sua obra inteira é um autêntico afresco.

Simenon: Não. Eu nunca consegui. Só consegui fazer um mosaico: pequenas peças, só pequenas peças, uma ao lado das outras.

Fellini: Contudo, nas suas obras, você se ocupa das desgraças daqueles que chama de “homens pequenos”. Eu, ao contrário, tenho o sentimento de não ter me interessado nada além de mim mesmo.

Simenon: Pode ficar tranquilo porque o mesmo acontece comigo. Me atormento sobre isso de uma forma incrível. Por isso, quando me aposentei e senti que já não sobravam forças para criar personagens, decidi não usar mais intermediários entre o público e eu. Desde então, dito essa espécie de Diário. E quanto mais dito, mais me dou conta de que não criei nada de nada. A única coisa que fiz foi exteriorizar a mim mesmo. Nisso, somos irmãos. Talvez pela capacidade de partir do particular para o geral.

(…)

Simenon: Sabe de uma coisa? Acho que fui mais Casanova que você. Tive 10 mil mulheres desde os 13 anos. E não se trata de nenhum vício. Não tenho nenhum. Trata-se simplesmente da necessidade de me comunicar. Incluo aí as 8 mil prostitutas entre as 10 mil mulheres e fêmeas em geral. Quisera conhecer todas as fêmeas. Desgraçadamente, por causa dos meus casamentos, tive que abrir mão de muitas aventuras. Incrível as vezes em que poderia ter feito amor! De todas as formas, por mais que se busque o contato humano, nem sempre se encontra. O que se encontra é o vazio, ou não?

Fellini: O que quer se faça, não se encontra a paz.

Simenon: Mas a paz não existe. É algo que inventamos. É o que mantém o Papa no lugar, porque ele promete a paz da alma e do coração. “Agora sois desgraçados, mas no céu cantareis Hosanna com os anjos”. A paz foi o principal engano das religiões. Nada pode nos determinar. Somos um ínfimo momento da evolução do homem, um que ser que está evoluindo há 20 milhões de anos e, desde então, passou de ostra ao que é hoje. Como vamos ter paz?

Fellini: É evidente que não podemos ser otimistas.

Simenon: Como ser otimistas se temos raízes neste mundo?

Fellini: Você não tem o sentimento de ter feito algo?

Simenon: Não. Meu sonho era ter uma pequena casa numa rua tranquila, cheia de comércios, e escrever para sobreviver. Era ver passar a vida sob a minha janela. Nunca fui ambicioso.

Fellini: No final, tanto você quanto eu, só contamos fracassos. Todas as novelas de Simenon são a história de um fracasso. E os filmes de Fellini? Que são, senão histórias de fracassos? Contudo, quando se termina um de seus livros, que quase sempre terminam mal, você tira dele uma nova energia. Creio que isso é a arte: a possibilidade de transformar o fracasso em vitória, a tristeza em felicidade. A arte é um milagre.

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Esta entrevista e cartas trocadas entre os artistas durante anos foram reunidas em “Carissimo Simenon: Mon Cher Fellini”. Compre pela Amazon

* Com colaboração de Mario Prata.
(Fontes: Fellini: His life and work)
(Imagem: autograph.com)

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