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Rio Noir: Com espírito de Flamengo, mas com o time do Vasco


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Por Rogério Christofoletti – Pode a cidade mais solar do Brasil se tingir de negro, revestida de crimes, suspense e mistério? Pode. O Rio de Janeiro continua lindo, mas também não é feito de açúcar e sabe muito bem viver de violência e perversidade. Não era preciso lançar “Rio Noir” para saber disso, mas a chegada da coletânea às livrarias embaça mais uma vez a vitrine desses inesquecíveis cartões postais.

Composta por 14 contos e chancelada pela Casa da Palavra, a obra repete a fórmula da Akashic Books, editora nova-iorquina que publicou uma série de livros com histórias noir de escritores famosos tendo como cenários cidades deslumbrantes. Foi assim com Londres, Paris, Havana, Barcelona, Roma, entre outras, sem contar os muitos sets dos Estados Unidos. O capítulo brasileiro elege uma cidade partida, babilônica, com fontes murmurantes, purgatório da beleza e do caos. O curioso é que é editada por um paulista, Tony Bellotto, que – justiça seja feita! – é quase carioca, afinal mora na cidade há mais de vinte anos. Provocações à parte, “Rio Noir” é um acontecimento para a literatura policial nacional. Não por sua magnitude ou originalidade, mas pelo momento da produção local, que atrai cada vez mais público, ganha bastante visibilidade e destorce o nariz da crítica mais ranheta.

A coisa funciona? Sim, bem ao estilo do bondinho de Santa Teresa: emperra em alguns trechos, ganha velocidade em outros, mas diverte no final. Por natureza, qualquer coletânea de contos é plural, e é natural que ela oscile também em ritmo e qualidade. Para o leitor, a vantagem é poder pular livremente de uma história à outra sem respeitar a linearidade do índice. Por isso, se você me permitir, vou dar a real: comece pelos contos dos turistas e deixe a leitura dos habitués para o final. Não entendeu? Um dos problemas de “Rio Noir” é a escalação do time.

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O índice traz autores que podem ser boas referências da vida contemporânea carioca, mas que pouco (ou nada) exercem da literatura policial. É o caso de MV Bill, Luiz Eduardo Soares e Guilherme Fiuza, que oferecem narrativas coloridas, bem-humoradas, frequentadas por personagens típicos da cidade: o traficante dono-do-morro, a socialite biscate, o PM corrupto, o político flexível. Os episódios são escorados na violência, mas não são necessariamente noir. Existe crítica social, hiper-realismo e pitadas de etnografia urbana, mas nem toda história com tiro e morte é policial, confere? Se fosse assim, todo livro com beijo seria romântico…

Estou sendo simplista porque o problema me parece pouco complexo mesmo: o jogo nem sempre é bom porque faltam craques no time. Imagine se “Rio Noir” tivesse um Sérgio Sant’Anna, um Carlos Heitor Cony ou um Bernardo Carvalho! Eles não são especialistas no gênero, é verdade, mas sabem muito do riscado! Agora, imagine o livro sem o pelé de nossa ficção policial, Rubem Fonseca. Pois é, a coletânea não bota o homem pra jogar e aí, já viu. Fica sem uma fundamental referência. Me desculpem os cruz-maltinos, mas – numa frase – “Rio Noir” tem espírito de Flamengo mas vai a campo com o time do Vasco!

Imagino que entraves editoriais tenham complicado a vida do treinador. Marcelo Ferroni e Arnaldo Bloch se esforçam, correm atrás da bola, mas ela escapa. Falta domínio dos fundamentos da ficção policial. É um problema de estilo de jogo, e é bem capaz que em outras equipes, tornem a vida do zagueiro um inferno. Falta habilidade…

Mas “Rio Noir” não faz feio. Esperto, o treinador montou o esquema com dois veteranos nas pontas: Luiz Alfredo García-Roza e Luis Fernando Verissimo. Os mestres distribuem bem as bolas. Atendendo ao vaticínio de Gentil Cardoso – pernambucano de nascimento e carioca de alma –, “quem se desloca recebe, quem pede tem preferência”. Por isso, Victoria Saramago, Raphael Montes e Alexandre Fraga mostram as armas em bons momentos. Uma viciada norte-americana perambula pela Floresta da Tijuca, um adolescente deslumbrado sobe e desce num edifício de Copacabana, e um canibal volta à lida em Ipanema. Tem mutilação, sangue, sexo e traição.

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Já tarimbados no ofício, Flávio Carneiro e Tony Bellotto seguram o meio-campo. O primeiro apresenta um conto ágil, cheio de referências a clássicos da ficção policial, e o que é melhor: joga quase sem bola. Prova cabal de que é desnecessário espalhar corpos para atrair o leitor. Bellotto, mais solto do que nunca, costura uma trama praieira: no Leme, um aproveitador metido a personal trainer fareja encrenca com mulheres casadas, saradas e sacanas.

Para o troféu de craque-revelação, um empate: Adriana Lisboa e Arthur Dapieve. Ela conduz a história tão bem, sem qualquer pressa e com tanta maestria que mais parece uma veterana das novelas negras. Mescla misticismo, erotismo e suspense no Largo do Machado. Se uma cigana pedir para ler sua mão, pense bem antes de negar… Dapieve escreve de forma marota, como aquele sorrisinho de canto de boca que espreme os olhinhos atrás dos óculos. Com piadas inteligentes e fina ironia, dribla a atenção do leitor. Sacanagem típica de carioca. Vez em quando dá um toque de classe. Atitude típica de escritor policial. De quebra, planta um detetive amarrotado de filme noir nos pés do Cristo diante de um cadáver. É um personagem que desafia a madrugada numa cidade que não dorme. De touca…

Travestis, prostitutas, gigolôs, advogados de porta-de-cadeia, celebridades de ocasião, escritores esquisitões, acertos de conta… “Rio Noir” tem de tudo um pouco. Já dei a fita: comece pelos contos dos turistas e deixe os nativos pro final. Não vai ter sabor amargo. Nem precisa agradecer: gentileza gera gentileza.

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Título: Rio Noir
Autor: Tony Bellotto (coletânea)
Editora: Casa da Palavra
Páginas: 304
Ano: 2014
Este livro no Skoob

SINOPSE – Com o sucesso da série noir nos Estados Unidos, que reúne grandes escritores em contos policiais com o pano de fundo de cada bairro, a edição expandiu para outros países. Em parceria com a Akashic Books, chega o primeiro noir brasileiro para compor a série de sucesso, tendo como cenário a ‘cidade da beleza e do caos’. Com edição de Tony Bellotto, a versão brasileira inclui Luiz Alfredo Garcia-Roza, MV Bill, Luiz Eduardo Soares, Guilherme Fiuza, Arthur Dapieve, Victoria Saramago, Arnaldo Bloch, Adriana Lisboa, Tony Bellotto, Alexandre Fraga, Marcelo Ferroni, Flávio Carneiro, Raphael Montes e Luis Fernando Verissimo. Cada conto apresenta um bairro do Rio de Janeiro, do Leme a Bangu. Sob uma perspectiva contemporânea e urbana da cidade partida, o livro reúne contos de personagens (e histórias) tipicamente cariocas, da classe média cosmopolita, da população de comunidades carentes e de socialites encasteladas. O cenário é um Rio de Janeiro de lindas praias, mulheres sensuais, favelas, tiroteios e disputas sangrentas entre facções criminosas.

(Imagens: Josué de Oliveira)

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