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O retorno triunfal de Garcia-Roza


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LUIZ ALFREDO GARCIA-ROZA, MATEUS PINHEIRO E LIVIA GARCIA-ROZA – No recém-lançado “Um lugar perigoso”, o autor carioca se reafirma como uma das vozes mais originais do cenário mundial. (Foto: Mateus Pinheiro)

 

A primeira vez que li Luiz Alfredo Garcia-Roza foi no colégio. Época difícil, aquela. Sofria bullying quase todo dia e não havia nada que pudesse me “salvar”. Todavia, assim que comecei Uma Janela Em Copacabana, vi naqueles assassinatos iniciais a centelha da grande fogueira que seria a literatura como escapismo em minha vida. Um livro espetacular em todos os níveis. O final me tira o fôlego até hoje. E foi justamente buscando mais obras como aquela que procurei os outros livros protagonizados pelo delegado Espinosa.

Hoje, anos depois e tendo lido todos eles, posso seguramente dizer que Um Lugar Perigoso, último volume da série, lançado mês passado pela Companhia das Letras, enquadra-se junto de Espinosa Sem Saida e O Silêncio da Chuva – primeiro livro não-acadêmico do autor – como uma representação clara do que é a literatura policial brasileira.

espinosa_novoEsqueçam Rubem Fonseca e sua densa crítica social. Esqueçam Tony Bellotto e suas tentativas tragicômicas – e isso não foi uma crítica! – de se firmar como expoente neonoir. Esqueçam Raphael Montes e seu hard-boiled thriller mesclado ao traço do best-seller. Luiz Alfredo Garcia-Roza é o autor policial nacional por excelência. Reservado, na dele, só concedeu uma noite de autógrafos em todos esses vinte anos de vida & obra do delegado Espinosa, pois considera “constrangedor” ter de invitar amigos e parentes para uma obrigação social que é o lançamento de um livro. O fez outubro passado por ocasião do novo romance de sua esposa, Livia – outra que escreve maravilhosamente bem. Essa equação resulta no que já falei: Garcia-Roza é o exemplar perfeito do autor policial pós-Agatha Christie: a carreira é oscilante e volumes nem-tão-bons-assim mesclam-se aos excelentes já citados, como todo autor policial que se preze deve ser. Não existe obra literária cem por cento perfeita, muito menos em quem (sobre) vive de inventar formas cada vez mais inusitadas de matar gente.

Falemos, pois, do tal lugar perigoso do título, a mente do professor Vicente. Trata-se, aviso desde já, de uma história onde o protagonista é coadjuvante. Sim. Espinosa, o delegado que só come no árabe da galeria Menescal e transa com uma arquiteta em constante jet lag de queijos e vinhos, não passa de mero coadjuvante nessa nova trama policialesca. Evocando uma estética à la Patricia Highsmith, Luiz Alfredo bombardeia o leitor com a mente insana de um professor que belo dia se depara com uma lista de mulheres. Sofrendo de um problema neurológico grave, ele não consegue se lembrar de quem são essas pessoas. Recorre, portanto, a uma amiga. Conforme a narrativa avança, o leitor vai percebendo que nem tudo é o que parece ser. E a graça do livro é justamente essa. Investigar junto do atormentado. A sensação que fica é um enorme quebra-cabeças cujas peças são as subtramas de livros anteriores do autor. A vigilância da janela em Copacabana, o incógnito do primeiro livro, a mente insana de Perseguido e Na Multidão. Tudo isso se confunde nos traços característicos da prosa garciarozeana. Há toda uma rede que se sustenta muito bem até o final invariavelmente aberto, onde Espinosa filosofa após uma caçada vertiginosa pelo calçadão da Princesinha do Mar.

O saldo?
Eu diria que Espinosa retorna em 2014 o mesmo de 1996, 2002 e 2012, etc.: astuto, ponderado, certeiro. A escolha de Luiz Alfredo foi arriscada: deixar o detetive principal como mero espectador da loucura e trazer o leitor à tona, como Roberto Bolaño fez em algumas de suas obras, investigando e participando do texto para compreendê-lo na totalidade, poderia ter se revelado um completo fracasso, como apostavam muitos entusiastas de suas obras. Mais um irregular, mais um ruim, disseram. E eu vos digo aqui, com todas as letras: NÃO. Espinosa is back, my friends. E mais forte que nunca. Bato, portanto, o último prego no caixão dos que não acreditam que Garcia-Roza seja um autor policial de fato: enquanto muitos se preocupam em evoluir suas personagens, ele se preocupa em evoluir a trama e o modo de contar sua história. Palmas, louros e binóculos alemães, pois.

(Imagens: Mateus Pinheiro)

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