A grande arte, de Rubem Fonseca

Por Murilo Reis – Há consenso entre críticos e leitores de que a obra de Rubem Fonseca ocupa lugar de destaque na literatura brasileira (embora ele não tenha demonstrado a mesma força de outrora em seus livros mais recentes). Seu imaginário criou personagens marcantes, sobreviventes num submundo violento habitado por policiais, criminosos, artistas, miseráveis, advogados, escritores. Sua narrativa ágil tem como base a concisão da literatura policial norte-americana. Na bibliografia básica do autor, não poderia faltar A grande arte, romance publicado originalmente em 1983.

 

Uma mulher é brutalmente assassinada. Como única pista, a letra P é riscada à faca no rosto da vítima

 

A partir daí, outros assassinatos ocorrem, despertando a atenção do advogado Paulo Mandrake. Personagem clássico na obra de Fonseca e famoso por seu cinismo e erudição, começa a investigar o caso, sendo conduzido para o centro de uma misteriosa organização criminosa.

Porém, Mandrake não possui a capacidade dedutiva de detetives como C. Auguste Dupin ou Sherlock Holmes. Falível, descuidado e movido pelo ódio, atrapalha investigações da polícia federal, sendo levado a uma série de caminhos sem saída que não apontam para a solução do caso. Seu fraco por mulheres não ajuda sua empreitada. Ada, Bebel, Mercedes e Lilibeth, namoradas que povoam a vida de um homem solitário, tentam trazer para si alguém insatisfeito por natureza.

 


Lima Prado, Nariz de Ferro, Mateus, Rafael e Professor são criminosos anônimos, gangsteres sem glória que exercem sua violência nas sombras onde vivem os miseráveis oprimidos pelo capitalismo. Estão longe dos holofotes da imprensa e autoridades, ao contrário do que fariam Al Capone ou Charlie Luciano. Mestres que sofrem mortes violentas, porém honrosas, são enterrados como indigentes. Enfrentam aliados que viram inimigos, como Camilo Fuentes. Boliviano implacável, movido por um ódio frio, vive num país que hostiliza pessoas com aparência indígena como a sua. Travam uma silenciosa e sangrenta guerra de facas. O manejo de armas brancas é elucidado de maneira quase acadêmica.

Nos romances policiais de Raymond Chandler, há um único foco narrativo. Narrada por Mandrake, A grande arte sofistica o gênero com alternâncias na focalização, adicionando protagonistas, antagonistas e anti-heróis à história.

No aniversário de 90 anos de Rubem Fonseca, é um livro que deve ser lembrado não apenas por ser dos principais na obra do autor, mas como parte dos maiores na literatura brasileira contemporânea.

 

 

arte

Título: A grande arte
Autor: Rubem Fonseca
Páginas: 304
Editora: Companhia das Letras
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SINOPSE: Apenas a letra P, traçada a ponta de faca no rosto de uma prostituta assassinada. “Não haveria impressões digitais, testemunhas, quaisquer indícios que o identificassem. Apenas sua caligrafia. ” Para decifrar essa escrita perversa, o advogado Mandrake – um dos grandes personagens da literatura brasileira contemporânea – lança-se em uma frenética aventura pelo lado sombrio da metrópole, enquanto de mão em mão as facas cumprem sua faina silenciosa e mortal. Por meio de uma narrativa em que se entrelaçam a trama policial, os círculos da alta sociedade, o submundo do crime e o desejo sexual, Rubem Fonseca compõe um grande romance, tão preciso e contundente em sua arte quanto uma aguçada lâmina de aço.

 

MURILO REIS – Graduado em Letras, é viciado em jornalismo, literatura, histórias em quadrinhos, cinema e música. Twitter

 

Um comentário em “A grande arte, de Rubem Fonseca

  • março 11, 2018 em 10:31 pm
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    Foi o livro que me fez me apaixonar pela obra do autor.

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