resenha

Creepshow: entre o riso nervoso e o frio na barriga


No comecinho dos anos 80, quando eu voltava da banca com um exemplar de “Kripta”, minha avó torcia o nariz: Lá vem você com essas revistas horríveis!. Ela detestava aquele desfile de mortos insepultos, gente de olhar demoníaco, gritos e decapitações. O papel barato e os desenhos ordinários em preto e branco contribuíam para achar aquilo um lixo, mas todo mês os meninos do bairro juntavam suas moedas pra levar aquele pequeno universo de terror pra casa. Quando a edição esgotava, apelávamos para “Spektro”, “Calafrio” ou “Mestres do Terror”. Devorávamos aquelas histórias como os lobisomens se alimentavam das vítimas desesperadas.

Minha avó não era a única a sumir com as revistas que eu esquecia pela casa. O mesmo fenômeno acontecia com meus amigos, e esse mistério não nos assombrava pra valer. Já a fórmula horror-violência-sobrenatural funcionava sempre, mesmo que repetida à exaustão! Para temperar o cardápio do mau gosto, havia profanação de túmulos, piadas com humor duvidoso, e estética propositadamente mal cuidada. Boa parte do material que abastecia essas revistas vinha da EC Comics, editora estadunidense que não poupava ninguém da torrente trash, sanguinolenta e apelativa de suas páginas. Essa atmosfera de bizarrices inspirou Stephen King a escrever o roteiro de “Creepshow”, que tinha na direção ninguém menos que George Romero, famoso à época pelos horrorosos (no bom sentido) “A noite dos mortos vivos” e “O despertar dos mortos”. Foi o macabro encontro de dois mestres do terror! O resultado é uma homenagem a um medo ancestral num filme divertido e arrepiante. No Brasil, a estréia foi em 25 de dezembro de 1982, ironia própria de um Zé do Caixão…

Para os fãs do gênero, parecia ser o auge. Mas e se mais um artista de sangue gelado se juntasse para render tributo aos vapores fétidos dos mausoléus trevosos? Bernie Wrightson já era um desenhista famoso por dar vida ao Monstro do Pântano, e seu traço impiedoso só fez a cobra morder o próprio rabo. Isto é: se um gibi havia levado King e Romero a fazer cinema, por que não adaptar o filme para um gibi?


Esse festim diabólico chega agora às livrarias brasileiras em capa dura e belo tratamento gráfico pela DarkSide Books. No melhor estilo horripilante, as 64 páginas trazem cinco contos que deixam a realidade entediante no retrovisor.

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Em “Dia dos Pais”, o leitor conhece uma família que faz jus ao ditado “parente é serpente”. “A solitária morte de Jordy Verrill” mostra como nem tudo o que cai do céu é bom. “A caixa” ensina a dominar a própria curiosidade. “Indo com a maré” revela a perversidade humana travestida em bons modos, e “Vingança barata”, a inutilidade de certas manias de limpeza. Se o leitor achou as sinopses curtas demais, acredite: é para o seu bem…

Seguindo a linha dessas revistas horríveis, Creepshow traz um asqueroso narrador a apresentar as histórias. Irônico, Creep faz piadas infames e trocadilhos vergonhosos que podem embrulhar o estômago de qualquer um. Exceto o do tradutor Érico Assis, que deve ter se divertido como nunca para encontrar soluções de outro mundo…

O lançamento de Creepshow pode ser considerada também uma homenagem póstuma a Bernie Wrightson e a George Romero, que passaram a dormir de pés juntos em março e julho deste ano. Que Stephen King não tenha pressa! Mas em se tratando desses mestres do terror, não seria surpresa encontrá-los voltando de seus túmulos numa história qualquer…

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Título: Creepshow
Autores: Stephen King, Bernie Wrightson
Tradução: Érico Assis
Editora: Darkside Books
Páginas: 64
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SINOPSE – Tudo começou em 1982. King juntou forças com outro gênio das sombras, o diretor George A. Romero, para realizarem um filme inspirado em quadrinhos clássicos dos anos 1950, como Contos da Cripta, da EC Comics. O longa-metragem marcou a estréia de King como roteirista e, curiosamente, sua segunda aparição como ator. Creepshow se tornaria um “cult movie” instantâneo. E, no mesmo ano, Stephen King quis deixar ainda mais explícita sua homenagem à fonte original. Assim, ele adaptou seu roteiro de cinema para os quadrinhos, contando com a arte do magistral Bernie Wrightson – um dos criadores e primeiro ilustrador de O Monstro do Pântano – e a capa de Jack Kamen, autor da EC Comics. A HQ era a maneira perfeita para os fãs reviverem todos os pesadelos do filme em casa. Trinta e cinco anos depois, você pode fazer o mesmo, até porque o mais provável é que sua fita VHS já esteja desmagnetizada. Creepshow reúne cinco histórias de arrepiar, duas delas adaptadas de contos que King já havia publicado: “Weeds” e “The Crate”. Usando um decrépito narrador morto-vivo, o autor soube recriar o clima dos gibis malditos que o assustavam quando ainda era um adolescente rebelde no estado do Maine. Como todos os títulos da Darkside Books, Creepshow tem uma edição em capa dura para você guardar para sempre, com todo orgulho.

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