resenha

RESENHA | Enquanto eles dormiam, de Donna Leon


Aos 17 anos, quando comecei a me interessar de verdade por literatura policial, descobri a coleção da Companhia das Letras dedicada ao gênero, com suas simpáticas lombadas coloridas. Na época, uma das coisas que mais me interessou foi a possibilidade de conhecer autores fora do eixo Inglaterra-EUA: brasileiros, franceses, escoceses, suecos, italianos, entre outros países representados na coleção. Apesar de Donna Leon ser americana, sempre enquadrei suas obras nessa última nacionalidade, uma vez que a autora vive na Itália desde 1981, é lá que ela ambienta a longa série protagonizada por Guido Brunetti, comissário da polícia de Veneza.

Da autora, já tinha lido o ótimo Morte no Teatro La Fenice e o fraco Vestido para morrer. Minha terceira visita à obra de Leon foi este Enquanto eles dormiam (Companhia das Letras, 288 páginas). Na trama, Brunetti é procurado por Maria Testa, ex-freira de uma ordem conhecida por oferecer assistência a idosos doentes. Maria, que trabalhou na casa de repouso onde a mãe de Brunetti vive, suspeita que a morte de um grupo de idosos não se deu pelas causas naturais que os relatórios oficiais sugerem, e pede a ele que averigue quem teria se beneficiado por esses óbitos. Maria não dispõe de nada além da intuição, de modo que é impossível para Brunetti abrir um inquérito oficial. Mas isso não impede o comissário, que, aos poucos, vai se convencendo de que há algo de sinistro por trás das mortes.

Sexto livro da americana, Enquanto eles dormiam tem muitas qualidades. A escrita de Donna Leon é uma delas. Desde a ironia com que pontua os diálogos até as ótimas descrições da cidade, que trazem para perto a distante Veneza, a autora mostra segurança e habilidade no uso das palavras. A prosa soa sempre elegante e é agradável de se ler, um talento que autores de mistério, talvez na ânsia de fisgar pela trama, tendem a não cultivar. Aqui temos uma feliz exceção.

 

Outro ponto positivo tem a ver com algo muito próprio das extensas séries com um mesmo personagem, tão características da literatura policial: a mistura entre velho e novo, conhecido e inédito que faz parte da lógica destes livros. Seguindo a cartilha, a autora presenteia seus leitores com os elementos já familiares de sua obra – a rotina de Guido Brunetti na delegacia, sua vida familiar, a dinâmica com os coadjuvantes recorrentes, os comentários sobre a sociedade veneziana –, ao mesmo tempo que introduz novos contextos em que estes ingredientes se encaixam. Assim, além de um novo mistério a ser desvendado, há novos temas em questão e novos dilemas nos quais personagens já conhecidos se envolvem.

Parece o básico de toda série, mas pense em quão trabalhoso é construir esse básico: o equilíbrio entre agradar os leitores fiéis sem alienar os novos; escrever para os que são fãs de um modo que consiga atrair os que não são. Enquanto eles dormiam é o perfeito exemplar desse tipo de narrativa seriada que remete a Conan Doyle e Agatha Christie, onde todos os livros são uma porta de entrada para um universo de códigos e características próprias. O tipo de leitura leve, despretensiosa e acolhedora da qual todos precisamos vez por outra.

A construção temática da história também merece destaque. Leon está escrevendo sobre religião; esse é o tópico central do livro. Desde a identidade da pessoa que põe a trama em movimento – uma ex-freira – aos problemas enfrentados pela filha de Brunetti na escola – um padre professor de catequismo com o qual ela não se dá –, o assunto está diluído em diferentes dosagens ao longo de toda a narrativa. É o choque entre a visão religiosa do mundo, e dos muitos males cometidos em nome da religião, e o materialismo por vezes agressivo de Brunetti que conduz os acontecimentos da trama.

Mas vale uma ressalva importante, pelo menos para mim. Em muitos momentos, a discussão sobre religião que a autora coloca na boca dos personagens carece de profundidade, recorrendo e se apoiando fortemente nos estereótipos. Não há religiosos razoáveis no romance, nem mesmo um; todos são no mínimo pouco confiáveis, suspeitos, quando não estúpidos ou maus. Em Enquanto eles dormiam, crer – ser católico, mais especificamente – é um estado muito próximo da corrupção. Mas a generalização nas discussões de Brunetti e demais personagens não é de estranhar considerando o entendimento equivocado destes sobre o cristianismo. Um exemplo é a cena em que Brunetti, com ares de entendido, pergunta ao colega Vianelo se o cristianismo não é, afinal de contas, sobre a bondade humana. Qualquer um que saiba o mínimo de teologia cristã dará uma gargalhada diante de tal ideia.

A trama em si demora a engrenar, o que faz sentido, já que Brunetti não faz ideia se de fato algo fora do normal está acontecendo, e precisa primeiro entender onde está pisando. Isto certamente incomodará quem tem preferência por histórias mais ágeis. Leon leva o tempo que julga necessário preparando o cenário e apresentando os personagens do drama, e entrega um final sólido, mas que talvez perca alguns leitores pouco afeitos a seu estilo mais vagaroso pelo caminho.

Os que restarem, como eu, devem ficar satisfeitos, embora não impressionados. Enquanto eles dormiam não é brilhante, mas competente, e cumpre seu papel como um legítimo livro policial de série: nos guiar por um universo familiar de personagens e suas aventuras.

Título: Enquanto eles dormiam
Autora: Donna Leon
Tradução: Carlos Alberto Bárbaro
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2010
Páginas: 288
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SINOPSE – É início de primavera em Veneza. Com as temperaturas amenas, as hordas de turistas e as verduras e frutas no mercado de Rialto, parece chegar também uma onda de calma ao já não muito agitado submundo do crime da Sereníssima. Tomado pelo tédio, o commissario Guido Brunetti já perdia as esperanças de qualquer ação, até que recebe uma estranha visita. Mais uma vez retratando as peripécias desse atípico detetive – amante da boa mesa e da literatura e casado com uma intelectual filha de um conde veneziano – em meio a canais, praças e vielas que ele conhece como ninguém, Donna Leon nos conduz agora aos subterrâneos de uma misteriosa organização religiosa, protegida por figurões da cidade. Nesta trama cheia de intimidação e dolce vitta, Brunetti precisará de muita cautela e astúcia para aplacar a influência dos poderosos, inclusive de seu chefe, e proteger uma boa alma.

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