resenha

Zulu, de Caryl Férey


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Por Rogério Christofoletti – Um francês que escreve um policial sul-africano, com uma pegada mais violenta que os novos autores nórdicos. Este é um resumo apressado para definir “Zulu”, que chega agora às livrarias brasileiras (Ed. Vestígio). Um desembarque atrasado, já que Caryl Férey lançou o livro em 2008 na França e com ele levou o Grand Prix de Littérature Policière, o Mystère de la Critique e o Grand Prix du Roman Noir Français, só pra citar os mais importantes.

Apesar desse intervalo, “Zulu” não perde a força e a potência. É um romance policial robusto, repleto de personagens atormentados, cenas de ação, reviravoltas, e um punhado de pequenos e grandes mistérios. Nas pouco mais de 300 páginas, somos atirados à violenta realidade da África do Sul, nação que anseia por se reinventar depois de décadas de apartheid. Não é apenas o sonho de igualdade racial que move o país, mas a condição de sediar em poucos anos a copa do mundo de futebol, vitrine inédita no continente. Uma chance em mil…

Neste clima, na Cidade do Cabo, a filha de um ídolo do rugby é encontrada morta, com marcas de violência e uma misteriosa droga em seu organismo.

Detalhe um: a vítima é branca.
Detalhe dois: o rugby é o esporte nacional, tendo sido usado inclusive por Mandela como uma possibilidade de reunificação do país.
Detalhe três: há suspeita de estupro.

Para investigar o caso, Férey coloca em cena uma dupla de detetives que é a cara da nova África do Sul: Ali Neuman – um chefe de polícia negro, de origem zulu– e Brian Epkeen – um investigador africânder, o que em bom português quer dizer branco, descendente dos europeus colonizadores. É uma união de caráter simbólico, mas que ajuda a refletir a fragmentação daquela realidade. Se no século 19, os zulus eram os guerreiros que resistiram à invasão dos britânicos e dos bôeres, agora, convivem e compartilham as tarefas de apaziguar o país. Sim, porque embora o apartheid não exista mais, milícias, mercenários e outros grupos criminosos insistem em botar fogo no circo…

Caryl Férey é muito habilidoso ao apresentar seus personagens, untando-os com temperos variados. Neuman é o policial justo, durão, de poucas palavras. Epkeen tem uma vida pessoal totalmente desorganizada, e sua relação com a ex-mulher e o filho universitário está longe de ser amistosa. Neuman se preocupa com a mãe cega, que fica lhe arrumando namoradas. Epkeen mal lembra do nome das mulheres com quem dorme. Neuman guarda segredos dos tempos em que disputas políticas tribais perseguiram e mataram seu irmão e o pai. Epkeen revela uma qualidade notável no texto do autor: ele protagoniza os melhores diálogos, com falas cortantes, humor inteligente e ironia devastadora.

Enquanto acompanhamos a dupla de detetives, somos apresentados a alguns dos nove infernos de Dante. A tensão racial faz parte do solo calcinado daquele país. A cidade se equilibra em diversos aglomerados urbanos, com seus barracos e insalubridades, que mais se parecem guetos e que funcionam como parentes em primeiro grau das nossas favelas. A violência é endêmica, como a AIDS, que contamina quase um quinto da população, conforme as estatísticas oficiais. Os números são assustadores também quando se fala dos estupros e da quantidade de armas nas mãos dos civis. Some-se a isso a selvageria que naturaliza mutilações físicas, o tráfico de drogas, gangues bárbaras, rituais religiosos ancestrais, e o hábito de exterminar parentes como vingança pessoal. É um barril de pólvora, a ponto de alguém se perguntar no romance: “Como a primeira democracia da África podia ser também o país mais perigoso do mundo?”

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Neuman e Epkeen não se atrevem a responder. Há mais um corpo estendido no chão. Mais uma jovem branca, filha de um símbolo nacional, violentada e encharcada com a desconhecida droga sintética. Desviando de balas e de cadáveres, os policiais percebem que a ganância internacional e o ódio não sepultado também concorrem para um banho de sangue nacional. Caryl Férey não poupa o leitor da crueldade das milícias e da maldade que transborda do coração dos homens. “Zulu” vomita violência. Não é um retrato de uma terra devastada, mas um fotograma devastador de uma terra que ainda convulsiona. Como se as feridas raciais e a instabilidade política fossem vulcões fervilhantes de lava, prestes a tossir. Curioso é que as palavras são caprichosamente escolhidas para qualificar e descrever personagens, esculpindo honra e caráter em madeira de lei. A delicadeza e a elegância da escrita de Férey contrastam com as vielas infectas, os bairros violentos e as ruas insalubres e miseráveis.

O vigor da narrativa reside um pouco na brutalidade com que esses personagens se cruzam, e como vamos nos apiedando de suas próprias fragilidades. Como disse, Férey não evita que levemos um, dois, três socos na boca do estômago. A versão cinematográfica de “Zulu” – de 2013 e tendo Forest Whitaker e Orlando Bloom como protagonistas – é mais complacente com o público. Férey gostou do resultado, mas seu livro é infinitamente mais cru, complexo e impiedoso.

A versão que chega – finalmente! – ao Brasil se vale do filme na capa e tropeça um pouco na tradução. No início, as palavras mantidas no idioma africano causam alguma estranheza, mas ajudam a mergulhar naquele rico universo. O problema está na manutenção de algumas expressões em inglês, e que já temos equivalentes por aqui. É o caso de “Cape Town” (Cidade do Cabo), de “Red Cross Hospital” (Hospital da Cruz Vermelha) e de “Inspetor Gadget”, que conhecemos por Inspetor Bugiganga… Há também o CNA (Congresso Nacional Africano), o partido de Mandela, que aparece no livro como ACN, o original em inglês. Dispensável…

Afora isso, o livro vale muito. Deixo um conselho ao leitor: fortaleça seu coração e prepare o espírito, o final é arrebatador.

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zuluTítulo: Zulu
Autor: Caryl Férey
Editora: Vestígio
Páginas: 288
Este livro no Skoob

SINOPSE: Carregado de violência e desvelado por um texto primoroso e premiado, Zulu é um raio-x estarrecedor da realidade criminal de uma nação marcada por desigualdades e contradições.

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